"VELHO" é o seu pensamento....
(ou O ALMIRANTE E A MARIPOSA)
- Esses véi que não saca nada de informática, fica catando milho no computador na maior impata – Comentava com seu colega um aluno irritado por uma professora estar ocupando um computador, impedindo-o de twitar.
- Pois é mano, inda mais mulher. Esse povo ainda não sabe que informática é pra gente, que tá com sangue na guerra, e fica aí f... com a paciência da gente. Tem professor que ensina informática e a turma dá de dez a zero nele. Agente enrola, joga, carrega programa o tempo todo e ele nem nota.
Logicamente que os dois alunos não me viram porque eu estava atrás de um dos pilares da cantina. Estava deliciosamente curtindo meu último dia de atividade na escola antes das férias desse ano. Tinha pedido um sanduíche (o lavoisier estava de meter medo; ralo, com a cor de burro-quando-foge) e degustava o mesmo pausadamente, consumindo cada migalha. Até um pedaço do queijo que caíra na mesa foi recuperado (depois de olhar para os lados e me certificar que não era visto) com a desculpa de testar meu sistema imunológico com alguns microbiozinhos inocentes. Me lembrava o Exército no fim de expediente das sextas-feiras, quando meu nome não saía na escala de plantão do fim de semana. Avançava o rancho no fim da fila, pegava o bandejão (V.O. para os íntimos) e comia lentamente aquele sobe-desce coalhado na gurdura, como se fora uma ceia de Natal.
Sinceramente eu torci para que alguém aparecesse e me tirasse daquele sufoco. Como não surgia ninguém e os jovens, possíveis alunos de informática, continuavam com seu depreciativo diálogo, larguei repentinamente a merenda e me senti na obrigação de participar da conversa sem ser convidado:
- Senhores, desculpe a intromissão, mas gostaria de fazer uma pergunta, pode ser?
- Manda - falou o primeiro com ar desafiador.
- Já ouviram falar em Almirante Hopper?
- Entendi. O senhor é um desses professores de informática da antiga e estava escutando nossa conversa escondido. – Disse o segundo aluno, talvez analisando meu aspecto jurássico.
- Nada disso. Eu já estava aqui quando vocês chegaram falando alto, sem observar em volta. E aí ? Alguém responde, ou vão sair pela tangente (se é que sabem o que é tangente)?
- Que qui tem a ver esse almirante com a gente? A gente entende é de computador, não de militarismo. Já somos concluintes.
- Não é “esse” mas “essa” Almirante. Sim, uma mulher. Uma anciã.
- Que tem a ver ?
- Muito, afinal vocês são praticamente técnicos em informática. São feras em bits-bytes e deveriam conhecer como o computador chegou ao que é hoje. Imagino que pelo menos devem saber algo sobre linguagem de máquina, assembly, Mark II, Mark I, Eniac, Univac, Cobol, Fortran, bug e outros bichos ...
- ???
- Pelo menos devem conhecer a história do almirante e a mariposa...
- Peraí, fábula? Isso é uma escola técnica, não jardim de infância.
- O QUÊ?! Não conhecem a história do ALMIRANTE E A MARIPOSA, tão propagada em fóruns na Internet? E se vangloriam de “sacarem” de computação?
Visto que os peguei de surpresa, e ganhei um pouco de atenção, apanhei calmamente meu resto de sanduíche, e, com um leve riso de canto de boca, puxei uma cadeira e passei a contar a história dessa valorosa mulher. Agora, já a todo ouvidos e já sem a indignação inicial.
- Pouco antes da segunda grande guerra, a então Tenente da Marinha Grace Hopper, americana, com quase quarenta anos (idosa para a época) recebeu como primeira missão, no prazo de 3 dias, calcular os coeficientes da série de arcos-tangentes, usando a ACC (Automatic Sequence Controlled Calculator) , uma máquina calculadora eletromecânica que pesava 35 toneladas, e continha mais de 80 km de fio interligando seus relés, tendo como entrada e saída centenas de cartões perfurados. Essa máquina era baseada na idéia de Babbage, considerado o inventor do computador main-frame, embora não tivesse oportunidade de construí-lo.
- E ela deu conta? – perguntou o mais destemido, já se interessando pela história.
- Não só cumpriu a missão programando em linguagem de máquina, como escreveu o manual de operação desse monstrengo, num calhamaço de 500 páginas, lançando em primeira mão, o princípio operacional dos computadores. Durante a guerra, essa mulher de sangue na guerra, como vocês se intitulam, já desenvolvia o Mark, o primeiro computador do mundo, além de aperfeiçoar a ACC e inventar o conceito de compilador.
- Cara ! – disse o segundo aluno, parecendo espantado.
- Cara não, coroa. Já com mais de 50 anos, assumiu o controle da construção do UNIVAC (Universal Automatic Computer), o primeiro computador à válvula do planeta, e desenvolveu, pessoalmente, um compilador para essa máquina. Depois disso seus trabalhos lhe renderam tantos títulos que nem ela mesma tinha conhecimento. Só de “Dra. Honoris Causa” foram mais de dez, nas mais famosas Universidades. Só aceitou se reformar da Marinha dos Estados Unidos, como Almirante, aos 80 anos de idade à pleno vapor. Isso, depois de ter desenvolvido o COBOL (quinze anos antes da popularização de orientação a objeto), inventado o conceito de ASSEMBLY e criado essa linguagem. É, caríssimos, antes do assembly, hoje ainda usado em PIC e CLP, a programação era na base do 00110011000111...(risos). Entretanto, com todo esse curriculum, ela é mais conhecida mundialmente por outro fato.
- Qual ? – falaram em uníssono.
- O fato de ter inventado o termo “bug”, tão conhecido internacionalmente.
- Sei, o tal inseto que provocou defeito no computador – disse um deles.
- Isso foi durante o desenvolvimento de Mark II, em 1946, quando um dos relés teimava em não operar, mesmo energizado, criando um bit zero onde deveria ter bit um. Ela percorreu aquela imensidão de relés, um a um, e descobriu que se tratava de uma mariposa que havia morrido entre os contatos do relé número 70 no painel F.
- Disso nós tínhamos uma idéia.
- Então, ela retirou a mariposa morta, prendeu-a com fita adesiva na página 92 do livro de ocorrência, no dia 9 de setembro às 15 horas, com os seguintes dizeres: “First actual case of bug being found” (primeiro caso real de bug encontrado). Esse livro encontra-se no museu da Marinha dos EUA com o inseto preso. Daí, a história do Almirante e a Mariposa (não a fábula).
- Então viveu muito a velhinha – disse o primeiro já em tom de respeito.
- Faleceu há pouco tempo, em 1992, com quase noventa anos de idade, e ainda rabiscando algo sobre computadores do futuro. Vocês já deviam estar se iniciando nessa máquina.
- É verdade – disse o mais velho. – Eu já digitava no Word e rabiscava o Paint.
- Então, da próxima vez que virem alguém mais velho tateando um teclado, em vez de depreciá-lo, tentem ajudá-lo com suas experiências. Foi exatamente isso que a Almirante Hopper, a velhinha, fez até o fim.
Levantei-me logo, para não embaraça-los, mas não resisti a tentação: sem que me vissem, apontei para o mais afobado com tres dedos da mão direita dobrados, indicador e polegar estendidos em forma de L, movimentei o polegar rápido para frente e em seguida assoprei a fumaça que ainda escapava do indicador . Afinal sou humano, erro muito.
Ainda convalescente da última intervenção médica ("intervenção" aí é uma palavra suave para "introduções perfuro-cortantes violentas") tenho passado minhas horas lendo a Intranet da nossa escola e confesso que ainda não entendi essa dicotomia, que julgo exagerada, em torno dos cursos integrados ao nível médio, e estou aberto à explicações para melhorar esse entendimento. Aberto aí significa "mente aberta", pois o que não deveria ser aberto e que tinha ficado fechado por 65 anos, apenas expulsando material inservível, foi indevidamente digitado, esculaxado, furado, retalhado e ainda se viu invadido por equipamento de formato e dimensões extremamente horripilantes, com ponta semelhante àquelas baionetas da primeira grande guerra. E contando com a discrição dos 4 ou 5 leitores do "Conversa de Cantina", relato a indignação que ficamos com a posição humilhante a que somos submetidos (de ladinho com a cara para a parede), resistindo bravamente ao efeito da sedação, que resulta em dores devido aos cortes, numa tentativa de imaginar e tentar evitar coisas ruins que podem acontecer sem seu consentimento. Tudo isso por conta de uma medicina arcaica que ainda não se deu conta de que já existem pesquisas avançadas não invasivas nessa área, que analisa o sangue com raios lasers e determina o tipo de lesão acometida ao freguês.
Eu por exemplo me senti como o peixe daquele diálogo entre a dona-de-casa e o peixeiro, quando ela suspende o coitado do peixe pelo rabo, comenta sobre sua frescura, e pergunta:
- Pirarucu?
- Tiraram sim senhora!
Mas deixando meu sofrimento de lado, que só interessa àqueles que já estão na alça de mira desse pelotão uro-sado-sanguilonento, e que não é o foco dessa crônica, penso que todas as disciplinas são importantes para a formação do alunado de qualquer curso. Entretanto haverá um período (geralmente próximo à conclusão) em que elas haverão de se separar, a depender do interesse de formação do aluno.
Lembro-me, e não faz muito tempo, (há 55 anos apenas) que o curso ginasial das escolas públicas preparava o aluno para o colegial (semelhante ao 2º. Grau hoje) com todo tipo imaginável de conhecimento, como sejam: Filosofia, sociologia, geografia, história, português, literatura, inglês, francês, latim, religião, música, trabalhos manuais, educação física, relações humanas e, na área hoje considerada de exatas, tínhamos apenas aritmética e uma parte das ciências. Lembro perfeitamente que éramos obrigados a decorar e recitar poesias de autores brasileiros e portugueses, de Castro Alves (Deus oh! Deus, onde estás que não respondes...) a Camões (As armas e os barões assinalados...), passando por Catulo da Paixão Cearense (Por que razão nasce branca e roxa a flor do maracujá?...), Gonçalves Dias (I-juca pirama: Meu canto de morte, guerreiros ouvi, sou filho da selva na selva cresci...), etc.
Tínhamos que devorar Machado de Assis, José de Alencar, Euclides da Cunha, Érico Veríssimo, Alexandre Dumas, Dostoievsky, Tolstoi, Emily Bronte, Saint-Exupèry e outros monstros sagrados da literatura franco-russo-luso-brasileira e tudo isso com apenas 11, 12 ou 13 anos. Sem contar que ainda havia tempo para ficarmos atualizados com os gibis e almanaques da época tais como, Tico-tico, Seleções Reader’s Digest, cow-boys como Roy Rogers,Tex Riter, Tim Holt, Hopalong Cassdy, Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira, Zorro e Tonto, Zorro da espada, Fantasma, Mandrake, Família Marvel, Tarzan, Jerônimo (o herói do sertão), o Anjo, Flash Gordon e muito mais que agora me falha a memória (já que não estou pesquisando e sim me lembrando).
Nas línguas, tínhamos que traduzir e arremedar o básico da fala em Latim (Pater Noster qui es in Celi, santificetum...Sic itur ad astra...), Inglês ( The dorbell rings. I answer the door and I find...), Francês (Le matin maman appelle: George, lève toi. Je me lève e je cour à la douche…Vercingétorix devant Cezar...). Nas ciências dissecávamos rãs e outros bichos. Na música líamos partituras básicas e solfejávamos, além de cantar todos os dias o hino nacional. Nas artes, principalmente em trabalhos manuais, tínhamos que criar sempre algo inédito. Na filosofia, sentávamos sob a sombra de árvores e discutíamos o cair das folhas. Na sociologia falávamos do nosso comportamento frente à sociedade. Na religião, aprendíamos sobre a Bíblia. História, todas as datas importantes no mundo (11 de junho 1865: batalha de Riachuelo... 25 junho 1786: Massacre do 7º. De Cavalaria...). Geografia, todas as capitais do mundo (Rússia: Moscou, Moscóvia ou Moscovita...). Sem contar com o que gostávamos mesmo de fazer que era desfilar com a banda marcial, passear nas ruas e matas e jogar bola. E apesar das sabatinas, todos convivíamos bem com essa educação. Raras eram as reprovações, pois se tratava de uma desonra para o aluno e sua família.
Os professores eram médicos ou dentistas (ciências), Padres (português, latim, religião), aritmética (contabilistas), etc. E então havia a festa de formatura com baile, orquestra, terno, gravata, orador da turma, discursos e tudo mais. Era chegada a hora dessas disciplinas se separarem, pois tínhamos de decidir o que continuar estudando no colegial com três opções básicas: Normal, Clássico ou Científico. Para o Normal seguia a maioria das meninas (as famosas normalistas) a se formarem em professoras primárias. Para o Clássico seguiam aqueles que se davam bem com a oratória, filosofia, sociologia, línguas e que não apreciavam a matemática. Tornavam-se advogados, filósofos, sociólogos, humanistas, etc., não necessitando muito das exatas. Para o Científico seguiam os alunos, como eu, que admiravam da matemática e não tinham habilidade com disciplinas hoje conhecida como humanas. Formávamos em engenharia, medicina, economia, etc., com uma vantagem: usávamos muito do que aprendêramos de filosofia e sociologia no secundário. E quando a coisa apertava, sabíamos onde pesquisar ou pedir ajuda.
Por isso, sem querer ofender ninguém, não entendo as galantes farpas distribuídas sobre o assunto humanas versus técnicas já que elas um dia hão de se separar. O que se há de fazer é decidir-se em que oportunidade isso irá acontecer. Essa decisão poderia acontecer em um fórum específico, numa só tomada, o que pouparia o “você-sabe-com-que-está-falando?” oculto sob a névoa das polidas e bem escritas réplicas e tréplicas na Intranet, instigados talvez pelo MEDO do preterimento.
Deixe-me então, não pingar meu colírio alucinógeno, como Simão, mas tomar meu antibióticozinho (sem trocadilhos) e aguardar, com MEDO (eu tenho... portanto tenho medo) pelo menos uns vinte dias com aquilo no ponto (ou o que restou dele) o resultado das análises laboratoriais rezando, pedindo a Deus e torcendo para que não seja necessário prosseguir com essa violência cuja intensidade é extremamente superior à ocorrida. Imaginem, como dizem as mulheres, se nós homens tivéssemos que parir, fazer exames de mama e de papa-nicolau... Mataríamos-nos.
Durante as aulas, via de regra, sempre aparecem perguntas inusitadas, que é um meio de quebrar um pouco a seriedade da mesma, ou até para servir de pausa para um pequeno descanso da oratória do condutor do aprendizado.
Foi numa dessas oportunidades que uma das alunas da escola perguntou se eu concordava com a palavra “presidenta” em vez de “presidente”. Depois de uma pequena reflexão (pois minha área não é o português) lembrei-me de um texto da professora Miriam Rita Moro da Universidade Federal do Paraná onde ela diz que no português existem os particípios ativos como derivativos verbais, como por exemplo: o particípio ativo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de cantar é cantante, o de existir é existente, o de mendigar é mendicante, o de estudar é estudante, o de arder é ardente, e assim por diante... Qual é o particípio ativo do verbo ser? O particípio ativo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade.
Portanto, quando se quer designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, adiciona-se à raiz verbal os sufixos “ante”, “ente” ou “inte”. Dessa maneira uma pessoa que preside, independentemente do sexo é PRESIDENTE, e não presidenta (se for do sexo feminino).
Já o professor de língua portuguesa e apresentador de TV Pasquale Neto diz que a terminação “nte” vem do latim e é comum nas línguas neolatinas, como o português, o espanhol e o italiano. Ela indica o executor de uma ação, normalmente tornando a palavra invariável quanto ao gênero. Por isso, dizemos “o gerente” para homens e “a gerente” quando uma mulher ocupa a função. Talvez pelas conquistas das mulheres em vários territórios, surgiu esse uso e os dicionários se apressaram em acolhê-lo.
Na questão etimológica: vinda do latim praesidentis, particípio presente do verbo praesidere (tomar assento à frente), a palavra seria invariável desde a origem. Se são indiscutivelmente invariáveis até hoje termos como assistente e dependente, de formação semelhante, e a ninguém ocorre dizer que tem uma assistenta ou uma dependenta, por que precisaríamos da palavra “presidenta”?
Eu, que não tenho cacife para tomar partido em um embate de alta envergadura como esse, particularmente concordo, apenas no sentimento, que se a palavra presidenta estiver certa o período seguinte também deveria ser considerado correto:
“Uma candidata a presidenta se comporta como uma adolescenta pouco pacienta quando se acha eleganta para tentar ser nomeada representanta. Entretanto uma dirigenta não deve ser barbarizenta e, sorridenta, violentar o pobre português só para ficar contenta, como a gerenta de uma sauna ardenta".
Depois de uma longa temporada longe da cantina, por problemas de saúde e falecimento na família, retomo a crônica porque uma aluna da escola me confidenciou sua preocupação com a violência e o desrespeito contra o ser humano, vindo dos seus semelhantes, colegas e até de educadores. Ela supostamente teria sido vítima de discriminação. Alguém com maldade suficiente para aumentar a temperatura do inferno lhe dissera que um educador se referiu a ela, durante a merenda na cantina, como “neguinha” e “favelada” por estar participando de um curso de extensão com direito à merenda grátis.
Logicamente que tentei mudar esse pensamento dela, principalmente depois que ela me disse não ter tomando providências porque seu pai era um homem muito violento, além de não haver provas suficientes. Até brinquei que “neguinha” para nós baianos, é até um tratamento carinhoso. Mas não tive muito êxito, e lá se foi ela magoada e mais descrente na humanidade.
Passei a refletir o fato e me deparei com um texto e uma foto do planeta terra tirada pela Voyager à partir de Saturno e vi o que a grande maioria dos antigos já sabia: a Terra era nada menos que um mero ponto em um vasto cosmos circundante. Um mosaico quadriculado estendido em cima dos planetas e um fundo pontilhado de estrelas distantes. Por causa do reflexo da luz do sol na espaçonave, a terra parece estar apoiada em um raio de sol. É apenas um acidente de geometria e ótica. Não há sinal de humanos nem das horríveis modificações que fizemos na superfície da Terra. Tampouco vemos nossas máquinas e nem nós mesmos. Daqui nossa obsessão com o nacionalismo não aparece em evidência. Somos muito pequenos, quase nada. Nessa escala planetária, humanos são irrelevantes, uma fina película de vida num obscuro e solitário torrão de rocha e metal.
Pois é, esse ponto é o nosso lar. Somos nós, humanos. Nele, todos os que você ama, conhecidos, ou de quem você já ouviu falar, quem já existiu, viveram ou vivem suas vidas. Já foi dito que nela a totalidade da alegria e do sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e presa, cada saqueador e vítima, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e plebeu, cada casal apaixonado, cada mãe e pai, cada inventor, explorador, cada criança, cada educador bem ou mal educado, cada político corrupto, cada líder supremo, cada super star, cada santo e pecador na história da nossa espécie, viveu ou vive nessa partícula de poeira suspenso em um raio de sol.
Ela faz pensar nas infinitas crueldades infligidas pelos habitantes de um canto desse pixel nos quase imperceptíveis habitantes de algum outro canto. E como são freqüentes seus desentendimentos, como eles são sedentos de poder e por isso chegam a matar uns aos outros e como fervilham seus ódios. Se pensarmos nos rios de sangue derramados por todos esses reis, imperadores, ditadores, presidentes e ditos superiores para que, em glória e triunfo, eles pudessem ser os chefes momentâneos de uma fração de um ponto. Nossas atitudes, nossa imaginária auto-importância, a ilusão de que nós temos alguma posição privilegiada no universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálido e solitário numa grande e envolvente escuridão. Só que em nossa obscuridade, em toda essa imensidão, não há nenhum indício de que a ajuda virá de algum outro lugar para nos salvar de nós mesmos. Talvez não haja melhor demonstração da tolice das vaidades humanas do que essa imagem do nosso pequeno mundo, um simples ponto.
Essa imagem enfatiza nossa responsabilidade de tratarmos melhor uns aos outros. Se somos apenas um ponto, porque o ser humano continua a maltratar os da sua espécie? Com especialidade aqueles que se dizem “superiores”, seja pelo poder advindo de qualquer fonte (lícita, ilícita, hereditária, doação, amizade, etc.), seja por se acharem mais inteligentes, com mais conhecimento, com mais títulos, de raça melhor, maior poder aquisitivo, bafejado pela sorte por possuir uma caneta na mão. E não causar demérito, destruir ou tentar destruir, subir no ombro, insultar ou injuriar o próximo, é apenas o começo.
Schopenhauer teria dito, e com razão, que em se tratando de injúrias ou insultos, seja por palavras ou atos, esses podem irritar e aborrecer um homem sensato, mas de modo algum tocam a sua honra, porque essa consiste na opinião que se tem sobre ele e que não pode alterar-se por coisas que lhes são exteriores, a não ser no caso de pessoas de mente muito fraca, cuja opinião não conta. Um homem sensato pode, por conseguinte, extravasar sua irritação ou seu desgosto por meio de uma reação proporcional ao fato, mas deve ser mais tolerado como fraqueza humana do que como um dever que lhe é exigido para salvar sua honra. E, portanto, se contrariamente ele pensa o suficiente para não se importar, sua honra, em vez de sofrer as consequências, poderá até mesmo ganhar com isso.
Se juntarmos forças no sentido de respeitar o próximo (preservando sua dignidade) e o planeta Terra (preservando sua superfície), estaremos preservando a união entre os homens e o único lar que eles conhecem e visto na imagem: um pequeno grão de areia na imensidão obscura e caótica do espaço.
Numa dessas minhas divagações costumeiras, mais amiúde com o passar dos janeiros, me assustei um pouco com uma pessoa sentada ao meu lado, que não vi se aproximar, me perguntando se eu sabia para que serve uma mãe.
- ???
- Eu explico: é que eu nasci sem pai nem mãe.
- Sem pai eu até entendo...- brinquei.
- Eu explico: meu pai já era morto quando a minha mãe foi assassinada durante um assalto dentro de um banco, enquanto tentava um empréstimo com o gerente para reformar o quarto do bebê, que era eu, e já estava para nascer. Então fui retirado da sua barriga horas depois de sua morte, e fui criado juntamente com trinta e três irmãos, sem ninguém para chamar de mãe.
- Ah! Eu sinto muito.
- Foi então que resolvi sair pelo mundo para ver se descobriria para que serve uma mãe, e vou lhe contar o que vi:
Vi uma mãe se jogar numa enchente para retirar o filho que se afogava, salvando-o e sendo arrastada pela correnteza;
Vi uma mãe entrar num ringue de box e nocautear um peso médio, com um golpe certeiro nas suas partes baixas, só porque estava batendo no seu filho;
Vi uma mãe subir um morro de favela dominado por traficantes e retirar o filho adolescente puxando-o pela orelha;
Vi várias mães passar noites em claro sentadas à beira das camas de seus filhos enfermos;
Vi várias mães juntas enfrentarem o governo de um país para saber dos corpos dos seus filhos mortos pela ditadura;
Mas principalmente vi uma mãe acompanhar a agonia de seu filho crucificado para então tirá-Lo de lá e ascendê-lo à Glória Eterna.
Foi quando eu descobri para que serve uma mãe: para nos ajudar, nos defender, nos tirar a cruz e nos elevar aos píncaros da glória.
- Sinto por você não ter tido mãe para experimentar essa dádiva – disse um pouco consternado.
E antes de desaparecer tão rápido quanto apareceu, meu interlocutor retrucou:
- Você se engana, meu caro. Antes de o assaltante atirar, minha mãe protegeu sua barriga com uma placa metálica que estava sobre a mesa do gerente do banco. A bala resvalou na placa e atingiu seu coração. Então eu pude nascer...
Hoje é mais uma Quarta Feira de Cinzas em que me preparo para iniciar mais um ano letivo trabalhando com esta mocidade do meu Brasil Varonil, a maioria torcedora do Bahia (o que é uma vantagem), logo após ter emplacado mais um ano (o sexagésimo quarto comemorado entre personalidades ilustres da escola com direito a parabéns e tudo) agradecendo a Deus por me dar mais uma oportunidade de enfrentar esse novo desafio.
Ao passar por nossa Cantina substituta (onde já faço jus a um almoço grátis, por ter um vale quentinha de 500g), em frente à Escola, pois ainda não temos cantina oficial, deparei com um professor que mora nas cercanias e que me indagou sobre uma injustificável contenda na intranet entre dois professores importantes da nossa comunidade EDUCACIONAL. Apenas pude lhe responder que não me agradava nada daquilo que eu estava lendo e, apenas por receio de ser mal entendido, não me dirigia aos mesmos pedindo para acabar imediatamente com o cinza dessa cizânia. E até tentaria justificar (mesmo sendo subalterno hierárquico dos dois, já que seus superiores hierárquicos ainda não se pronunciaram):
O hábito de transformar simples conversas em troca de palavras ásperas numa concorrência agressiva onde uma simples farpa é transformada em crítica ferina, em deboche, ou até mesmo em silêncio hostil só causa degradação para ambos os lados. Durante um embate desse tipo tudo muda fisiologicamente em cada um. O céu escurece, a música vira barulho, o alimento fica ruim e os pensamentos estão todos voltados para a próxima réplica, não sobrando quase nada para uma produção sadia. Todos perdem principalmente os amigos e os que estão acompanhando essas brigas. Sem contar que ficamos embaraçados e em situação altamente desconfortável ao tentar justificar perante os alunos da Instituição tal procedimento.
Sabem o que disse Sócrates? Espezinhar o próximo é uma forma de satisfazer o vício de ser desagradável ou de impor uma falsa superioridade. Para Tiago (4. 1-6) as guerras e contendas vem dos prazeres que militam vossas carnes...
Marx culpa a opressão econômica para a existência das brigas entre os homens. Freud pegou mais pesado: disse que a causa dos conflitos entre semelhantes é devido às inibições sexuais e repressão religiosa. A comunidade também dá seu pitaco, mostrando que o problema está no ambiente, ou seja, que é necessário proporcionar ao ser humano um ambiente mais ameno para que seu comportamento seja modificado.
Mas em outras citações Divinais Ele deixa claro que o conflito vem do coração do homem, mais claramente, da cobiça deste. E por causa da cobiça grandes batalhas foram travadas onde os perdedores foram os cobiçadores. Lembremos que a cobiça custou muito caro a um anjo chamado Satanás: O Céu. E o que dizer de um famoso casal que tinha tudo que precisava (casa, comida, saúde, educação e proteção), sem precisar pagar impostos de qualquer espécie, e que acabou por perder tudo por cobiçar uma simples maçã?
Eu particularmente acho que Tiago quis dizer é que a cobiça vem do prazer. É um desejo forte que domina o ser humano criando uma obsessão ou uma fixação pelo que ele quer ou julga que precisa. A Lei Magna, no seu décimo artigo (não apenas um artigo, mas um mandamento), já previa que o homem seria um grande cobiçador e por isso o proibiu dessa prática. Esse prazer tem a ver com o hedonismo. Mas não um hedonismo cirenaico em que Aristipo (um dos discípulos de Sócrates) dizia que o prazer imediato viria da aplicação da ética; mas sim um hedonismo epicurista localizado na tabela de classificação dos desejos, de Epicuro, como desejo frívolo.
A cobiça, assim como a inveja é vertical e geralmente de baixo para cima, muitas vezes praticada por aquele que se julga inferior a outrem. Sim, porque quem se julga superior nunca olha para baixo reconhecendo que é um abençoado e sim apenas um superior, não devendo satisfações a ninguém. Por isso, em contendas, faz-se mister uma consulta ao coração para certificar-se de que não se trata de cobiça ou inveja o motivo da discórdia. Claro, porque o resultado é sempre drástico, pois deixa os contendores sempre de mãos vazias e o sentimento de que não valeu à pena tanto sofrimento, noites perdidas, tantos inocentes e familiares feridos pelos estilhaços e tantas explicações a serem veiculadas.
Independente da sabedoria popular que diz que quando um não quer, dois não brigam, a solução tem a ver com a humildade, pois, como disse o filósofo Epicuro, e não a Bíblia, “os humildes recebem o que os arrogantes cobiçam”.
- Ainda bem que você não teve a coragem de falar isso tudo para os contendores. Já pensou? Um chefe e um diretor geral seria a maior roubada... – disse o professor me consolando.
- No mínimo uma transferência para um campus bem afastado e bico seco. – respondi, aliviado.
Não verificar minhas coordenadas para agir corretamente.
Lembrar menos daquilo que obtive e mais do que podia ter dado.
Facilitar aprendizado e aprender mais.
Trocar meu carro por um bem maior (a família vai aumentar)
Morar em Arembepe.
Visitar as cidades da minha infância para ver quem ainda vive.
Ser mais família do que já sou.
Voltar pelo menos uma vez a Natal, Campo Formoso, Macau, Mossoró, Piancó, Rio, São Paulo, Brasília e Aracaju
Afastar-me da coca-cola, fast-food e qualquer outro vício danoso.
Exigir menos do Bahia e ver o vitória como um inocente útil, mal necessário, ou um simples "sparring", e não como inimigo
Aprender a bater “O bêbado e a equilibrista”.
Recuperar meus números de sorte 50, 60, 25, 10 e 30
(50 abdominais, 60 cangurus, 25 apoios, 10 barras e duas voltas no dique em 30 minutos).
Ir menos às igrejas, cultos, centros ou coisa que o valha, e rezar mais pela paz mundial.
Continuar amando a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a mim mesmo.
(onde estão encerrados todos os ensinamentos de qualquer crença ou religião).
Seja e torne alguém sabido!
Dê um livro.
É sabido que o livro
é incompreendido !
Pouco lido,
destruído,
no canto esquecido.
Porém não fora este baluarte da humanidade,
impossível repassar informes de verdade
laboriosamente acumulados
que se na memória conservados,
seriam deturpados
(quem conta um conto...)
e nada perpetuados.
Vemos na atual atitude massiva
que sua falta traduz fase primitiva,
estado selvagem da autocracia destrutiva
de minoria dominante compulsiva.
Heróico, pragmático,
ele rompe a barreira das estruturas dogmáticas,
prerrogativa de cleros e de nobrezas hierárquicas
abrindo o horizonte da contestação
e iluminando a possibilidade da argumentação.
Ditaduras o perseguem, queimam-no e na seqüência,
um retorno à condição de subserviência,
degradação filosófica e cultural demência,
quando em manifestação oral
coletiva em atmosfera bestial ,
com tochas, bandeiras e cantos sem igual ,
ouve-se o mandatário vociferar veementemente
persuasivas frases que a multidão repete freneticamente,
numa idolatria ao deus pagão inconseqüente
Assim não era o Nazismo ?
O Facismo ?
Não o são outros “ismos”?
Todavia nosso herói resiste
e em riste
norteia o leitor em formas de sinais ordenados
que em prodigiosa mente são decodificados
e em conceito pessoal da crítica metabolizados
Sós,
livres do orador,
livro e leitor
podem se entender.
Apenas este decide o que absorver
e de bons líderes, idéias poderá ter.
Porém O mais antigo
O mais amigo
que a PAZ
nos trás,
é pouco lido,
e quando lido,
entendido ?
Quase sempre não.
Então,
no canto esquecido!
De coração, neste Natal
dê um livro.
Pelo menos, ESSE LIVRO!
*****************************************
Pode até parecer piegas, mas esse texto foi porque um gari que recolhe lixo da minha rua hoje me pediu:
- Cadê meu Natal???
- Você quer um livro? - brinquei um pouco
- QUERO! Minha filha vai se formar - disse com olhar brilhante e sem perguntar que livro seria.
- Quantos anos tem sua filha? - Perguntei surpreso, já que se tratava de um jovem.
- Sete. Já está no segundo ano. Um dia ela vai ler todos os livros que eu recolher.
Entrei, peguei um livro apropriado, entreguei-lhe e ganhei de Natal mais uma lição de vida.
Certa feita, a escola que eu quero muito bem resolveu agraciar seus servidores com a realização de um curso de mestrado em convênio com os uma universidade de lá do norte. Foi algo de uma importância relevante haja vista que muitos de nós, devido à idade (eu, por exemplo), já nem pensava mais na possibilidade de conseguir uma chance sequer de ter um projeto de pesquisa aceito por uma universidade, rumo a uma titulação maior.
Então é formada a primeira turma e foi uma alegria só. Um trabalho árduo que deixou seqüelas em alguns dos mestres. Não estava programado, mas o sucesso foi tão grande que foi iniciada uma segunda turma com aqueles que, como eu, não estava presentes por ocasião das inscrições e avaliações dos projetos da primeira turma. Então se inicia a segunda turma e, depois de muitos sofrimentos e angústias devido às pressões das avaliações, todos (entre eles o realizador do convênio) concluíram as disciplinas obrigatórias e partiram para realizar seus ensaios e escrever suas dissertações. Vai daí que se anuncia um glorioso salto rumo à melhoria das qualificações dos servidores: é aprovado e iniciado um curso de Doutorado pelo mesmo convênio.
Aí foi a glória! A primeira turma de mestres do convênio, e outros, teriam agora a chance de, mesmo aqueles com pé-na-cova, chegar a um final de carreira em grande estilo: doutorando-se. Todos esses se prepararam, enfrentaram as avaliações e muitos foram aceitos, iniciando-se assim, uma árdua tarefa (bote árdua nisso), que está apenas começando.
Foi então que surgiu o boato das quintas-feiras (sempre quinta feira) onde se dizia que os mestrandos que concluíram suas disciplinas poderiam se matricular no doutorado como alunos especiais. Nem precisa dizer que a notícia caiu como uma bomba, ao pensar que mesmo um pé-na-cova (como eu) poderia ser agraciado com a oferta. Foi uma alegre correria intensa para preparar os projetos, conseguir orientador, passar por rígidas avaliações, e pegar o trem em que, eu mesmo, ainda estava no estribo do vagão quando ele já estava andando.
Continuamos nossa viagem sem importar com o desconforto da classe apertadíssima, na época, participando avidamente, sem desgrudar o olho da lousa e do nosso mestre, da nossa tão sonhada primeira aula. Mas a quinta feira estava nos aguardando para lançar seu fatídico boato de mau-agouro. Dessa vez mais estremecedor: o próximo professor estaria vindo para ministrar a próxima disciplina soltando fogo pelas ventas. O boateiro de plantão tinha até números para apresentar, onde ele dizia que pelo menos treze dos atuais alunos especiais (os 13 de Esparta) teriam que ser sacrificados (leia-se “fritados”), igualzinho aos originais 300 de Esparta, que deram a vida para que seus compatriotas não fossem dizimados. E nosso Xerxes estaria se aproximando célere da nossa cidade, cuspindo fogo com todo seu arsenal.
Dessa vez eu nem pude pensar nos problemas dos colegas, pois o meu era desastroso. Logicamente que durante o sono ( falo muito, dormindo) eu teria contado à minha patroa (sempre atenta ao meu sonambulismo, para me pegar no contrapé) que estava estudando para ser doutor em aproximadamente três ou quatro anos. E é claro que a primeira coisa que ela fez no outro dia, além de me parabenizar, foi comprar um vestido novo em 36 prestações mensais, dizendo que era para dar uma festa no dia da minha defesa. Sem contar que ao falar com minha sogra, pude ouvir a risada de desconfiança da velha.
- Hum! Abra o olho, minha filha! Deve ser alguma mutreta deste teu marido para viajar sozinho e se esbaldar com as raparigas...
E logo nas imediações do meu bairro já se sabia que eu ia ser doutor, pois o tratamento comigo mudou completamente. Alguns meninos de rua, que costumava cercar meu carro e solicitar contribuição para a causa deles (quando o movimento nas sinaleiras estava fraco), brincado com umas armas que devia ser de madeira ou de chocolate, simplesmente me deram passagem, e ainda o coordenador do movimento me cumprimentou:
- Deixa o doutor passá, brodi! Vem aumento aí nas contribuição...
Também eu fui cumprimentado pelo conhecido borracheiro, o qual, sempre que eu demorava mais de uma semana para fazer uma força, jogava “miguelitos” na rua me forçando a manobras perigosas. E dessa vez ele me deixou passar livre:
- Aí meu doutor! Tá na hora de pegar um importado...não vai precisar mais recauchutar...
O gerente do cinema no Ponto Alto, cujo ingresso custa quatro reais e para quem eu sempre exigia meio ingresso, ostentando a carteira de estudante de mestrado, estranhou quando dessa vez eu pedi inteira:
- O que foi, estudante! Perdeu a carteira? Vai gastar esses quatro reais todo sem nem exigir a pipoca?
- É que eu vou trocar por uma de doutorado – deixei escarpar, meio sem graça.
- O que? Um doutor? Aqui o Sr. Só vai pagar meia da meia. É só um real. É muito importante para nosso humilde estabelecimento, a presença de autoridades como o senhor...não esqueça a pipoca...
O que mais me intrigou mesmo foi meu barbeiro. Eu só corto o cabelo quando está grande (não aparo) e não faço a barba porque o custo da mesma é cerca de dez vezes maior que um barbeador descartável. Também, para que gorjeta por apenas dez minutos de trabalho ao custo de seis reais? Ainda mais que ele me coloca o avental mais sujo que tem, e me dá a escova para que eu mesmo tire o meu cabelo do corpo. Mas desta vez ele me colocou um guarda-pó novinho, me perguntou o tipo de corte, ligou a TV e, depois de perguntar se o corte estava bom, (nunca perguntava) disse:
- Hoje a barba é por conta da casa doutor – e fez uma barba bem escanhoada, sendo que ao final, em vez de me dar álcool para eu passar, aplicou uma loção que me lembrou a Áqua Velva e, ao tirar o guarda-pó com todo cuidado, no lugar de me entregar o escovão para que eu mesmo me limpasse, ele colocou talco, cheirando ao Palmolive, para evitar que o cabelo grudasse no pescoço.
Agora vejam vocês na sinuca em que eu posso está metido, com esse boato. Como voltar para meu bairro e simplesmente dizer que fui fritado no doutorado? E a cooperativa dos meninos de rua unidos? Como voltar a me arriscar desviando dos miguelitos do borracheiro? Voltar a pagar o ingresso normal do cinema? Perder o respeito do barbeiro? E o vestido da minha patroa? Mas o pior mesmo é que já posso ouvir a risada sarcástica da minha sogra:
- Não te disse que era mutreta, minha filha? Não tá vendo que este teu marido não tem bagagem pra ser um doutor?
p.s. qualquer semelhança com personagens da vida real, é pura coincidência.
O quinquagésimo número desse periódico bem que poderia ser comemorativo. Todavia devo sanar algumas dúvidas a respeito do Conversa de Cantina, e responder a pelo menos dois questionamentos feitos por duas pessoas idôneas, de alto posto na escola, que do alto do seu alto carguismo (desculpem mas o meu proselitismo prosaico não sabe substantivar alto cargo), me deixaram encafifado.
A primeira disse que nos meus arremedos de crônica eu não citava nomes por medo de sofrer retaliação ou perseguição (de quem?). A segunda me disse que eu não gostava de nada na escola. Então, deixei a “champagne” no supermercado para um possível número cem, e tentarei dirimir essas dúvidas em paralelo.
Da ala feminina, eu gosto da professora Núbia, também, quem não gosta daquela sua eficiência, sorriso franco, e sempre pronta a ajudar. Gosto do sorriso da Engenheira Eliana, da Engenheira Sílvia e da Advogada Kátia. Gosto da professora Mirtânia, independente do nosso entrevero macho-feminista do passado que quase arranhou nosso idílio (eu que não tivesse pedido perdão...), somos muito próximos hoje e admiro sua luta aguerrida em favor dos excluídos. Gosto da professora Dorotéia pela sua disposição de trabalho e conhecimento que muito contribui para enriquecer o conhecimento do alunado e de seus colegas. Também da professora Dilcian, por quem meu filho, seu ex-aluno, se confessou apaixonado por suas aulas. Não conheço servidoras mais eficientes e laboriosas que Gildevane e Lícia, por isso gosto delas pelo desempenho e presteza. As professoras Gina e Cléa moram no meu coração desde os tempos em que eu era substituto na Construção Civil. Gosto da professora Norma quando me chama de “Ronaldo da Cantina” não concordando com dois de nossos colegas, que tentaram me fazer acreditar se tratar de uma espécie de gozação ou desprezo. Eu acho que é um apelido carinhoso.
E o que dizer da pessoa da professora Aurina? Somos amigos desde os tempos em que éramos professores de mesmo nível. Já disse, ela teve merecimento para estar onde está, além de ser muito carismática. Eu continuo por aqui porque ainda não mereci, mas não é por isso que eu vou deixar de gostar dela. Da ala feminina com certeza esqueci de várias, por favor me desculpem.
Da ala masculina eu gosto principalmente da união de todos os professores de Mecânica. Com raríssimas exceções tenho amizade com todos eles, principalmente com professor João Dantas, velho amigo de mais de 35 anos e que foi meu primeiro chefe na área de mecânica. Também aprecio a busca do prof. Mário Cézar por informações legais para nos orientar, e o trabalho do professor Rodrigo nas pesquisas que elevam o nome da Escola. Aprendi a gostar do trabalho do professor Gustavo e, se ele quiser se eternizar no cargo de chefe do nosso departamento, terá meu apoio. Profs. mais novos como Paranhos, Justino e João Carlos, também são amistosos comigo.
Quem não gosta do professor Bruni, deve reavaliar seus conceitos básicos. É uma das pessoas mais amigáveis que conheci. Gosto da inteligência. labor e perspicácia do professor Navarro. De riso largo, merca suas agulhinhas sem incomodar ninguém. O preço? Não se pode discutir, pois ainda não se sabe de que material são feitas. O professor Handerson é meu amigo desde os tempos em que comandava a Direp (tenho-lhe gratidão por ter me ajudado em um socorro médico) e ainda continua produzindo conhecimento a todo vapor. Gosto muito da educação, disposição como educador e presteza de três professores que acho similares em comportamento, que são os professores Cláudio Reynaldo(me ajudou no socorro médico), Hugo (previu minha aprovação no concurso) e Lamartine (que transita também na área de sociologia e filosofia). Nutro uma boa amizade pelo educadíssimo professor Yan (meu velho professor de sax) e Paulo Góes (me ajudou no passado) desde os tempos de substituto. Prof. Affonso, amigo que admiro pelo seu trabalho meticuloso e sempre disponível em passar conhecimento. Gosto também da dedicação e conhecimento do professor Eduardo Marinho, que além de bom amigo é um grande educador, e juntos criamos o primeiro seminário de construção da escola. Também os servidores Edmilson, Antonio Carlos, Vítor e Robson são prestativos comigo quando se tratava de RH, Legislação e obras na escola. Os professores Anílson, Renato, Dan, João Alfredo e Albertino, sempre me dispensaram atenção.
O professor Rogério foi sincero me confortando quando eu não consegui vaga no primeiro concurso que passei na escola, e quando me cumprimentou na ocasião em que, finalmente, passei no segundo concurso e fui nomeado. O professor Rui é um amigo recente que muito admiro, e não o conhecia bem quando era diretor geral. Devemos a ele e ao prof. Antonio Carlos o Mestrado da Escola. Também com os professores Almir e Sílvio eu tive uma maior aproximação na gestão atual da escola. Uma pessoa que gosto muito do trabalho dele pela educação e pronto atendimento, é o funcionário tercerizado Adailton, que já se tornou uma espécie de mascote em mecânica. De outras pessoas dessa ala deixo de comentar por não me lembrar no momento (sexagenário é isso –que me perdoem).
Não consigo enxergar nenhuma lista de homenagens sem os servidores que citei e muitos outros, os quais tento rebuscar com dificuldade na minha massa acinzentada carcomida pelo tempo, como os servidores Adalgiso, Bráulio, Sobral, Jonas, Guilherme, Olivar, Sônia de Desenho e Mecânica, Marilda, Osvaldo, Luis Emilio, Plácido, Arleno, Ivo, Raimundo, Barbosa, Eliezer, Frank, Fernando, Jorjão, Jorginho, Brito, Ilder, Adriano, Jorge Seriano, Zé Mário, Cezar Rogério, Elias Ramos, Sinval, Claudete, Zildete, Neuma, Henrique Caribé, Jenner, Bira de Civil, Bira de Mecânica, Niels, Paulo Alcântara, Ebenezer, Cadidé, Josemir, Biagio, Parracho, Ronaldo Pedreira, Ronaldo Maia, Djane, Cláudia, Nonato, Edna, Marcelino, Lázaro, Márcio, Allan, Reinaldo, Amaurílio, Borges, Vargas, Gilberto, Paulo, Kruger, Rivaldo, Celiana, Elenise, Virgínia, Amorim, R.Martins, Joilson, Nelson, Zé (GRA), Alberto, Vera, Railda, Sena, Zé Luis, D.Mira, etc., que sempre me foram atenciosos, prestativos, e são considerados por mim dignos de menção honrosa em qualquer evento, por serem servidores eficientes e dedicados à escola. É claro que esqueci de mais de uma dezena dos que conheço, e reitero minhas desculpas (sabia do risco).
Na parte material devo afirmar que gosto... gosto, não, sou verdadeiramente apaixonado pela a Escola como um todo, desde 1965 quando aqui aportei pela primeira vez. Mas devo confessar que é do ginásio e da área desportiva que mais gosto. Ainda tenho esperança de ver meus filhos mais novos estudando no IFBA, treinando na futura piscina olímpica e tocando na orquestra da escola. Gosto do Mestrado Minter e de todos os colegas, sendo que vou gostar mais ainda do Dinter, se for aceito. Dos campi que visitei, gostei de todos. Destaque para o auditório de Porto Seguro, o laboratório de construção civil de Eunápolis (as incompreendidas meninas da enfermagem), e a organização de Conquista. Finalmente, gosto de todos os alunos com quem trabalho.
Destarte, espero ter sanado essas duas dúvidas que pairavam no ar quanto ao meu comportamento nos escritos do Conversa de Cantina. Citei nomes reais e pontuei o que gosto na escola. Do que não gosto eu cito por alto nos textos, e falo pessoalmente com os interessados. Dou, portanto, por encerrado o episódio, por não me sentir preparado para polêmicas sobre o assunto.
Vixe!!! Quase ia me esquecendo...
Também gostei das cadeiras novas que me foram apresentadas pelo prof. diretor João Alfredo. Confortáveis, espaçosas e modernas. Espero que o PRPGI receba umas 40 delas.
Ronaldo F. Cavalcante | comentários(3)
Vou tentar textualizar algo que pouco tem a ver com a cantina, até porque estamos comemorando uma data especial, que é o Centenário da nossa Escola Tecnológica, hoje Instituto Federal de Ciência e Tecnologia (Técnico e Superior), para a qual já rendi minhas homenagens na crônica n. 47. Em paralelo a esse evento comemoramos também outro acontecimento, que é o início do primeiro doutorado da Instituição, grupo de elite o qual muito me honra em permitir que eu o acompanhe timidamente, dando os primeiros passos em busca de uma possível titulação mais consistente. E essa primeira turma combina com a festa do centenário, considerando que, estatisticamente falando, uma das médias de idade dos pupilos tangencia a idade da escola.
Todos os alunos tinham dificuldade em se acomodar e sair das cadeiras, não só por estas serem do tipo infanto-juvenil, que imagino terem sido entregues na Instituição por engano, mas também pelas protuberâncias abdominais de muitos da ala masculina. O conjunto das cabeças, na visão do mestre, quando os cabelos não tinham fugido com medo da primeira disciplina,mais parecia uma branca neblina pairando na sala. Isso sem contar a dificuldade dos coitados em ler o material distribuído pelo professor, que garantia a qualidade do texto e das ilustrações. Só que ninguém era besta de assumir que não estava enxergando nada (as fontes...que maldade!). A grande maioria se dividia entre enterrar a cara na apostila e apertar os olhos para ler no quadro, não só pelo grau vencido dos óculos, mas também pela luz emitida por 16 lâmpadas que não valiam 4.
Tudo isso somado aos elevados decibéis de poluição sonora causado pelos aparelhos de ar condicionado defeituosos, a porta barulhenta, os técnicos de informática que entravam a todo instante para checar os roteadores, e os pilotos vencidos, remetia os pobres desvalidos aos tempos da contra-reforma. Alguém, que não identifiquei, balbuciou ao final de uma aula entre um gemido e outro, ao se levantar: “...e pensar que bem próximo daqui temos instalações de primeiro mundo...”.
O Professor, velho conhecido dos tempos de mestrado, de excelente didática, admirado pela turma, parece que voltou um pouco ressabiado para o segundo turno da disciplina, talvez por não ter ainda degustado na Bahia a arraia dos seus sonhos. Não se sensibilizou nem um pouco com nossa época festiva, onde oponentes seculares se abraçam, rasgam seda e se beijam (a cada cem anos) e tascou uma lista imensa de exercícios. Ainda marcou a revisão da prova exatamente no dia do evento principal das comemorações, que era a solenidade dos 100 anos no Teatro Castro Alves. E a prova teria que ser no dia seguinte, ou seja, na ressaca. Pode?
Agora vejam minha situação: estava com dois convites na mão para levar a patroa na solenidade. Mas a orientação do cerimonial era que eu deveria registrar meu nome na lista de quem me passou os tais convites, me comprometer não faltar e ainda deveria trocá-los por ingressos na bilheteria do Teatro (tipo ingresso da Fonte-Nova trocado por Nota Fiscal, lembram?). Preocupado em não fazer nada errado, bolei o plano de pedir ao mestre para ir ao sanitário, já perto do meio dia, e correr até o local de troca, sem almoçar, para chegar a tempo da aula da tarde. Por garantia (nunca se sabe) peguei todas as notas fiscais de gasolina que tinha no porta-luvas e algumas da carteira, juntei aos meus convites, e disparei para o TCA.
Chegando ao posto de troca deparei com uma imensa fila e vi que não ia voltar a tempo. Foi então que ouvi um rapaz mercando:
- Olhaê! Um é cinco e três é dez real. – Mas esse ingresso é grátis – Disse eu inocente.
- É doutor, então pegue a fila. – Achei um abuso e não comprei o ingresso.
Ia voltando quando surgiu uma jovem senhora distinta toda de vermelho, que não me era estranha, pois já a vira desfilando de shortinho lá pela orla, pras bandas da Pituba. Ela me abordou gentilmente e me ofereceu um de seus filhos para segurar no colo e ir para o primeiro lugar na fila, pela módica quantia de cinqüenta reais. Claro que também achei um absurdo e não aceitei. Ainda consegui vê-la entrando em um bonito carro e se afastando.
Foi aí que decidi arriscar melhor sorte à noite, na hora do show. De volta à aula, vi que não tinha perdido muito assunto pois Spinélli (perdão químicos, não sei se é assim que se escreve) ainda estava no quadro. Eis que de repente entra na sala uma personalidade da escola, entrega um santinh..., quer dizer, um ingresso para o professor, e começa distribuir outros na sala que foram disputados quase aos tapas. Mas quando eu cheguei perto, esgotou. Ele apenas trouxera cinco ou seis para um grupo de mais de trinta professores estudantes de doutorado. Ainda saí correndo atrás dele gritando e agitando minhas notas fiscais e convites, mas não deu certo.
Bem, aí resolvi partir para o tudo ou nada. Vestimos, eu e a patroa, as nossas domingueiras e seguimos para o TCA. Chegando lá, mais uma vez, a frustração! A portaria estava cheia de gente e eu não consegui ver ninguém conhecido. Coloquei a patroa em um lugar seguro, voltei para a porta e, devido minha estatura mediana, fiquei pulando para tentar ver alguma coisa. Mas só conseguia ouvir a orquestra, os aplausos, e o violão do professor de música. Vislumbrei ali perto um caixote que poderia me ajudar, só que fui obrigado a comprar uma sacolinha de umbu, como contrapartida. Então, ao colocar o caixote no chão, olhei para trás para acalmar minha patroa e, ao me voltar, deparei com duas pessoas em cima do mesmo, só deixando o espaço para colocar um pé. Não me dei por vencido e subi assim mesmo. Como ainda não dava para ver muita coisa, tive que ficar pulando e agitando os braços, igual ao saci-pererê, até me cansar,desistir de tudo e voltar mancando para casa.
Só me senti confortado dessa desventura depois que ouvi de um homenageado professor, no dia seguinte na escola, falar que nem o representante do Governador do Estado conseguiu chegar até a mesa, tamanha era a quantidade de pessoas lá dentro. Ora, se o Governo do Estado não conseguiu se fazer representar, o que queria eu, pobre mortal?
Resignado, só me restou subir a escada do cadafalso da Pós-graduação, atrasado, e encarar cinco horas de uma prova de dez questões desdobrada em umas trinta, com aqueles mesmos problemas relatados (desconforto, falta de iluminação, barulho do condicionador, etc.). Com dez minutos tivemos a primeira baixa, pois saiu um aluno doente. E olhe que essa prova foi a que o professor, qual médico tratando um doente terminal, vinha consolando nos dias anteriores: " não se preocupem, vocês vão se sair bem". E eu acreditei...
O primeiro estudo aconteceu no ano de 1979 quando eu gerenciava duas obras de porte na cidade de Aracaju. Tratava-se de uma subestação de 80 MVA e uma Linha de transmissão de 69 KV no bairro de Grageru, da Energipe. O quadro funcional contava com cerca de 450 trabalhadores e quase sempre estava completo.
Certa feita chegou um cidadão pedindo, quase chorando, uma vaga para trabalhar de qualquer coisa, pois estava em dificuldades e a família já não tinha o que comer. Então eu criei uma função, até o momento inexistente, e pedi ao novo funcionário que recolhesse todos os pregos que ele encontrasse no canteiro, consertando os tortos, e os devolvesse ao almoxarifado. Era uma aspiração minha antiga, pois eu notava que os carpinteiros não se preocupavam com o consumo desse material. Para minha surpresa, a economia mensal chegou a 30%.
Animado com o ocorrido, satisfeito com o trabalho do servente, e ainda bronqueado com os carpinteiros pelo consumo excessivo também de madeira, pois estes quando precisavam de um pequeno pedaço do material sempre cortavam uma peça nova, ampliei a tarefa daquele trabalhador. Para isso criei uma área onde seriam arrumados os pedaços de madeira (tábuas, barrotes, sarrafos, estroncas, etc.) encontrados na obra, de maneira que os carpinteiros, antes de cortar uma peça nova, verificassem nesse local. Então nomeei o referido cidadão, que era semi-analfabeto, como “encarregado do setor de reaproveitamento de madeira”. A única observação especial era de que os pedaços inferiores a 50 cm fossem colocados perto do portão da obra, para que as mulheres que voltavam do trabalho à tardinha não tivessem o trabalho de catar para seus fogões, como já era um costume diário.
Com o novo posto de comando o servente, além de criar problema com os carpinteiros (os mesmos que lhe deram parte do almoço no início da carreira), passou a escolher as mulheres para quem doar o material descartado, dando preferência às mais simpáticas (homens, nunca), ou as disponíveis, de maneira que, a partir daí, muitas senhoras respeitáveis não pegavam mais o material e outras, mandavam as filhas e parentas para isso. Lógico que ao saber disso eu acabei com a farra.
Conclusão: para se conhecer alguém, não importando o nível escolar, basta dar-lhe o poder.
O segundo estudo de caso aconteceu dois anos mais tarde quando eu gerenciava a construção de um conjunto habitacional, na mesma cidade, composto de mais de 300 casas e 25 prédios de apartamentos. Trabalhavam 12 mestres de obra, 24 contramestres, mais de 100 oficiais e mais de 200 ajudantes. Como os blocos de concreto, para uso nas paredes, eram confeccionados no canteiro, havia um grupo que moldava os mesmos e sempre estava trabalhando em horário extra, até a hora do último ônibus, tendo que retornar às seis da manhã.
Incomodava-me o fato desse grupo não se alimentar antes de pegar o terceiro turno e, num trabalho social, descobri que era por simples falta de recurso e eles, acostumados, encaravam aquilo como normal. Mas eu não achava normal e consegui autorização para distribuir entre os mesmos, antes do trabalho extra, um copo de café com leite e um pão grande com mortadela ou queijo, ou presunto, não antes de ser alertado pelo meu diretor de que eu seria o único responsável pela encrenca em que estava me metendo. Ainda autorizei a construção de um barraco com mesa e bancos para a copa.
E foi uma festa só. Todos trabalhavam numa alegria de dar gosto, e até cantavam. Só que eu notei, com o passar do tempo, que a produção caiu e era necessário sempre aumentar o contingente para manter a mesma produção. Ou seja, eles reduziam muito a produção durante o dia e aumentava pouco à noite. Um belo dia, para minha insatisfação, faltou leite no mercado e o administrativo distribuiu café preto para o pessoal, cujo número já passava de 50. Só então eu me dei conta do que o meu experiente chefe tinha me dito.
O grupo fez um movimento tão grande na obra que o encarregado teve que mandar me acordar para tentar apaziguá-los. Entretanto eu nem consegui falar e só conseguia ouvir frases de ordem do tipo “ninguém é porco para tomar café preto”, ou “como é seu café no hotel, doutor?”. Desiludido, peguei o meu carro e fui pessoalmente procurar leite e, como realmente estava em falta, demorei um pouco, mas só voltei quando encontrei algumas latas de leite em pó. Foi então que eu vi desabar tudo que aprendera nas aulas de sociologia e filosofia das escolas que freqüentei. A rebelião já tinha tomado uma proporção tal que, o barracão da copa estava todo destruído, assim como toda a produção de blocos do dia e ainda muitos que estavam em processo de cura.
Conclusão: É o merecimento que faz as pessoas descerem ou subirem de onde estão. Tentar interferir nesse processo, que é Divino, por qualquer meio (pacífico ou conflitante) é um grande erro.
Alguns dos pouquíssimos leitores desse periódico certamente dirão: “qual é a desse cara?”, “e eu com isso?”. Só posso justificar dizendo que são apenas divagações, na sagrada hora do sopão na cantina, de alguém da terceira idade, quando não tem respostas para perguntas desconcertantes de jovens alunos, sobre determinados debates públicos e na Intranet entre professores, técnicos administrativos e gestores da nossa escola.
Comentando sobre o centenário da nossa instituição com um decano da escola, durante o almoço na cantina, é lógico, ouvi prazeirosamente do mesmo que ele acompanhava as crônicas bissextas do Conversa de Cantina, e que eu deveria escrever algo sobre tal evento. Com já tinha um texto, aproveitei o gancho e atendi ao mestre que muito considero.
Um aluno me encontrou um dia desses na cantina da escola e, entre um refrigerante e outro, me perguntou na lata:
- Professor, como o sr. define um modelo? Como sabe se funcionará?
Temperei a garganta e antes mesmo de me aprumar, refazer-me do susto e rebuscar definições, metáforas, etc., ele completou:
- Não gostaria de resposta técnico-científica ou poética, porque vou ficar boiando. Pra não dizer que lhe peguei de surpresa, pode me responder amanhã.
Confesso que ia pedir mesmo um tempo mas, olhando fixo a lata de refrigerante, me lembrei de uma história que li, e então apresentei minha versão.
- Tá vendo essa lata de refrigerante?
- Ih! Lá vem o sr. com técnica de fabricação, estampagem, extrusão...
- Não é bem isso. Suponha que você queira fazer o modelo de uma destas máquinas automáticas que servem refrigerantes, quando se coloca uma moeda. Uma espécie de Engenharia Reversa. Você pode imaginar ( e lembre-se que imaginar é fazer imagens) que dentro da mesma exista um anão que, ao receber a moeda, abre uma torneira e serve o refrigerante.
- ???
- Vou submeter o seu modelo a um teste: Deixo a máquina desligada, coloco a moeda, e não é servido o refrigerante. Depois, ligo a máquina e em instantes é servido o refrigerante.
- Sei, e porque?
- A explicação é a seguinte: dentro da máquina está escuro, o anão não vê a moeda e deixa de servir o refrigerante. Se a máquina for ligada, ao colocar a moeda ela volta a servir, pois o anão volta a ver a moeda. O teste que fiz permite afirmar que é provável que o seu modelo esteja certo.
- Então basta apenas um teste?
- Provavelmente não. Vou fazer outro teste desligando a máquina. Duas horas depois religo-a, coloco a moeda, e imediatamente a máquina não serve a bebida. A máquina começa a trabalhar e, decorrido certo tempo, ao ser inserida novamente uma moeda, o refrigerante é servido.
- Então descobriu a primeira falha.
- Negativo, há uma explicação: no interior da máquina inicialmente estava escuro. Então o anão dormiu e, por isso, ao ser ligada a máquina, ele não serviu logo o refrigerante. Após algum tempo, com o barulho da máquina, ele acordou e voltou a servir. Mais uma vez concluo que, provavelmente, o seu modelo está certo. Ora, sabe-se que na máquina real existe um sensor de temperatura que não permite a saída de refrigerante quente, por isso que este não é servido logo ao religar-se a mesma.
- Ah! então é um modelo que funcionará com alguma restrição - Disse meu impaciente interlocutor.
- Calma, jovem! Vou fazer mais um teste no seu modelo de máquina de servir refrigerante. Deixo a máquina desligada e lacrada. Depois de vários dias volto a ligá-la. Após algum tempo, ao ser colocada uma moeda, a máquina volta a servir refrigerante. O que você deduz disso?
E ele respondeu, na lata:
- Que esse modelo fracassaria, pois o anão já estaria morto ou teria acabado o estoque das diversas bebidas lá dentro.
- Exato ! Isso me leva a abandonar o seu modelo. Assim há a necessidade de se fazer um outro modelo de máquina automática de servir refrigerantes, que não tenha anão no seu interior.
No outro dia, depois de uma lida no assunto e para complementar a informação do interessado aluno, repassei para ele:
- Segundo Opter, S.L. "O modelo é a representação de um sistema, onde a meta da sua construção é obter uma representação fiel do mundo real ". Ou seja, na linguagem jovem, é fazer na real o que se faz na virtual.
Complementei:
- Mas, às vezes para se fazer um modelo que beira a perfeição, utiliza-se de muita mão de obra entre técnicos, administradores, instrutores, executores; consome-se muitas máquinas e equipamentos de alta tecnologia; constrói-se muitos prédios e ginásios; qualifica-se milhares de multiplicadores (educadores), e, principalmente, leva-se muito tempo: no mínimo 100 ANOS!
É o caso do IFBA, que nasceu Escola de Artífices, cresceu como Escola Técnica, amadureceu como Cefet, e hoje forma profissionais modelos para esse complexo e diverso mercado de trabalho, sendo que ainda recebe esses profissionais de braços abertos, quando eles retornam como educadores, para retribuir um pouco do que receberam durante sua formação.
Meu caso, e de muitos outros que conheço, diria.
E é para esse modelo de escola que rendo minhas sinceras homenagens por ter passado os últimos cem anos (não sei se dentro ou fora da caverna) cumprindo o seu papel: educando!
Essas últimas semanas, para mim, foram patológicas ao extremo. Não acredito (...“pero que las hay, las hay”), mas cheguei a seguir o conselho de um amigo e tomei um belo banho de sal grosso. Sim, porque depois de vários problemas de saúde na família, contraí uma conjuntivite das violentas, e tive que aturar os arroubos de um jovem graduando acometido da síndrome de Billy the Kid ( doença de jovem do velho oeste, que desafiava cow-boys veteranos para acrescentar mais uma marca na sua arma e ficar famoso – às vezes dava certo, mas sempre acabava como o próprio Billy).
Como se não bastasse tudo isso, durante o almoço na cantina, tive o imenso dissabor de ouvir um diálogo entre dois estudantes, relacionado com alunos possuidores de necessidades especiais. Não vou reproduzir fielmente o diálogo porque foi muito discriminatório para meus padrões de comportamento.
- ...Isso aqui vai terminar virando um hospital. – Disse um deles
- É cara, eu conheço um mané que só vive colocando o lápis do mesmo jeito na carteira, tira várias vezes a caneta de um estojo, e só senta na mesma cadeira. Um dia ele faltou à aula porque um colega, brincado, tirou a cadeira do lugar e sentou nela, pode? E ainda tenta esconder essas maluquices...
Então como eu já estava em semana patológica mesmo, achei que devia interceder, na tentativa de minorar o sentimento de rejeição desses alunos recém admitidos na instituição.
- Me perdoem a intromissão meus jovens, mas não é nada salutar, principalmente nos dias de hoje (nem nunca foi) discriminações desse tipo. Acho que vocês já possuem informação suficiente para saber que isso se trata de uma patologia de nome simples: TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo). Os sintomas do TOC provocam angústia, consomem tempo e podem interferir de maneira significativa no trabalho, na vida social e nos relacionamento pessoais do portador. Como não sabem o que está acontecendo, muitos temem estar enlouquecendo, sentem vergonha e por isso são discretos com relação aos seus sintomas obsessivos e compulsivos, preferindo ocultá-los a procurar ajuda especializada. Atinge 2 a 3% da população em geral, sem distinção, existindo estudos que indica até 10%
- Sim, e daí? Mas que é engraçado é. – Responde o mais arrogante.
- E daí que vocês deveriam manter amizade com esses tipos de pessoas, e até ajudá-las não as criticando porque, na maioria das vezes, elas possuem mentes brilhantes e sempre despontam na sociedade como gênios em alguma área de conhecimento.
- Gênio??? Uma pessoa com problemas mentais? Sei não...!
- Claro meu camarada! Nunca ouviu falar da inteligência especial dos autistas?
- O autista não é aquele cara que fica se balançando o tempo todo? Só vi isso em filme, portanto deve ser mais ficção do que realidade. – Arrotou o mais limitado.
Então notei que estava malhando em ferro frio. Mas ainda tentei avançar.
- As pessoas com essa deficiência sofrem mais com a discriminação do que com a própria doença. Eu tenho um testemunho por escrito de um aluno com TOC. Diz ele no e-mail que, de tantas gozações que sofria dos colegas, já não ia mais para a escola. Foi então que seu pai, um advogado, descobriu e processou a escola por não tomar nenhuma providência. Só que a emenda saiu pior do que o soneto, pois a escola usava esse aluno como referência, toda vez que alguém apresentava comportamento um pouco fora do costumeiro. O aluno teve realmente que se mudar até de cidade. Uma boa leitura sobre isso é “O Mundo de Sofia”, relatado pela própria. Talvez vocês devessem dar uma lida para melhor compreender essa síndrome, até porque a esquizofrenia está na mídia hoje. Indico também o livro “Mentes e Manias” da Psicóloga Ana Beatriz.
Como eles ainda ficaram meio reticentes eu pedi para encontrá-los, ali mesmo na cantina, ao final da tarde, para que eu lhes mostrasse um material sobre pessoas famosas com TOC. Daí eu levei o que pude encontrar sobre essas pessoas, vasculhando naquilo que meu chefe chama de computador (um velho pentium 2 ½ com TRC furta-cor de 14” anos 70 e uma vaga lembrança de 64k no vídeo ) e mostrei-lhes:
- Vejam aqui várias personalidades: No Brasil temos Roberto Carlos que falou em público sobre isso - e foi a partir dessa declaração que muitos brasileiros com a doença procuraram ajuda - está em processo de cura (evitava a cor marrom, saía pela porta que entrou, só vestia tons de azul ou branco, etc.); A atriz e modelo Luciana Vendramini, curada pela compreensão da família (ficou 3 anos sem sair de casa); Santos Dumont, o pai da aviação, cujo comportamento diferente o mundo inteiro conhece; Ulisses Guimarães, que morreu sem ter divulgação oficial sobre isso, e muitos outros.
Já que consegui um pouco de atenção dos interlocutores, continuei:
- No cenário internacional, recentemente, o famoso jogador David Beckham declarou em entrevista que também estava se curando desse mal (alinha todas as garrafas em números pares, coloca todos os livros e papéis em gavetas, etc.); Michael Jackson, o mais conhecido, começou com uma simples compulsão de lavar as mãos e culminou por desfigurar-se completamente; Atrizes famosas como Cameron Diaz (limpa as maçanetas muitas vezes), Ava Gardner (afastou-se das telas no apogeu da carreira), Lana Tuner e Catherine Hepburn (além de TOC tinha o mal de Parkinson); Charles Darwin que também tinha síndrome de pânico; Santo Inácio de Loyola (confessava sempre os mesmos pecados); Kafka (dormia com todas as janelas abertas para não faltar o ar); o famoso piloto e multimilionário Howard Huges (tinha medo de contrair germes e se isolou na sua mansão até a morte); Jonh Nash, matemático, Prêmio Nobel de Economia, 94 (mostrou através de livros suas agruras com a esquizofrenia e a limitação da medicina no tratamento dessa doença- a partir daí houve um avanço nas pesquisas), e por aí vai...
- É... – Cheguei a vislumbrar uma dúvida, mas ainda não senti firmeza nesse “é...”
- Agora, uma das minhas leituras preferida é a biografia de um dos mais enigmáticos gênios da humanidade que sofria de TOC: o cientista Nikola Tesla (detestava o contato físico, que tocassem em sua cabeça e repetia tudo 3 vezes). Entre seus importantes inventos estão a bobina Tesla, transmissão e motor de corrente alternada, além do princípio do radar que ajudou os aliados a vencer a segunda guerra mundial. Ele era um humanista extremado. Trabalhou na transmissão da energia elétrica sem fios, para que a humanidade tivesse energia gratuita. Chegou a fazer experiências nesse sentido, e em uma delas teria causado um apagão na cidade de Nova York. Construía seus projetos todos sem um risco em papel ou quadro. Tudo de memória. Mas ele escolheu um país altamente capitalista para se estabelecer, os Estados Unidos, que só desejava lucro com as suas magníficas invenções na área de eletricidade. Trabalhou com seu grande ídolo Thomas Edison, por quem foi traído várias vezes e a quem venceu na disputa entre a corrente contínua e alternada. Teria inventado o “raio da morte”, um dispositivo que atingia alvos a grandes distâncias com explosões superiores a 15 megatons. Não revelou o segredo temendo que fosse usado contra a humanidade, e por isso morreu pobre e esquecido de todos, ficando vários anos isolado, sem cortar cabelo, barba, e unhas. Um sentimento idêntico teve Santos Dumont e o inventor da bomba atômica quando viram o uso dado aos seus inventos.
- Mas o que o senhor acha que se deve fazer? Não vai querer que agente peça perdão, né?
- Não! Apenas, como vocês mesmos dizem, é só dar a ele um toque: o de que vocês não se importam com o TOC dele. Quem sabe mais tarde ele lhes retribua com outro toque: mas um toque de gênio.
Conversa de Cantina n. 45
Contribuições da crítica
Mais um ano que se inicia. Novas gerações chegando à escola. E nós, facilitadores, temos o semi-divino dever de, com paciência, estarmos preparados para lhes dar boas vindas, prontos para repassar-lhes tudo de bom que absorvemos com o árduo trabalho das gerações anteriores, na esperança de que essa geração receba esses conhecimentos, deles sejam dignos, incremente-os com melhora, e repasse-os integralmente às gerações futuras. Sabe-se que o educador não enche ou completa vasilha. Só acende a luz.
É mais um ano que nada muda na cantina. O que é perfeitamente compreensível, haja vista que as pessoas que decidem sobre a permanência, melhora, concorrência, e fiscalização, não são fiéis consumidores como nós, pobres mortais que saímos as vinte e duas horas do nosso trabalho. Dessa maneira não há uma avaliação (nem enquete) sobre preço, qualidade, atendimento, variedade e outros elementos necessários ao estudo de qualquer relação fornecedor-consumidor. E se há essa avaliação, devem achar que está tudo bem. Então, paciência...
Ainda estava desfrutando dessas reflexões obrigatórias dos primeiros dias de aula, em plena semana pedagógica, quando se senta ao meu lado um aluno antigo e já vai logo me provocando:
- E aí, o que o Sr. acha da possibilidade de mudança da cor tradicional da camisa da escola?
- Já tive conhecimento dessa possibilidade, e até ouvi sobre as opções esdrúxulas na qual a tradicional e centenária camisa azul celeste poderá ser abolida. Em seu lugar surgiria uma espécie de “meio-abadá”, como bem disse o anunciante do fato, com cores tipo branco gelo, verde-cana, vermelho-carmin, listas horizontais, inclinadas, e sabe lá Deus que outras aberrações podem surgir ainda nesse bloco. Espero que não tenhamos que aprender a tocar percussão. Eu sou terminantemente contra essa mudança. Não é imperativo atender o novo, “criativo” e sugestivo logotipo. Até porque a Escola tem autonomia para isso.
Que esse logotipo permaneça com suas cores e deixe em paz a nossa camisa. Porque nesse caso, não em todos, eu sou a favor da tradição, apesar de já terem escrito que tradicionalismo é idiotice. Mas, qual dirigente de país, estado, município, time de futebol e outras agremiações teriam coragem de sugerir a mudança nas cores de seus pavilhões? Tradição é tradição, como próprio nome diz, não se muda. E pt saudações (como se telegrafava antigamente. Não mudar a pontuação). Eu vou permanecer fiel ao azul celeste, pelo menos durante este restinho de tempo que tenho ainda na escola, nesse meu estágio de pé-na-cova.
- Já pensou: eu torcedor fanático do Bahia, vestindo uma farda do fluminense? Vou ser massacrado em dia de jogo – sorriu o meu interlocutor.
Alguns dias se passaram até eu ser provocado novamente. Desta vez por um professor de renome da escola, durante um almoço, acerca de um bombástico e-mail lançado na intranet, por sinal muito bem redigido, que chamava a atenção da comunidade sobre democracia na Escola.
- Não sei se você também, mas eu achei muito importante a contribuição do professor escrevendo sobre o tema “demagogia e democracia”. Acho que não tem nenhuma mentira ali, mas alguns não gostaram.
- É como você mesmo disse: não deixa de ser uma contribuição. É sabido que a crítica ajuda a melhorar o produto final, além de ser um direito de cidadania e referencial de qualquer democracia (mesmo que seja a dita radical). Como não há direitos sem obrigações, é correto dizer que as críticas devem ser acompanhadas de sugestões corretivas.
- Mas e quando não se aceitam sugestões?
- Veja bem, meu caro: Albert Einstein foi um dos maiores cientistas da humanidade. Isso não impediu que ele fosse uma das pessoas mais criticadas do mundo, e até humilhada por várias vezes. No entanto ele era um defensor ardoroso da crítica, pois achava que sem a crítica não haveria nenhum progresso em nenhuma área. E ele sempre mudava de opinião quando a crítica era razoável. Certa feita, ao ser perguntado sobre qual benefício sua lei da relatividade traria para o ser humano ele calou-se. Tempos depois estava criticando em público todas as nações que desenvolvia a bomba de hidrogênio, se comprometendo contra as armas nucleares e a favor da paz. (vídeo no rodapé).
- Sim, mas ele também disse que a fórmula para o sucesso é: trabalho + lazer + boca fechada.
- Mas nesse tempo ele ainda era jovem. Veja que já foi dito que pode não ser ético em instituições públicas serem cobradas quaisquer tipos de taxas; usarem-se artifícios para conseguir manter uma coesão entre pares; indicarem-se dirigentes visando alianças nas próximas eleições, etc., mas é legal. E isso basta, considerando que poucos têm a firmeza ou competência para mostrar que nem sempre o que é lícito é também ético.
É nesse contexto que os ditos heróis da resistência surgem para mostrar, através das críticas, aquilo que eles acham que pode melhorar. Esperam eles que essas críticas sejam respondidas pelos criticados, e não pelos D’Artagnans da vida que, na melhor das intenções, criam uma cortina de fumaça durante um embate infrutífero, dificultando um esclarecimento maior dos fatos. Daí surge uma acomodação e o pacto com Mefistófeles, qual o personagem da obra de Goethe.
- Ainda mais agora que estamos em plena adaptação dos novos rumos.
- E é aí que aparece o incontestável paradoxo: contradizer a autoridade burocrática e sobreviver academicamente; criticar e viver nesse ambiente negado. Para Tragtenberg (1993) é preciso sobrevier sem sacrificar a liberdade e o espírito crítico, mesmo sabendo das dificuldades para que isso aconteça.
Um terceiro assunto sobre o qual eu não discuto com senhor ninguém, além de futebol e política, é a relação do idoso com a sociedade, e principalmente com os jovens. Também não me animo a escrever sobre o tema, pois me sentiria legislando em causa própria. Entretanto, na semana passada, tive que participar de uma conversa informal durante o almoço na cantina, na qualidade de mata-borrão do conhecimento, onde três ícones da escola teciam opiniões sobre a intolerância de grande parte da sociedade, e dos jovens, para com os idosos, principalmente os velhos que insistem em continuar trabalhando e estudando.
- Olhe, temos aqui outro idoso – falou o primeiro se dirigindo a mim. – O que você acha?
- Tenho alguma experiência nessa seara porque transito pelas graduações e mestrados, como aluno especial, em busca de disciplinas de interesse particular, apenas para manter um mínimo de atualização e repassá-la em sala de aula. No entanto, a recepção é sempre péssima. Ora pelos alunos, ora pelo professor e muitas vezes pelos dois. Educadores já me disseram, na lata, que lugar de idoso é no asilo, e não tirando oportunidade de jovens. No ano passado, aqui mesmo na escola, quando cursava Eletrônica Digital em Engenharia Elétrica, os jovens praticamente não me dirigiam a palavra e tive que concluir a disciplina executando as tarefas sozinho, pois não era convidado a participar de equipes. Já disse, na crônica n. 40, sobre uma professora de mestrado declarando em sala de aula sua aversão em ministrar aulas para graduados e mestrandos, principalmente velhos.
- Sim, mas não é só na educação que acontece – falou o segundo professor me corrigindo.
- Claro, se partir para o INSS a coisa fede. Falo também de cadeira, porque tenho participado de verdadeiras sessões de tortura psicológica em busca da minha primeira aposentadoria. Os postos de atendimento mais parecem campos de concentração para idosos. Não vou discorrer sobre academias e exercícios em praças públicas que é covardia. Tudo bem que só faço duas flexões e meia, contra as cinqüenta do passado. Os três mil metros em doze minutos de antes contra os cem de hoje em meia hora, não me desanima, pois tenho mais oportunidade de apreciar a paisagem e a beleza feminina. Minha protuberância abdominal pode não ser charmosa, mas é um excelente descanso de braço. A gordura acumulada nessa região pode até me salvar a vida, caso eu não tenha o que comer durante alguns dias. Barriga de tanquinho denuncia pequena torneira (segundo as especialistas). Nunca ligo se alguém me discrimina pela idade, porque eu sou ele amanhã, e sei que há as exceções, como é o caso de alguns professores do mestrado na escola, e do último que incentivou um septuagenário a fazer doutorado, onde se houve muito bem.
- Se logo seremos um país de idosos, como vai ser o futuro? Idoso contra idoso? – filosofou o terceiro.
- Nós temos que matar um leão por dia, e ainda assim a sociedade não nos aceita numa boa. Em que diabos de base se fundamenta essa rusga entre a sociedade e o idoso, em que só os idosos se desgastam? – retrucou o primeiro.
- Tribologia! – enfatizei me ajeitando na cadeira, com um ar um tanto superior. Afinal de contas tinha acabado de sair de uma excelente aula sobre o tema.
- Tribo... o que??? – indagaram os três, tal qual alguns alunos do mestrado quando souberam qual seria a última disciplina.
- Tribologia, amigos. A ciência que estuda o atrito e o desgaste entre as partes. E a lubrificação, of course.
- Tá viajando cara, o que tem a ver a tribo-não-sei-o-que com as calças?
- É a falta dela no contato social. A Tribologia Antrópica! Vocês ainda vão ouvir falar dela. Ela vai minorar o coeficiente de atrito entre o idoso e a sociedade (hoje seguramente maior do que um) e vai encontrar o lubrificante ideal, através da interpretação do ruído provocado pelo atrito dos mesmos (gemido do idoso) e avaliar o desgaste. Vai ser difícil, como já o é na mecânica. Mas não impossível. Vocês de humanas já poderiam estudar o assunto. Daria até um pós-doc.
- Então é tribologia humana – disse meu interlocutor. Ao que respondi que essa já existe: é a biotribologia.
- Não seria tribologia geriátrica? – disse com ar de gozação - Mas por falar nisso, soube que esse último professor tirou o couro de vocês, é verdade?
- Qual nada. Ele é um tanto reservado, mas um cara super simpático. Show de bola, como ele mesmo diria. Conhecedor profundo da matéria, com certeza vai ser extremamente justo na nossa avaliação, debruçando-se sobre a mesma com o extremo carinho que lhe é peculiar. Semelhante a um personagem de ficção de uma estória, que é a continuação daquela contada na crônica passada. Vocês querem saber a conclusão?
- Depois dessa esticada, é claro! Responderam. Mas não chuta muito...
- Pois bem... Os alunos do mestrado conveniado daquelas instituições federais de que lhes falei no número anterior estavam eufóricos com a nova disciplina, por ser a última, e também pela aproximação do recesso de fim de ano. Programaram até coquetel e almoço com o amado mestre, etc. O grupo continuava o mesmo, ou seja, um mix de velhos e jovens vivendo em harmonia (pelo menos na sala de aula). “Tribo, o que?” foi a frase que mais se ouviu entre os pobres mestrandos.
Mas a cada disciplina aconteciam mutações diversas. Por exemplo, a operadora do disjuntor transformou-se em deputada, inaugurando um blazer de grife em cada aula que comparecia. O velhinho barrigudo preparava-se para representar um Papai-Noel. O pop-star de nome americano, Stanless Steel, ampliou um pouco a sua chegada diária, sempre em grande estilo, apertando a mão de todos e, antes de sentar, sempre apresentando uma opinião sobre o tema da aula. O velho caçador de esmeraldas, meio perdido na aplicação do seu material cuja amostra fora destruída. O guia do professor anterior rumo ao restaurante, meio taciturno. Entretanto, todos ainda com aquela idéia fixa na chegada da sexta feira.
O Professor, que dizem ser descendente do internacionalmente famoso médico Asclépio (conhecido na Itália como Esculápio, onde se tornou imortal), qual Papa de mesmo nome, conduzia sua disciplina de maneira ortodoxa, com a exigência e precisão de um cirurgião. Operava aquela diversidade de massa acinzentada sem muito contato, apesar de estar ministrando aulas sobre esse tema. Imagino que era para não criar atritos, conhecedor que era do assunto e da involuntária situação inusitada, ocorrida com o professor que o antecedeu (vide cc n.42). Dessa maneira, a cada pergunta, a cada opinião, e a cada convite, o mestre reagia após um pequeno sobressalto, com extrema polidez, mantendo todos a certa distância.
E tome-lhe uma enxurrada de gráficos, fórmulas, papers, termos como curtose, chapéu de Napoleão, conforme, interfase, interface, gecko, scrap, etc. Um verdadeiro shakedown nas muflas dos pobres pós-graduandos. De vez em quando algum infeliz tentava desacelerar o professor (não pelo atrito, claro) com idéias manjadas. Foi o caso de um unediano que disse não estar enxergando um tipo de gráfico, e obteve como resposta a frase “olhe para o quadro, você está olhando para mim, não vai enxergar mesmo!”. Outro coitado, mais original, trouxe no seu pendrive um artigo tirado da internet, para que o mestre gastasse um pouco de tempo no horário da aula, clareando para ele. Ato contínuo, o mestre colocou o aparato no computador e baixou mais quatro artigos em inglês, e devolveu ao aluno dando-lhe a missão de trazer um resumo sobre os cinco papers. “Tô pagando...” (nota do editor). Bateu o desespero na turma.
Então a inteligente comissão se reúne e dá o bote final, que não falharia: convida o mestre para degustar o famoso pernil de carneiro na Porteira. Pois é, não devia, mas falhou. O mestre refugou, simulando inicialmente que iria. “O almoço da cantina daqui é excelente!”, disse essa impactante frase, com um pequeno riso de canto de boca. Mas, na quarta feira, quando tudo parecia perdido, surge uma esperança para os sofridos gafanhotos desse exigente mestre: Foi anunciado o próximo trabalho. O professor tira de um pacote várias velas (isso mesmo, velas!) e informa que os alunos deveriam fazer um trabalho de contato (isso mesmo, trabalho de contato com velas!) para ajudar na avaliação. O trabalho consistia em...
O professor nem concluiu o assunto do trabalho. Nem precisava. Ora, uma turma de baianos, várias velas, trabalho para se dar bem em alguma coisa, contatos... Caiu a sopa no mel. Tava tudo em casa. Cada dupla pegou seu cotoco de vela e iniciaram-se os trabalhos de contatos imediatos com as entidades do além, com o objetivo de obter uma boa avaliação na disciplina. Mas como existiam várias correntes no grupo, cada um executou seu ritual conforme sua linha. Tinha a Ubanda, Quibanda, Kardec, Vodoo, Camdomblé, Caboclo, Preto Velho, etc. Alguns reclamaram a falta de farofa, charuto, e outros ingredientes:
- Onde já se viu, misifio! Um trabaio desse sem uma garrafa de marafu... - reclamou o Preto Velho em seu cavalo e foi para janela gesticulando como se estivesse cortando fumo.
Basicamente o trabalho consistia em um dos componetes fazer a reza, incorporar a entidade, e o outro descrever símbolos imaginários com a vela sobre sua cabeça ou nas costas. Mas sabe como é... não se controla quem ou o que vai baixar numa sessão de tal envergadura. Identificou-se além do Caboclo Sete Flechas e o Preto Velho, outras entidades de nomes estranhos como Abott, Firestone, Hertz, Helmholtz, Schallamach e Ratchitki. Como esses não eram entendios, impacientes, gesticulavam para que os portadores das velas subissem em cadeiras e mesas, para elevar a chama o mais alto possível, a fim de que a graça fosse alcançada.
Foi realmente uma visão do além e um verdadeiro ritual de magia. Professor ajoelhado, outros tentando alcançar o teto e ao mesmo tempo evitando que a vela se apagasse, gemendo cada vez que queimava a mão, outro fazendo oferenda... Cada espírito que baixava tinha suas peculiaridades, mas a maioria ria pra se acabar (talvez de gozação) e o professor ria mais ainda, todavia com todo respeito, pois as entidades eram gurus da sua formação acadêmica. E, em consideração a esses iluminados entes espirituais, o mestre resolveu deixar todos os trabalhos para serem enviados pela internet.
Como se trata de uma ficção, é possível que os místicos mestrandos não consigam excelentes notas, mas conseguiram um adiamento das avaliações. O que comprova a eficiência da TRIBOMAGIA.
Ronaldo Cavalcante
Dep. III – Mecânica
P.S. – Qualquer semelhança com personagens da vida real é mera coincidência. Até as fotos são apenas ilustrações que foram conseguidas em sites sobre sessões de descarrego na internet (por isso a penumbra).
Dia do Professor! Parabéns a todos os professores...
Refletindo sobre esse dia enquanto, solitário, durante seu ocaso, merendava um x-gordura na cantina, e na dúvida sobre a reedição da crônica do ano passado (a pedido de dois professores e um aluno) decidi contar uma estória ficcionista.
Conta-se que certa feita um famoso Professor D.Sc., de uma Universidade Federal famosa de uma capital do extremo Nordeste, protegida pelos states (eles têm uma basezinha básica por lá, ainda esperando submarinos alemães) veio para a Bahia ministrar aulas de uma disciplina do curso de Mestrado Inter, em uma centenária Instituição Federal, não menos famosa.
Na primeira aula, segunda-feira, olhando a turma de soslaio, o Professor já demonstrou uma certa preocupação. Notou um aluno esticado na cadeira (não por preguiça, mas pela barriga que não o deixava muito à vontade); outro, com nome de artista americano (Stainless Steel) com fone no ouvido, e dando umas balançadinhas no esqueleto; uma representante da ala feminina, operadora da iluminação e já com a mão no disjuntor, esperando o comando de apagar a luz para continuar sua madorna; um idoso meio cego, caçador de esmeraldas; alguns jovens meio perdidos; outros idosos meio à deriva, mas todos com algo em comum: eram Professores com pensamento fixo na chegada da sexta-feira.
Então o Mestre, à partir de agora referido como Professor, com a competência que lhe é peculiar, passou o conteúdo do primeiro expediente de aula, e finalizou informando os passos que deveriam ser dados na preparação das amostras, para os devidos ensaios. Então um aluno teve a infeliz idéia de perguntar:
- Mestre, essa atividade cansativa toda é pra quando? Será por ocasião da nossa estadia?
- QUE ESTADIA??!! ISSO É PRA COMEÇAR AGORA!!! Vamos todo mundo levantar e meter a mão na massa, quer dizer, na argila. São 150 amostras que devem ser preparadas até a quinta-feira, quando viajaremos uns 100 km para fazer os ensaios. Significa dizer que vocês devem misturar os materiais, pesar, prensar, sinterizar, calcular absorção e embalar para viagem. Nos intervalos, vocês vêm rápidos para a sala de aula e eu vou dando a teoria de cada passo. Se não começar agora não vai dar tempo.
Com essas palavras de ordem, o MP9 do jovem caiu, a operadora da iluminação acordou e arregalou os olhos, o velho cego começou a enxergar, o barrigudo encolheu sua protuberância, e foi um frenesi na sala. Ora, esse já era o sétimo professor, e todos já estavam acostumados a não despregar da cadeira pra nada. Ainda tentaram confabular:
- Mas, mestre...
– Não tem mas nem meio mas, retrucou o Professor. Vamos levantar!
E foi uma loucura nos dias que se seguiram. Mistura daqui, mistura dali, conseguir prensa, bater alavanca, rezar para as amostra não quebrarem, labutar com forno à mil graus de temperatura, etc. Foi um pandemônio só. Mas ao chegar na terça-feira à noite, já extenuados, suados, estrupiados, foi uma comissão falar com o Professor para pedir arrêgo. E aquele que se dizia mais corajoso, arriscou um cuidadoso diálogo:
- Mestre, amanhã é o nosso dia, Dia do Professor, e geralmente nós passamos com a família na praia, etc. Será que por acaso o Sr. não poderia nos dispensar dessa canseira?
- O QUE??? DISPENSAR??? Nem brincando. Até porque, vocês aqui são alunos e não têm nada a ver com o dia dos professores. Vamos tocar que já estão atrasados.
Encolhidos, voltam para o tronco e, na quarta feira pela manhã, Dia do Professor, não havia clima de festa e sim de muito trabalho no laboratório. Foi então que a inteligente comissão se reuniu novamente, e pianissimamente temerosos, tentaram outro diálogo com o Professor:
- Mestre, pelamordedeus, a gente poderia pelo menos almoçar juntos hoje, que é o nosso dia? O Sr. é o nosso convidado. Vamos lhe levar para comer uma BOCA DE GALINHA muito famosa por aqui.
- Mas galinha não tem boca! Que mutreta é essa? Só se for aqui por perto.
- É um tirinho de garrucha. Em meia hora a gente tá de volta.
Animados com a bondade do Professor, a comissão preparou um comboio de quatro carros. Um guia, dois outros e o motorista no último, honrosamente transportando o Professor mais dois colegas. Logo no início, estranhamente, desapareceram dois carros, ficando o guia seguido pelo carro do Professor. E toca a viajar...
Ladeira da Água Brusca, Água de Meninos, Calçada e Suburbana à dentro. Depois de vários quilômetros sem parada, o carro guia dá sinal para retornar. Olhando-se pelo retrovisor interno, notava-se a preocupação do Professor e do jovem educador, que ficava mais pálido à medida que se avançava na estrada.
- Será que ele se perdeu? Comenta o Professor depois de uma hora de viagem.
- Não – responde o mestrando mais antigo. E o outro continuou caladão, como se previsse algo.- É que ele vai entrar no cabrito de cima, sair no cabrito de baixo, depois...
- Afinal é cabrito ou galinha? Já estamos chegando na escola novamente.
De fato, seguindo o guia, eles tinham voltado para escola. Então notaram que os professores que estavam no carro guia, saíram gesticulando como se estivessem aborrecidos pela viagem. Perguntado, o motorista justificou-se que tinha se perdido, mas que agora já se lembrava do caminho. E lá se foram novamente seguindo o guia pelo mesmo caminho, Suburbana à dentro. O Professor à essa altura já estava espumando e o taciturno jovem educador ao lado dele, mais amarelo ainda.
Mais uma hora depois, ao chegarem no lugar onde o guia havia retornado para a esquerda, ele resolve entrar à direita. Sobe uma ribanceira e quando estava para entrar num lugar meio tenebroso o Professor grita de lá de trás:
- Pára aqui motorista. Vamos esperar ele retornar e nos dar notícias (se ele retornar). – Como bom chofer, o motorista obedeceu ao comando e aguardou. Então o guia desceu uma pirambeira, desaparecendo no meio do mato. Logo depois ele volta de ré, emparelha com o carro do Professor e esbaforido, tenta se justificar.
- Mestre, a galinha fugiu. Mas nós agora vamos para a Ribeira que lá tem...
- NÃO!!! VAMOS VOLTAR ! - Gritou apavorado o Professor - Vamos comer o carneiro que o caçador de esmeraldas aqui sugeriu. Dá mais trabalho do que a galinha, mas é o que vamos fazer.
E mais uma vez voltaram para a escola. Daí o Professor marcou o tempo para chegar até a Porteira onde estava preso o carneiro, e exclamou:
- Só cinco minutos? E eu andei umas três horas sem necessidade?...
Bem, o almoço aconteceu já no avançado horário da tarde, e bateu aquela maresia na turma. Quando estavam preparados para ir embora, eis que o Professor exigiu a presença de todos na sala de aula. Explanou calmamente (vingança é um prato que se come frio) sobre a teoria e os cálculos da resistência mecânica dos materiais. E tome-lhe fórmulas que iam de alguns centímetros de comprimento até a largura do quadro. Era um tal de Achar o valor de KC1, K2, K7...foi uma cassetada só; a turma tentava em vão manter os olhos abertos...Então finalmente, na boca da noite, os alunos já zarolhos, foram liberados. Mas deveriam estar no outro dia, às oito, no local de partida para uma pequena viagem de 100 km, rumo à empresa de ensaios tecnológicos. E foi assim a comemoração do Dia dos Professores para esses futuros mestres.
Dito e feito, no outro dia aconteceu a viagem. O caçador de esmeralda é que se deu mal. Não acompanhou a turma por motivo de saúde, e confundiram sua amostra com biscoito waffle. É que o Professor não autorizou parada para merenda. Bateu o rango...
Na volta, mais uma vez a inteligente comissão se reune, e convida o Professor para saborear um mingau muito famoso da região, no Rei da Pamonha, um bar na beira da estrada.
- Mingau de que? – Pergunta o ressabiado Professor.
- DE MILHO ! – respondem em uníssono seus pupilos.
- Peraí ! Vocês me convidam para comer GALINHA e me oferecem MINGAU DE MILHO? Vocês estão de gozação comigo. Vamos pra frente...
Ninguém prestou a atenção naquele "vamos pra frente". Mas eu, pensando cá co´s meus botões, e se não fosse uma ficção, profetizaria: para esses mestrandos incautos, ainda faltam prova de inglês, qualificação, defesa da dissertação e uma pequena estadia de quatro meses, na capital do Papai Noel brasileiro...Está redondamente enganado quem ACHAR que não vai ter retorno.
PS - Qualquer semelhança com personagens da vida real, é mera coincidência.
Nesta semana estava conversando com um colega, no balcão da cantina enquanto aguardávamos nossos pedidos (um pastel de vento e um sanduíche que já se sabia até a fração de milímetro da espessura do queijo), ocasião em que comentávamos sobre o fato de quatro anos ser muito tempo (plagiando o comercial), para qualquer atividade que você venha a encarar diuturnamente. Como por exemplo, ficar desentortando pequenos grampos, subindo em árvores altas e retas, enfrentando touro do sertão à unha, ou até mesmo escaldando sob o sol. É... Quatro anos é muito tempo, concordamos.
Nisso passa uma professora amiga nossa, queimada de sol (talvez com prefixo “p”), vestido vermelhão (pra matar) e cabelos soltos. Então meu colega comenta:
- Olha lá, não parece uma índia?
- E é uma índia muito forte, sonho de consumo de qualquer índio. - O que quer dizer? Perguntou.
- Ora, essa índia tem poucos dias que tomou uma grande trombada em um acidente quando ia buscar palha de licuri em uma taba localizada numa serra distante, e apenas arranhou uma costela. Os marmanjos que estavam com ela saíram todos arrebentados. Por isso eu digo que se fosse índio, a pediria em casamento ao seu pai (o Cacique, claro!). Então diria: “índio Urso Velho querer casar índia Costela Trincada”. Ao que o Cacique responderia: “índio Urso Velho trazer noutebuque com uairilesse, banda larga 3G e levar Costela Trincada”.
- Para que um cacique iria querer um notebook? Tá viajando cara?
- Segundo ele, a escolha do novo Cacique acompanha as eleições do homem branco, e está próxima. Ele precisa contar os votos de sua chapa e traçar as estratégias para garantir pelo menos um lugar no comando. Mas isso é outra história...
- Por falar em eleição, você acha mesmo que a urna eletrônica é inviolável?
- Aprenda uma coisa, meu caro: nada em eletrônica ou informática é inviolável. No mínimo uma pessoa pode proceder uma violação, e essa pessoa é quem projetou ou trabalhou na confecção da mesma. Lembra do comando “debug” do DOS e o famoso programa abridor de lata “pctools”, ambos da própria IBM? Lia até pensamento em hexa, na linguagem Assembly. Como estávamos numa época ainda romântica (sem essa idéia criminosa de hackers) a gente passava muito tempo destravando programas com esses métodos, nos anos 80. E dava um bom trocado.
- O sistema da urna eletrônica é DOS?
- Até pouco tempo era, e ainda existem algumas. Mas hoje é o Windows CE muito mais amigável (tanto para operação como para ataque). Veja que a todo tempo está saindo um Service Pack para fechar uma ou outra portinha que sempre teima em ficar aberta. Porque você acha que existe um sistema na própria urna para detectar as invasões ocorridas? Será que esse sistema nunca operou? Até porque não é um sistema anti-ataque, e sim, para informar que houve ataque.
- Então isso é preocupante!
- Depende. O que me preocupa mesmo é a falta de informação de quando e em quais urnas houve violação, e as medidas tomadas. Já surgiu informação sobre a ligação da urna antes do horário estipulado e o não travamento da mesma (essa é uma boa hora para se praticar um ataque), e assim por diante.
- Voltando à política, já tem seu candidato para prefeito?
- Ainda demora um pouco porque não tenho desenvoltura em análise de política partidária, e por isso nunca me envolvi com ela. Só estive envolvido com política estudantil e empresarial, que tem a mesma filosofia, porém é mais light.
Enquanto meu colega observava aquela massa delgada encharcada de óleo com cinco gramas de uma talvez carne ao fundo, em que se transformou seu pastel após o forte jato de ar quente da primeira mordida, eu separava meu transparente pedaço de queijo do pão para degustá-lo ao final, pois não conseguiria essa proeza ingerindo-os ao mesmo tempo. Daí o colega se foi e eu “garrei a maginá” sobre essa aberração em que se transformou a política.
A corrupção aportou aqui no primeiro navio chegado da Europa. Mas ela se instalou na política muito tempo depois. Daí, podemos dizer que nem todo político é corrupto. Às vezes ele é inocentemente envolvido por articuladores de plantão que o leva ao poder, e deles não pode mais se livrar. Às vezes as pessoas com quem ele conta é que o coloca em posição delicada, ou na prática da oração de S. Francisco. Já pensou você ser candidato a simples vereador e, ao sair na rua, ser atacado até pelos considerados amigos a pedir desde botijão de gás até saco de cimento, passando pelas intermináveis cestas básicas? E a intenção era só informar sua plataforma. Eu já vi isso.
Portanto, para se candidatar a qualquer tipo de cargo, por mais insignificante que seja, há de se conhecer as pessoas. Para Pessoa, conhecer pessoas é observá-las enquanto elogiam ou são elogiadas. Platão disse que em uma hora de brincadeira, se conhece mais uma pessoa do que em anos de conversa. Para meu pai, que era um sertanejo sábio, para conhecer as pessoas que o rodeiam, deve-se morar com elas, ficar pobre ou se candidatar a qualquer coisa. Fico com o velho, pois nunca consegui comprovar a teoria de Pessoa ou de Platão. Não sou um bom observador.
Em teoria, imagino que se você for um candidato, mesmo pedindo a bênção aos mais importantes, mais experientes, superiores, correligionários, amigos, parentes, etc., uma neblina sempre surgirá a partir daí. Estratégias serão traçadas. Composições serão propostas. Coligações serão delineadas. “Sem chance” é o que você mais ouvirá. Como ouvirá também sobre seus defeitos ditos indiretamente por aqueles que você julgava amigos, ou quase isso. Mas eles continuarão lhe incentivando e sorrindo para você. Só aqueles poucos e verdadeiros amigos, às vezes um pouco esquecidos devido a sua prospecção em busca de novos, é que ficarão do seu lado.
Então, meu conselho é aprender a usar a técnica de Platão ou de Pessoa para conhecer as pessoas. Se esperar ser candidato para descobrir isso, pode ser tarde. Poderá não ter chance de praticar suas boas intenções, como também poderá se tornar um corruptor ou um corrupto. A propósito, quem nasceu primeiro?
Mais um semestre se inicia na escola com as mesmas ocorrências: novos alunos (que nos inspiram a testar nosso conhecimento de psicologia e capacidade de prever o futuro); alunos antigos e concluíntes (que nos comprovam não sermos psicólogos nem futurólogos); antigos professores, arrastando suas confortáveis sandálias (e nos olhando com aquela cara de “o-que-é-que-eu-tô-fazendo-aqui?”); novos mestres (com um turbilhão de idéias na cabeça sobre o tema do doutorado); novos doutores, ostentando seus elegantes trajes e notebooks (com um turbilhão de idéias na cabeça sobre o projeto que possa angariar maior fundo para um laboratório de ponta); técnicos administrativos e terceirizados, que nos atravessam com seus olhares indiferentes; funcionários de subempreiteiros e estranhos (sem ao menos um crachá de visitante), que adentram ao recinto escolar e circulam numa boa (até tiram uma soneca dentro de laboratório); o Lavoisier da cantina, fiel sopão das 18 horas, que com suas diversas nuances (a depender do dia da semana) nos ajuda a segurar o regue até as 22; e a nossa velha educação.
Nessa época de “petrolho pá inducação” é sempre bom de vez em quando darmos uma refletida sobre o que entendemos ou queremos da educação. Por exemplo, o que essa grande quantidade de especialistas, mestres e doutores a ela pertencentes e que através dela conseguiram seus títulos, fazem por ela?
Eu até me penitencio por discorrer sobre esse assunto, pelo fato de já não almejar muita coisa no futuro, devido ao quantitativo de janeiros que vi raiar, e por já ter cumprido grande parte da missão de um homem, que é a de plantar uma árvore (plantei dezenas), ter um filho (tive uma dezena) e escrever um livro (escrevi quatro - engavetados). Mas sinceramente me preocupo com essa farofa de abobrinhas pulverizada sobre uma juventude que ora desponta para a ciência na educação (média, tecnológica e superior). Digo isso, porque um aluno do curso superior da escola me confidenciou:
- Sou aluno desde o médio, e ando meio indeciso quanto ao que fazer. Gostaria de ensinar, mas vejo uma dificuldade grande na infra-estrutura educacional. Muito dos conselhos é para chegar ao doutorado imediatamente, montar grupo de pesquisa e tocar projetos cujos financiamentos são consideráveis, e vários são milionários. O importante hoje é ser doutor. Vejo bastante discussões entre professores sobre quem tem mais artigos publicado, mais equipamentos no laboratório, quem tem mais orientandos, etc., etc. Mas na melhoria do ensino, não vejo muita coisa.
Isso foi uma ducha fria para mim, que não me considero termômetro para esse tipo de conselho. Só poderia contar a ele o que eu fiz. Ou seja, saí da graduação, fui para iniciativa privada por 25 anos, e voltei com alguma experiência prática, para usá-la na tentativa de facilitar o aprendizado dos alunos dessa, que foi também a minha escola. Mas é muito pouco. Gostaria de ter conhecimentos mais aprofundados sobre humanismo, filosofia, sociologia, psicologia e pedagogia, para complementar meu conselho. Só pude então tecer alguns comentários:
- Se você realmente gosta de ensinar, não se prenda muito ao poderio econômico. Especialize-se na área de interesse, pegue um pouco de prática e aplique na formação dos seus alunos. Se quiser, defenda uma dissertação de mestrado na linha do seu trabalho educativo e utilize-a investindo também neles, não importando se primeiro, segundo ou terceiro grau. Quer seguir adiante? Ótimo! Desenvolva um projeto de doutorado na área de interesse, mas que você possa provar sua tese utilizando seus alunos, de maneira que todos os futuros formandos usufruam desse projeto. Não tenha medo de tentar algo novo. Lembre-se que a Arca foi feita por um amador, e o Titanic por centenas de profissionais.
- Sim, mas não é mesmo importante ser doutor?
- Claro que é! Eu até gostaria de sê-lo, só não tive oportunidade. Porém vejo o doutorado hoje mais voltado para as máquinas, e o que temos é uma carência no ensino humano, mais na área do sentimento. Os de alto nível pensam muito e sentem pouco. Por isso acho que ser um professor que ensina, independente de doutor ou não, é mais importante. Até porque, “doutor” vem do latim “docere” (ensinar) e “douto” significa “instruído”
- E quem é realmente doutor?
O jovem está querendo puxar meu tapete, imaginei logo. Dei uma rebuscada no baú, no sentido de lhe dourar a pílula:
- Pelo que li, o título de doutor é distribuído no Brasil aleatoriamente. Primeiro, por analogia aos países de língua inglesa onde “doctor” pode ser um médico ou um acadêmico que defendeu uma tese (é como a palavra “manga” que pode ser fruta, parte da camisa ou pasto). Segundo, por jurisprudência do tipo “se o médico que cuida da vida o é, eu que cuido da liberdade, também sou”. Terceiro, por reverência dos subordinados, que denominam de doutor os seus chefes, os quais podem ser qualquer graduado ou então uma pessoa que chegou ao posto de chefia no serviço público (caído ou não de pára-quedas, não importando a escolaridade ou conhecimento na área em que atua. Eu sei de vários). Mas o (a) Doutor (a) é quem defendeu publicamente uma tese de doutoramento em universidade reconhecida, ou seja, adquiriu o grau máximo de formação acadêmica. Entretanto, não querendo morder e assoprar, existe uma chamada Lei do Império ainda em vigor, de 11 de agosto de 1827 (me lembra Pantaleão) que atribui aos advogados o título de doutor. Entretanto (me sinto um juiz proferindo sentença), naquele tempo no Brasil só havia cursos de medicina e direito. Logo, era o grau máximo da época. Hoje é diferente, porém os advogados e médicos não desistiram dos títulos e ainda discutem quem tem direito ao mesmo.
O aluno agradeceu e saiu (talvez mais confuso ainda). E o fato me lembrou dois testemunhos: um de uma professora, doutora, sobre o porteiro do seu prédio anunciando a chegada de seu irmão graduado médico dizendo: - “professora, aquele seu irmão, que é doutor, esteve aqui”...Outro, foi o caso de um documento que deveria ser digitado e destinado a uma professora graduada e diretora de escola pública, com a observação: - “Lembre-se de colocar o título de doutora”...E assim por diante. Trata-se mesmo de cultura do nosso país. Sei apenas que teremos melhores doutores no futuro, se os atuais se voltarem mais para o ensino do que para as pesquisas ou pesquisar em prol do ensino.
Falaram-me sobre professores doutores ministrando aulas de mestrado e tentando explicar que já estão em um nível tal, que orientar mestrando não é mais interessante, pois dificulta o prosseguimento de suas pesquisas. Imagine no tocante à graduação, penso eu. Alguns também incentivam a conclusão do mestrado, muito mais pelo bem da Universidade do que pela qualificação do aluno. É portanto um Deus-nos-acuda, e eu não adentro essa seara por não ter experiência suficiente. Mas é bom frisar que existem doutores que se importam com o ensino.
O professor, independente de ser doutor ou não, deveria fazer como o bom lenhador, que tendo oito horas para derrubar uma grande árvore, leva seis afiando o machado. Um professor deveria também gastar pelo menos 50% das horas que tem para ensinar, afiando as palavras. O que importa é produzir conhecimento. Até um relógio parado produz 8,3% no dia (apresenta a hora certa duas vezes). É um percentual baixo, concordo. Quem dera pudéssemos convencer a maioria dos especialistas, mestres e doutores a produzir esse percentual da verdadeira educação, e defender os alunos contra sua própria influência de mestre! Mas isso é como convencer ao coelho de que seu pé decepado e pendurado em um chaveiro, dá sorte.
Portanto, há doutores e doutores. Há de se descobrir onde esse termo é mero apelido.
Sexta feira, final de tarde, tão esperada devido à maratona da semana com tantos conselhos de final de semestre, ferroadas das listas de estatística e enxames de laudas na prova de inglês, tento inutilmente desvencilhar-me de alunos querendo saber resultados de conselhos, para conseguir chegar à salvo na cantina, pedir um Lavoisier e acalmar.
Tive que me deter um pouco para manipular aquele produto químico numa cumbuca de porcelana, que o mui amigo atendente literalmente lançou sobre minha mesa (respingando em minha domingueira que usei para prestar o exame de inglês). O preço deste sopão é tão baixo que não cabe uma gorjeta. Por isso seu mau humor.
Comecei a trabalhar nessa mistura tentando separar as nanométricas partículas de verdura (vide prova de inglês)que ainda não estavam “filletadas” (sendo hoje uma sexta-feira, é usual haver uma mistura do produto novo com o de dias anteriores; como as bordas destes ficam abauladas e sua densidade aumenta, é fácil separá-los por flotação e decantação) cuja lixiviação foi feita por um líquido bege-esverdeado (logicamente sem sal, devido a essa operação).
Não tive tempo nem de concluir a manipulação quando chega um professor, que eu ainda não conhecia direito, mas que parecia me conhecer através do Conversa de Cantina, e pede licença para sentar-se. Portava um suculento e duplo sanduba de filé, 500 ml de suco natural, e de quebra, um generoso pedaço de torta de abacaxi, tendo ao lado o mesmo atendente, desta vez sorridente, limpando a mesa. - “É verdade...”, só pensei.
- Dá licença, mestre?
Não o sou, mas quando me chamam de mestre fico aterrorizado. É sempre o prenúncio de chumbo-grosso.
- Tem toda – brinquei para aliviar as tensões.
- Tenho lido suas crônicas e me divertido muito. Até estranhei o longo hiato atual, mas me disseram que você está tentando fazer um mestrado. Eu entendo bem o que é isso, pois para mim foi muito trabalhoso fazer especialização, mestrado e doutorado em pouco tempo e já imagino como será o pós-doc... blá, blá, blá...
Tive que atalhar o inteligente amigo, à contra gosto, pois temia que ele citasse todo o barema das suas titulações, assim como os Lusíadas por completo.
- Que ótimo! Agradeço essa atitude sua até porque esse fato me tira da zona de rebaixamento, uma vez que o número de leitores confirmados salta para sete, já incluindo os amigos e parentes.
- Noto que você não trata da política interna, mas deveria tratar. Seria bom falar das próximas eleições para diretor geral ou reitor, chefes de departamento, etc. Os pretensos candidatos à reitor ou diretor geral, pelo que eu soube, já andam se espinafrando por aí e prometem por ordem no galinheiro. E você não comenta nada? O que você sabe sobre a criação de grupos setorizados? E o sindicado que dizem ser chapa branca? Vamos, colega! Abra o verbo. Sabe o que o um dos candidatos à diretor ou reitor falou daquele que é o mais provável?...
- Calma lá, amigão! Eu não me permito tratar desses assuntos por conta dos estatutos internos desse veículo. Você pode ser um profissional competente, mas ainda é muito jovem e precisa se preparar um pouco mais para enfrentar essa vida cheia armadilhas, altos e baixos. Ademais, eu lhe pergunto: essa informação que você quer me transmitir já passou pelas quatro peneiras?
- Que peneiras são essas? Nunca ouvi falar.
- As três primeiras são as peneiras de Sócrates. A da verdade, da bondade e da utilidade. Sobre a primeira peneira, o que você tem a dizer é a pura verdade? Foi comprovado por você?
- ?!
- No que se refere à segunda peneira, sua informação vai fazer o bem a alguém ou causará transtorno, inveja, intriga, inimizade, briga, etc.?
- ?!
- Então sobre a terceira peneira, a sua versão dos fatos será útil de alguma maneira?
- ?!
- A quarta peneira não é de Sócrates, mas a do retorno. Mesmo que sua informação passe pelas três peneiras, lembre-se que sempre fica um percentual retido em uma ou outra, por menor que seja. Significando dizer que, no que se refere à verdade ou bondade ou utilidade, nada é absolutamente verdadeiro. Então eu finalmente pergunto: o que da sua mensagem ficou retido em qualquer peneira, pode retornar negativamente para quem divulga a informação?
- ???!!!
- Suas eloqüentes respostas traduzem claramente a dúvida que você tem em relação à informação a ser transmitida. Ou seja, tal informação não passou em pelo menos uma das peneiras. E como estamos falando de Sócrates, que disse frases como “...a palavra é o fio de ouro do pensamento...”, “...alcançar sucesso pelos próprios méritos”, “...conhecer os limites da própria ignorância...”, sugiro cicuta para ela.
E lá se foi meu interlocutor, um pouco frustrado por não ter conseguido seu intento em criar uma cizânia. Deve ter sido orientado a fazer isso (aquela velha história do orientador). Trata-se de um jovem promissor que precisa de mais um pouco de tempo para entender que precisamos ser realistas e ajustar as velas do barco, em vez de culpar o pouco vento ou esperar que ele aumente.
Para não ficar muito humilhado com relação à gorjeta que o atendente recebera do meu amigo, chamei-o e, tirando lá do fundo do bolso uma moeda de 25 (10% do consumo) coloquei-a perto da cumbuca do sopão. Ao passar por mim, muito educadamente ele murmurou:
- Espero que não lhe faça falta...
Chóros, chorus, choro, é tudo a mesma coisa:
Significa CORAL
Que bem cantava CHORO.
Choro por ele que ora se vai,
Sob um coro silente de murmúrio em dor maior:
Hummmmmmmmm!!!!
Chorando poderia ele até plagiar:
“Que foi que eu fiz senhores!
Que torvo crime eu cometi jamais
Que assim me oprime o teu gládio vingador?!”
Mas os senhores não ouvem,
Não pensam,
Não falam.
Na calada, calam
Sopranos, barítonos, baixos e tenores
Que entoam um triste canto:
Ooooooooohhhhhhhhhh!!!!
Esses senhores...
Estava até estranhando alguém não ter me interpelado acerca desse maldito episódio do professor da UFBA falando do QI dos baianos, quando um professor e amigo, conterrâneo dos meus ascendentes, me provocou durante o almoço na cantina.
- Como é, não vai escrever nada sobre seu conterrâneo do berimbau?
- Não costumo dar trela para racistas. Eles são tipo nazistas que, tal como uma parede construida sem amarração, cairão certamente um dia. Mas diferentemente desta que só causará dor, sofrimento e morte ao cair, eles fazem o mesmo nesse meio tempo. Uma pena é que os construtores e os nazistas-racistas não são nem sequer avaliados antes das hecatombes anunciadas. Claro está que esse coordenador não-sei-das-quantas não foi avaliado psicologicamente antes de assumir seu cargo.
- Foi realmente um comentário racista.
- Mais do que isso. Partindo de um pretenso culto, coordenador de um curso superior extremamente importante para a sociedade, foi revoltante a exteriorização desse preconceito explícito, movido que foi pelas suas frustacões pessoais. Ele foi quem expôs seu baixo QI quando comparou o berimbau, instrumento de percussão, criado apenas para ritmar cantigas de capoeira, a um instrumento erudito. Tal pseudo intelectual nem deve saber da existência de pratos e tímpanos na orquestra sinfônica, manuseados por doutores em música. Para o racista, esses eruditos só teriam um neurônio, então. A diarréia verbal aliada ao racismo e arrogância desse sr. não-lembro-o-nome, só serviu para engrossar as fileiras daqueles que matêm o antiquado e discriminatório discurso, alicerçado no que chamam de supremacia da civilização européia, diante dos denominados silvícolas africanos, referindo-se à inferioridade baiana hereditária desses últimos. Trata-se de uma postura do século XIX, época em que as teorias racistas eram a tônica em todo o Brasil, e não só na Bahia. Claro que sendo a Bahia o berço do Brasil e onde estavam a maioria dos escravos, isso ficou arraigado nas mentes dos falsos intelectuais.
- Mas o fato é que poucos baianos ilustres se manifestaram. Até os movimentos negros não tomaram providências mais enérgicas.
- É o típico proceder baiano. Amantes da paz. E isso é confundido com subserviência ou baixo QI. Olhe em sua volta aqui mesmo na escola: muita coisa certa e muita coisa errada, entre geradores e receptores. Só os geradores das certas discursam. Os receptores nada dizem sobre os erros e acertos e quando o fazem, incógnitos através de questionários de avaliação, nem notam que geradores de erros crassos não serão avaliados. Todavia o que quero dizer mesmo é que nada disso deve ser confundido com burrice, pois como disse o meu amigo Riachão em uma das suas canções, “Pau que nasce torto morre torto, baiano burro garanto que nasce morto”.
Meu interlocutor não continuou a prosa e eu, matutando sobre o assunto, decidi acrescentar à essa crônica uns tímidos versos sobre essa simples e pacífica Bahia, já publicado anteriormente em periódico, e que acho oportuno. La vai...
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SIMPLES BAHIA
Quanto é semelhante e simples
Ver Gil cantando
Verger declamando,
França, África Bahia.
Cae, o homem.
E de Haia o Águia
Enfeitiçando as palavras
Nos transporta para o estado Alfa
Beta, Betânia, a luz
Ela é Gal;
Ser bonita como ela é
Ilegal é não amá-la.
O Amado Cavaleiro da Lua,
Em seus períodos iluminados,
Nos traduz a complexidade do simples.
Como simples e bom é o portugués de Portugal
Do além Subaé.
A menina Menininha,
Tão doce quanto a Dulce,
Nos olhando da Colina,
Cobrindo a cidade
Com grande pano branco do Ghandi
E o multi-colorido do Ylê,
Pacifica nossa mente.
O poeta em sua praça,
Evocando os versos do passado,
Estende a mão
Aos ainda maltratados
Servos herdados
Hoje o texto do Conversa de Cantina não tem diálogos nem é inspirado na cantina da escola, como de praxe, e sim na triste notícia do falecimento de um grande amigo e professor da escola, o digníssimo Professor MSc. Carlos Magnani, por quem eu nutria grande admiração e profundo respeito.
Conheci Magnani numa visita à Uned de Simões Filho, ocasião em que fui convidado a ministrar aulas em cursos de extensão, pois ainda não era funcionário efetivo da mesma.
Ao entrar no pátio com o carro, sem conhecer bem o local, fui surpreendido por uma valeta encoberta pela vegetação e acabei por me acidentar, onde bati com a cabeça na porta, tive um pneu explodido e a suspensão do carro danificada. A escola estava quase vazia (ainda não havia iniciado o semestre letivo).
Saí atordoado do carro com a cabeça machucada e nesse momento surge aquele cidadão robusto, sorridente e me ajuda a sair do carro, fazendo sozinho todo o trabalho de retirada do mesmo da vala, ainda por cima trocando o pneu que havia explodido e o tempo todo preocupado com meu ferimento. Em seguida providenciou água e remédio e depois de algum tempo me acompanhou até o médico mais próximo, aguardando minha recuperação. Assim era Magnani. Ser prestativo era sua tônica.
Bonachão, sorriso fácil, afável, dono de um excelente humor, Magnani me deu o maior prazer em tê-lo como amigo durante o pouco tempo em que convivemos profissionalmente. Trabalhamos juntos em Simões Filho, passamos dissabores juntos, fomos repatriados para a sede e juntos continuamos no Departamento de Mecânica da Escola, trabalhamos juntos na sua dissertação de mestrado, mostrou-me vários equipamentos embarcados, etc. E antes dessa fatídica viagem em busca da sua recuperação, ele atendeu recentemente, mesmo debilitado, meu convite para explicar o funcionamento do Simulador de Injeção Eletrônica Veicular do Departamento, que estava parado há algum tempo e que eu me interessara em colocar para funcionar. Nessa ocasião tive a oportunidade de gravar em vídeo algumas das suas explicações, o qual guardarei com muito carinho, pois foi nosso último contato.
Pois é, assim era o Mestre Magnani. Não separava briga de um amigo seu, já chegava dando uma gravata no oponente... ria das nossas piadas mais sem graça...entristecia com nossas tristezas... não dizia “vá em frente” e sim “se quiser, vou contigo”... aperfeiçoava-nos com sua amizade, não pelo que nos dava mas pelo que revelava de nós mesmos... era muito sincero quando nos tecia os maiores elogios, mesmo sabendo que não passava de uma suave mentira... era capaz de dizer na lata que estávamos errados, mas que estaria conosco.
E hoje, quando meu amigo “Magalhanis” nos deixa órfãos, só posso dizer que nenhum amigo desaparece enquanto alguém pensa nele. E quando não houver ninguém mais para pensar nele, é que todos já estão reunidos no céu. De Magnani só tenho um arrependimento: de rir quando ele fazia piadas sobre sua própria doença. Espero que me perdoe.
Qual Shakespeare, também aprendi que não importa quanta seriedade a vida exija de você, cada um de nos precisa de um amigo brincalhão para se divertir junto. Magnani era esse tipo de amigo. E é desse Magnânimo Mestre Magnani, que sempre irei recordar, com carinho.
Eu vivia me escondendo de um colega que não parava de fazer gozação sobre uma inocente brincadeira que fiz no dia das mulheres, e apenas uma colega não gostou e publicou uma carta de protesto. Antes de entrar na cantina, sempre verificava se ele não estava. Mas ontem não deu tempo de me sair e ele cercou-me com a costumeira pergunta:
- E aí? Já pediu perdão a nossa colega pra não apanhar?
- Não só pedi de joelhos, como já fui perdoado. Ela é um doce de licuri coberto de chocolate fino. Jamais faria algo contra mim. Aliás, só em me olhar, quem vai me atacar já tem pena.
- Mas a verdade é que quase você apanha.
- É que nós do sexo masculino não entendemos ainda que somos nós o sexo frágil, não elas.
- Pêra lá, velho. Eu não sou frágil, não!
- Não?! Quem paga a pensão da sua separação (no mês que não pagar vai preso)? Com quem estão seus filhos? Quem ficou com sua casa e obrigou a venda do carro novo? Porque sua segunda mulher, depois de dez anos, ainda não pode se casar com você? Porque você não pode vender um terreninho lá no jebe-jebe para consertar seu carro velho? Quem precisa ter disposição e competência para o ato amoroso, prolongando o tempo que não tem, só para mostrar serviço? A parte dela não é mais simples? Têm todo o tempo do mundo e não precisa mostrar nada fisicamente quando está interessada. Já o homem, se não mostrar, ta ferrado. E o sincronismo, quem é obrigado a manter? O homem nem pode fingir que foi bom. Quem pode se desfazer do próprio filho logo após seu nascimento e se justificar? Quem faz o melhor trabalho, quando ambos têm a mesma função, não é sempre ela? Quem suporta jornada dupla, e até tripla? Quem se segura mais em um bar? Quem sai de casa no divórcio? Quando o homem corre atrás de riqueza é para gastar com quem? Para dar a quem? Quem tem delegacia, dia internacional (êpa) e outras proteções? E finalmente, a quem Deus destinou o divino dever de gerar? Só que o trabalho delas para conquistar tudo isso foi muito duro, temos que reconhecer e aplaudir de pé (sic); Então... quem é o sexo frágil, meu amigo?
- Sob essa ótica, devo confessar que fiquei balançado.
- Não é só entre nós não. Em todo o reino animal, quem manda são as fêmeas. Já viu o sufoco que o leão (que é o rei) passa por um momento de amor? É tanto arranhão e mordida...e ainda não tem direito a ver os filhos pois a leoa os esconde. O cabrito montês é obrigado a subir centenas de metros em montanhas rochosas a quase noventa graus de inclinação. O pingüim tem que ofertar presentes. O pintassilgo tem que fazer vários ninhos de amor e as vezes ela nem nota. O pavão, coitado, tem que manter 22 carreiras de penas, num total de 176 em ângulos perfeitamente iguais. E aí dele se faltar uma pena. Sabe o trabalhão que dá para manter essa posição? Nem vou falar daqueles que morrem por um momento de prazer, tais como os zangões e o macho do Louva Deus cuja cabeça é devorada pela fêmea. Em quatro mil espécies de mamíferos, em apenas três existe monogamia, o resto tudo é uma poli só.
- Vou-me embora senão você acaba me convencendo que nós não somos nada, só objetos.
- Pois é, e eu só vi até hoje um cara quase se dar bem com o sexo oposto.
- Essa eu quero ouvir. Quem foi o herói?
- Eu disse quase! Ele era muito afável, pacato, educadíssimo, professor muito competente, rápido no falar, baixinho, mas se apaixonou por uma viúva descendente de americana. Era a viúva Mactans (com esse nome não poderia ser boa coisa). Ela tinha a fama, não comprovada, de ter enterrado vários maridos. Também... até eu me apaixonaria. Tratava-se de uma morena chegada na cor, reboculosa, cinturinha fina, quadris fartos, uma tatuagem vermelha no abdômen em forma de ampulheta (talvez para marcar o tempo de vida do marido, ou o tempo da prática do amor). Lembra das mulatas de Sargentelli? Pois é, Rita Cadilac, no seu apogeu, era fichinha diante da viúva, que ganhou aqui o apelido carinhoso de Flamenguinha. Além de tudo tinha várias especialidades: professora, pesquisadora, engajada, especialista em dança do ventre, yoga e kama-sutra, além de outras técnicas que pudessem fazer feliz o marido conquistado.
- E aí, o cara deu em cima dela?
- Não, ele além de tímido, era do tipo mignon e tinha medo da fama da viúva. Soube que os últimos maridos morreram por causa da forte “tesoura” aplicada por ela na hora do amor. Alguns teriam se suicidado de tanto prazer. Mas toda vez que ela passava, ele cantava “pedi-pra-parar-parou...” em ritmo de samba. E ela parava, insinuante, fingia pegar alguma coisa no chão dando o maior calor no coitado. E tome feromônio nas narinas dele. Só que esse amor platônico demorou tanto, que ela mesmo tomou a iniciativa e foi falar com ele:
- Qual é, benzinho? Vai ficar o tempo todo comendo com os olhos? Não vai partir?
- Sabe como é... sua fama né...dizem que você tem umas pernas muito fortes... eu não pretendo morrer agora... nem fiz mestrado ainda.
- Vamos fazer um acordo. Agente se casa, e na noite de núpcias eu me amarro com as pernas para trás, na posição Sutra do “arco do triunfo”, deixando o que lhe interessa liberado para você fazer o que quiser. Não tem perigo nenhum, topa?
- Bem... nesse caso... se você amarrar bem as pernas, eu até encaro.
Dito e feito. A viúva, especialista que era em contorcionismo, kama-sutra e outras técnicas, amarrou-se com as pernas por trás do corpo e mandou aquela dança do ventre. A ampulhetinha executava movimentos frenéticos e circulares aí pela faixa dos trinta hertz. Então o solicitante não teve outra alternativa senão cair pra dentro. Conferiu as amarras e aplicou o melhor do seu bate-estaca. Aqui vale abrir parênteses.
Semanas atrás a viúva assistira, no Programa do Jô, uma demonstração de pompoarismo feita por uma atriz sueca que projetava pequenas bolas na platéia enlouquecida. Ficou a viúva fascinada e decidiu se especializar também nessa técnica. Começou projetando bola de gude, depois passou a dar show com bolas de pingue-pongue e tênis. Já estava até treinando com bola de futebol. Mas seu intento era entrar para o Guiness book, encestando uma bola de basquete do meio da quadra, num ginásio lotado durante o intervalo de um jogo da NBA. Seria a glória... Fecha parênteses.
- Assim que a viúva recebeu o depósito das células vitais, usou a técnica do pompoarismo e prendeu o pobre coitado pelas suas partes baixas. Ele gritou de dor mas não podia fazer nada pois, além de pequeno, estava fraco devido ao esforço. Com uma das pernas que tinha deixado solta e ele não percebera, ela começou a se desamarrar. Mas ele ainda tentou dialogar.
- Você mentiu.
- Não, benzinho. Eu disse que ia amarrar as pernas, não disse todas as pernas. E você conferiu.
- Mas eu contei oito pernas amarradas.
- Não, benzinho. Você contou sete pernas amarradas. Uma estava solta por baixo, aparecendo só a extremidade.
- Você disse que eu poderia fazer o que quisesse, e eu quero ir embora. Solte-me.
- Não, benzinho. Eu disse que poderia fazer tudo em termos de amor. Mas não disse que o deixaria ir. Até porque, você foi um desastre. Sem preliminares, cheiro no cangote, nada. Parecia um galo assustado. Só por isso merecia que eu lhe cortasse a cabeça, como faz minha colega Louva Deus. Como vê, não fui falsa à você, afinal de contas preciso de você para alimentar nossos filhotes. É uma causa nobre. Além do que, você é um pé-rapado que não pode pagar pensão para tantos filhos, com esse salário de professor.
E ela, a Sra. Lactrodectus Mactans, prestes a se tornar viúva mais uma vez, com muita delicadeza foi injetando um tranqüilizante natural no infeliz marido, enquanto o transformava em um pacotinho coberto de seda, cantando boi-da-cara-preta. Afinal, o alimento não ficaria bom se o doador partisse estressado. Ela iria precisar, pois acabara de ser enxertada
. Encerrou o trabalho com as palavras de ordem “fêmeas unidas jamais serão vencidas”. Já o pobre e sacrificado amante, antes de cair em sono profundo, só pôde balbuciar:
Primeiro dia de atividade do ano letivo de 2008, enfrentamento de uma jornada nas estrelas, primeiro almoço na cantina (muito aquém para um retorno), saúdo a todos que encontro pelo caminho e, bem não acabo de pagar o PF, lá vem um aluno com quem trabalhei no ano passado me provocar:
- Salve, titchierrr! Oi nós aqui travez... Me tire uma dúvida... Vi na intranet um professor criticando a seleção de docente para sociologia e filosofia e fiquei meio intrigado... Se estamos estudando para sermos técnicos, o que o Senhor acha de tanta disciplina supérflua filosofia, sociologia, etc.? Afinal isso aqui é exatas ou humanas?
Como ainda não tinha aquecido a máquina para uma boa briga, ainda mais com um estudante concluinte e cheio de gás, doido para puxar meu tapete, tratei logo de resumir a questão.
- Você está mal informado, meu jovem. É claro que tais disciplinas são importantes para a formação profissional de qualquer estudante, principalmente os aspirantes a técnicos. São elas que fazem você pensar, perguntar, questionar, aprender e finalmente, ensinar. Elas nos livram dos pecados anunciados por São Breda.
- São Breda? Tem esse santo?
- Eu também não sabia da sua existência. Mas São Breda foi um santo britânico que enumerou os três pecados básicos que leva o homem ao fracasso: a) Não perguntar quando não sabe, b) não ensinar o que sabe e c) não praticar o que ensina.
- E o que tem a ver?
- Veja bem meu caro formando: hoje as empresas já perguntam o que não sabem. E perguntam principalmente aos acadêmicos de filosofia, sociologia, matemática, pedagogia etc. É cada vez maior o número de empresários que mantêm em seus quadros funcionais pessoas com conhecimento dessas áreas. Isso porque no mundo globalizado e veloz de hoje, é muito arriscado investir sem saber o “porque” e “como” das coisas (o famoso QQOPC) Hoje se precisa muito de provocações, questionamentos, quebras das milenares certezas, métodos científicos de ações, estrutura metódica do conhecimento, visão do depois de amanhã em vez do amanhã e entre outros mais, o uso das ciências humanas como via de acesso as estratégia futuras. Vai daí que os grandes executivos estão sabendo mais sobre o que precisavam saber, com ajuda daqueles profissionais ditos “pensadores”. Eu mesmo já cometi várias vezes o primeiro pecado, mas continuo aprendendo.
- Como assim?
Certa feita, ainda trabalhando como engenheiro residente em obras, precisei levantar o quantitativo de hora-homem do metro cúbico de escavação manual. Mas o servente encarregado desse serviço não havia chegado ainda. Então não contei conversa. Peguei uma pá e uma picareta e, sem perguntar nada a ninguém, iniciei a escavação de um metro cúbico em solo silto-argiloso, para estimar o tal tempo. A intenção era escavar mais que um metro cúbico para depois tirar a média. Antes de concluir a primeira cava, estando já bastante cansado, chega o servente, desata a rir e pergunta:
- Tá fazendo exercício, doutor?
- Não. Escavando um metro de buraco (arfando).
- Escavando??? O Sr. Tá cavocando e espalhando terra pra tudo que é lado, isso sim. Deixe isso pra quem entende. Quer água?(rs)
Como o funcionário mexeu com meus brios, tomei um último fôlego e conclui a retirada de um metro cúbico de terra em uma hora. Então, sem informar o tempo gasto, solicitei ao gozador que fizesse alguns buracos de um metro cúbico cada, e marquei o tempo. O servente, que era mais raquítico e mais baixo que eu,(como se alguém pudesse ser mais baixo do que eu....ah! tem pelo menos um professor de automação e até um diretor de Unidade que o são, felizmente), saiu para pegar alguns apetrechos.
Daí a alguns minutos volta o operário com suas ferramentas (uma picareta e uma pá de cabos curtos e gastas, um cavador de lâmina, uma régua e um esquadro de madeira, todas bem tratadas), amolou as mesmas, riscou no chão um quadrado de um metro de lado e iniciou o serviço. Uma hora depois eu contabilizei não uma, mas três escavações de um metro cúbico cada, no esquadro e aprumadas, prontas para construção de sapatas quadradas, estando a terra arrumada e afastada das cavas pelo menos um metro.
- Caraca! (rs). O Sr. tomou a maior lavagem de um pião.
- Pois é. Ainda era jovem, não sabia executar o trabalho e não perguntei, achando que era simples. E assim são as pessoas que seguem por aí dando cabeçadas. O grande Millôr Fernandes já dizia que quando não se tem dúvida, já se está mal informado.
- E a ética, tem alguma coisa a ver com essa história?
- Lógico que sim! É a pedra de toque da durabilidade da empresa. O consumidor ou cliente cada vez mais olha a questão ética, e como a comunidade interna ou externa estão inseridas nas ações dessa empresa, ou no seu processo de desenvolvimento e lucratividade. É a prática do aprendizado adquirido através dos profissionais de humanas.
E o jovem aluno, um bom aluno por sinal, saiu um pouco mais conformado sobre a necessidade de disciplinas que ele achava supérfluas. Quiçá, depois de formado, um dia volte para ensinar o que aprendeu na escola e na vida. Mas eu continuei pensando no que chamei de “pecados de São Breda”.
O terceiro é muito comum e depende da formação psíco-social do indivíduo. Muitos ensinam a não fumar, não beber, não espancar, não difamar, não faltar ao trabalho (ou aulas) e o fazem prejudicando inocentes, etc. Agora, o segundo pecado para mim é o mais importante, principalmente porque toca os professores, considerando que para ensinar o que se sabe, é necessário que o educador trabalhe a mente. E a mente é como o tapete: necessita de uma sacudida de vez em quando. Não sei porque, mas um outro padre, o Vieira, disse que o peixe apodrece pela cabeça.
Todavia o que devemos lembrar, enquanto educadores, é que nossa mente é como um pára-quedas, só funciona bem se estiver aberta. Condição si ne qua non para ensinar o que se sabe.
O Conversa de Cantina inicia os trabalhos do ano, desejando a todos os docentes um feliz 2008 letivo, claro, abrindo o pára-quedas e ensinando o que sabem.
Existe um causo (não um caso) muito conhecido que cada profissional conta como se fosse de sua área. Esse me foi passado por um advogado amigo em conversa na cantina.
Conta-se que certa feita, Deus estava selecionando mais uma leva de almas da área jurídica para deletar (mandar lá para baixo) e, como fazemos no intranet ao selecionarmos uma quantidade gigantesca de mensagens imprestáveis (spam) para jogar na lixeira, sempre indo no meio um ou outro e-mail importante, Deus mandou um bom rábula para os quintos. Só que sabiamente, Ele não pressionou "shift-del", pois aí não teria mais jeito (aqui não rola o jeitinho brasileiro).
Como bom jurista e cônscio dos seus deveres, chegando ao superaquecido local, o causídico tratou logo de organizar a bagunça forense lá existente. Fez uma imensa triagem por ordem de condenação. Descobriu, ardendo, milhões de inocentes (que foram liberados) e tantos outros com penas leves (que foram para o limbo), sobrando apenas os pesos-pesados para serem castigados. Isso aliviou tremendamente as tarefas do supremo mandatário das trevas, o qual resolveu não aplicar as punições previstas ao novo condenado, desde que ele continuasse prestando seus bons serviços.
Vai daí que Deus interfere solicitando a devolução do bom rábula. Não tendo sido atendido, é aberto um julgamento no supremo, sendo que o juiz, o promotor e metade do júri pertenciam ou tinham seus nomes na lista do coisa-ruim. – Todos sabem que Deus dirige o mundo das almas boas e o tinhoso, o das ruins. Os vivos são dirigidos pelos dois igualmente e o Supremo Tribunal define questões polêmicas como essa.
Vendo que estava tudo armado para Deus perder a causa, o bom Rábula deixou de lado a defesa própria e, para espanto de todos, proferiu um discurso tão eloqüente que convenceu aos de linha dura de que eles eram almas potencialmente boas, tendo sido injustiçados e abandonados ali por aqueles que não os entendiam. O próprio gramulhão teria sido um anjo que caiu do céu por acidente, tentando ajudar um protegido seu, etc., etc. Ao ver que corria o risco de ser convertido, o senhor das labaredas terminou por liberar o bom causídico, lamentando assim a perda de um excelente profissional.
Como disse, o amigo que me contou esse causo era daqueles que pouco falava, mas quando o fazia, convencia. Conheci-o há cerca de dez anos, quando eu era substituto na escola e cooperava com a Diretoria de Relações Empresarias. Sempre me deu bons conselhos e ensinamentos de textos em latim - "est corpus advocatorum seminarium dignitatum"- dizia, citando Cícero. Colocou-se à disposição para, juridicamente, atuar em minha defesa por duas oportunidades, as quais não foram necessárias: primeiro quando fui injustamente qualificado em quarto lugar em um concurso para docente da própria escola, e segundo quando fui, também injustamente, ameaçado publicamente de processo penal por não aceitar condições típicas dos anos de chumbo; caso esse solucionado pela sábia e segura decisão da Diretora Geral à época.
Na semana passada, no nosso último encontro, ele falou que era assíduo leitor do Conversa de Cantina sobre o qual teceu comentários positivos e, dando boas risadas, comentou:
- Sem esse papo que o CC tem seis ou sete leitores. Eu conheço pelo menos uma dúzia deles e alguns até me procuram para uma eventual tradução das já badaladas metáforas e digo-não-digos. Eu leio e vou fazer de tudo para continuar lendo. “Intelligenti Pauca”
Essa conversa me deixou bastante comovido, alegre e preocupado. Preocupado porque o tom da frase “vou fazer de tudo para...” me soou como uma despedida, principalmente depois do tapinha nas costas seguido de um semi-sorriso e olhar perdido.
E hoje, às véspera de Natal, tomei conhecimento da triste notícia: qual Rábula da estória, meu causídico amigo foi liberado dos seus inestimáveis serviços aqui na esquentada Terra, e retornou para o lado do Criador (com uns dias de antecedência para comemorar o aniversário de Seu Filho) que o deixara cair aqui por engano. Tenho a certeza que lá ele continuará seu trabalho em prol de inocentes e, como ele mesmo disse, fará de tudo para continuar lendo o Conversa de Cantina.
Não estava aqui para acompanhar o corpo do meu amigo até a sua última morada, porém o texto da sua lápide, se pudesse, eu assim faria (não sei se certo ou errado, pois ele não mais está aqui para corrigir, como sempre fazia):
EXE LEGE DEI, HIC JACET, EX ABRUPTO, MAGNUM HOMO FORENSIS:
PAULO CUNHA.
Afinal, o que é Natal? É um sentimento, uma comemoração, uma festa da cristandade herdada da antiga igreja, um jogo de interesses comerciais ou uma bazófia? É realmente o tempo onde os pensamentos se elevam a Cristo e os homens se ajudam mutuamente e às crianças? Para mim, só duas reais alegrias que discretamente comemoro no coração:O nascimento e Cristo e de um filho meu de mesma data.
Vinícius, Drummond, Bandeira, Pessoa, Maria Paranhos, e João Cabral, com toda sua magnitude literária e proficiência do saber humano, poetizando, também não fazem do Natal uma unanimidade, um consenso sobre ser o mesmo cerne de todos os pensamentos voltados para o amor ao próximo (exceto o próximo bem próximo, e olhe lá).
Drummond me parece demonstrar que o inventivo João Brandão dizia que esta era uma época tão perigosa e de pensamentos negros quanto qualquer outra. O melhor seria suprimir o Natal, ou ainda, comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior silêncio.
Eu particularmente concordo com João, mas por motivos diferentes. Não pelo perigo de ser assaltado, seqüestrado, etc., pois senão ter-se-ia que suprimir todas as festas do ano novo ao São João. Mas pelo fato de que essa é uma época de opulência, demonstração de poderio econômico. Fazem-se disputas de melhores presentes, melhor iluminação, maiores presépios (até com a cara de Bush, imaginem!), cidades mais comemorativas, programações de cinema e televisão. Panetones jorram que nem água em cachoeira vendendo mais que ovos de páscoa e são dados na maioria das vezes a quem não precisa, como todos os brindes dessa época do ano. Numa dessas épocas tive a oportunidade de ver pela TV que uma pessoa teria recebido mais de 30 panetones (na casa dele até o cachorro teria se deliciado da iguaria). Em suma, bilhões em dinheiro jogado pelo ralo por uma satisfação pessoal.
Entretanto, nas estatísticas do IBGE não aparece o percentual de indivíduos ativos, empregados, saudáveis ou não, empresas de pequeno médio e grande porte, governantes autoridades, políticos, igrejas, congregações, seitas, grandes conglomerados (mesmo do ramo de alimentação) que estão envolvidos ou desejam se envolver com a erradicação da miséria e fome no mundo. Ou no seu país. Ou no seu estado. Ou na sua cidade. Ou no seu bairro. Ou pelo menos na sua rua.
Dir-lhes-ei porque não aparecem: Simplesmente porque seria um número tão insignificante que não abalaria nenhuma curva de função representativa de tal estudo. As ordenadas se rastejariam de vergonha no eixo das abscissas e seriam tão imperceptíveis que não haveria nada para se mostrar em congressos, seminários e palestras.
Então eu pergunto: para quem se importa verdadeiramente, de que vale ver tantas belezas e tanto dinheiro jogado fora quando o mundo está doente e faminto? Quando hoje, no dia de Natal, na sua rua, no seu bairro, na sua cidade, no seu estado, no seu país tem crianças (para quem é festejado o Natal) e adultos revirando latas de lixo e morrendo de fome e frio na mais absurda penúria?
Afinal, Cristo estava exatamente escondido para não ser vítima da maldade do mundo, logo que nasceu. E na noite em que o mundo diz comemorar esse nascimento, ele não participa dessa festa, pois está visitando cada fugitivo da miséria, da fome e do frio que ainda luta pela sobrevivência.
Então, fecho com o João. Deveríamos comemorar o Natal em silêncio, (ou pelo menos diminuir a fanfarra) em épocas incertas, sem aviso prévio, todavia, canalizar os bilhões em recursos que seriam queimados na festividade oficial, para um verdadeiro programa de minimização da miséria no planeta (não confundir com fome-zero). A começar pela sua rua, seu bairro, sua cidade seu estado e seu país.
Todos que labutam na área pertinente ao processo de ensino-aprendizagem, nunca chegam a um denominador comum, justamente pela complexidade em demasia que daí decorre. Não sei quem foi esse Nérice, mas li algo sobre a citação, por ele, da possibilidade de se empregar nada mais nada menos do que 78 métodos de ensino (sem nenhum agrupamento). O que é um absurdo convenhamos. Por isso nem continuei a leitura com vistas a conhecer tais métodos. Acontece que o cerne da questão é paradoxal. O aluno quer aprender a se comportar ante os problemas reais que se lhe apresenta a sociedade, mas por outro lado há o receio do novo, pois a construção do conhecimento passa pela mudança de comportamento. E isso eles odeiam.
O que fazer? Perguntamos enquanto educadores. Inventar um método de ensino especial que resolva esse tipo de enigma? Pero que si, pero que non. Eu diria começar estudando a clientela: seus gostos, seus costumes, seus receios, suas observações, seus gestos, seus olhares (os piores são aqueles que nos atravessam). Quem sabe até uma escuta discreta protegida por uma meia parede na hora do almoço.
O que importa é o nosso interesse em melhorar sempre, sem querer ser muito bons, considerando que segundo Freud, nós poderíamos ser muito melhores se não quiséssemos mostrar ser tão bons. Já foi dito que nunca se sabe até onde vai a influência de um educador. Mas também que ele influi para toda a eternidade. Portanto ele deveria ser como o rio perene, que contorna os obstáculos para cumprir sua tarefa. Pensar como mestres e doutores e aprender a falar para simples e curiosos aprendizes, vencendo a tão famosa dificuldade de aprender algo que acha que já se sabe, é uma das regras do jogo.
Ouvi, durante um programa da TV Escola e depois li num jornal, uma frase interessante que se reportava à importância dos recursos tecnológicos atuais, novos meios digitais, multimídia, Internet e telemática, que trazem novas formas de ler, escrever, pensar e agir. Mas para isso é necessário o envolvimento dos atores. Diz-se que um aluno esquece o que lhe é dito, lembra-se do que lhe é ensinado e aprende quando é envolvido. Pois é aí que desperta nele a consciência de sua própria dignidade e capacidade de exercer cidadania, corroborando com o pensamento de Paulo Freire e Piaget, em que a educação não é a alavanca da transformação social, mas sem ela essa transformação não existe. É o tal do fazer permanente e o ser inteligente: adaptação do sujeito ao meio.
De um pensador, de quem não lembro o nome (desculpe, é a idade), li que é uma falta não usar a sabedoria que foi conquistada. E não corrigir as faltas, é o mesmo que errar novamente. Portanto, nessa época de globalização, o endereço eletrônico da nossa consciência deve ser acessado diariamente. É lá que se encontra a home-page que trata do apoio moral para as corretas tomadas de decisão. Lembrando que o olho do observador interfere no objeto observado. E é sobre esse olho que gostaria de justificar esse breve (?!) preâmbulo comemorativo à trigésima edição do Conversa de Cantina. Claro, ensejando chegar até a tri centésima, antes da chegada da famigerada compulsória (sabem quem é, não? O genérico do esqueleto encapuzado com a foice no ombro)
Estava eu almoçando meu famoso PF na não menos famosa cantina da escola, quando escutei uma palestra entre cinco estudantes do curso técnico, possivelmente concluintes (dois eu conhecia de vista pois participaram do primeiro congresso da escola). Como estava protegido por uma meia parede, não fui notado e a conversa entre eles transcorreu naturalmente. Tratava-se de um bate-papo altamente saudável e altamente instrutivo-crítico-construtivo. Ou seja, alunos já ensinando antes de concluir o curso. O diálogo (ou “pentálogo”, já que o Grande Chefe Guardião do Oráculo de Tupã, em um de seus rasgos lingüísticos, disse que “triálogo” era um diálogo entre três pessoas) deu-se mais ou menos assim:
- Enfim, tomaremos nosso rumo com alguma saudade e a certeza que fizemos de tudo para aprender.
- É, apesar de vários professores não colaborar para isso, com seus métodos de ensino complicados.
- Disso nem é bom lembrar. Deveria haver uma reunião entre eles para uma unificação de métodos.
- Já que estamos entre líderes e colhemos as informações com nossos colegas, poderíamos contribuir com os que ficam, elegendo não os melhores professores, mas os melhores métodos utilizados por eles na escola.
- Ótima idéia! E elegendo também os piores métodos.
Então, depois de uma breve discussão, saiu a listas dos métodos. E o resultado da apuração, com as devidas explicações e críticas, foi a seguinte:
- O pior método fica então com o professor que passa uma fita de vídeo por quase toda a aula.
- Confere. E há os que saem da sala e deixa a galera a Deus dará. Sendo que a maioria nem debate.
- Isso mesmo. Até que se use a fita ou CD, porém fora do horário da aula ou indicar em EAD.
- O segundo pior método fica para o professor que lê a apostila ou livro durante toda a aula, empatado com aquele que projeta o texto e fica lendo, como se a gente não soubesse ler. É o que há de mais chato.
- “...e aqui vemos que a raiz quadrada de vinte e cinco...”, ou então, “... vejam aqui que o ...óxido de carbono (deve ser monóxido, está um pouco apagado pois a transparência é velha). Ah!... é venenoso!”. São alguns exemplos.
- Concordamos. Acho que os recursos de multimídia devem ser usados, mas como complementos. Quer dizer, apresentação de tabelas, gráficos complicados, pequenos clipes, imagens para ilustrar o que se está explicando, e demonstrações. Os textos, no máximo devem servir apenas de guias ou em itemizações.
- Para o melhor método, deu empate. Mas é um empate que no final vem dar na mesma coisa.
- Também acho. O melhor método ficou para a prática (qualquer uma incluindo visita) empatado com técnica do professor em explicar e fazer os exercícios no quadro.
- Essa deu unanimidade. Pois esse método faz a gente viajar com o professor, seguir seu raciocínio, estimar o tempo de resposta das questões na prova e até ajudá-lo em alguns casos.
- Lógico. E é legal quando ele erra durante uma explanação ou resolução de exercício, pois nós podemos aprender como lidar com a situação de errar e dar a volta por cima. Descobrir o erro.
- Pois é, não tem graça a projeção da resolução de questões. Não nos estimula a aprender.
Ainda se seguiram as considerações sobre falta de material de prática, professores correndo atrás de lápis e giz, equipamentos sucatados, laboratórios em estado precário, apoio às artes, falta da banda e orquestra da escola, o ginásio que nunca fica pronto, praça de esporte sem piscina e muito mais. Só me retirei quando as críticas (mesmo construtivas) passaram a ser personalizadas.
E eu que pensei que sabia alguma coisa, coloquei minha barba de molho. Jamais pensei que algum dia, eu iria ouvir de poucos, mas representativos estudantes, que o melhor método de ensino ainda é um velho conhecido, desacreditado dos intelectuais e espinafrado pelos puristas: o famoso cuspe e giz.
Numa dessas divagações a que me desfruto na hora do sopão na cantina, me veio a imagem de Nietzsche (nem sei se é assim que se escreve) que para mim, depois de Platão, foi o maior dos pensadores. Muito dos seus dito loucos (pelos ditos sãos) pensamentos, são atuais. Disse ele que toda demência tem algo de razão e que toda virtude conquista privilégios do tipo levar o feixe de lenha para a fogueira do condenado. Mas que o seu inimigo mais perigoso é você mesmo. A meu ver, todos nós podemos ter a perfeita sanidade. O problema é que queremos ser mais sãos do que o nosso próximo, o que nunca vai acontecer, uma vez que sempre achamos o próximo mais são do que nós. Daí nasce o insano, cuja produção é assinada por Deus com o pseudônimo de Homem.
- Professor, o sr. já aceitou Jesus? Toque nesse nesse violão. Ele foi limpo com o lenço molhado na água do Monte Sinai, na vigília dos 318 durante a Fogueira Santa! – Gritou, no dia seguinte, (enquanto me dirigia á cantina para almoçar) uma jovem segurando um violão, enquanto se via mais à frente um grande grupo de alunos que gritava, cantava e batia palmas sentados no chão, tomando toda a área em frente aos laboratórios de mecânica. Provavelmente prejudicando as aulas que ainda rolavam.
Claro que me assustei, ainda mais porque estivera pensando em sandices, e principalmente no tocante ao violão a ser tocado. As velhas lembranças dos anos 60 me vieram à mente e desfizeram-se logo ao perceber que se tratava de um instrumento musical dito abençoado. Custou para me desvencilhar da jovem e, ao entrar no laboratório para deixar as cadernetas, escuto uma voz estridente de outra estudante cantando “um elefante chateia muita gente”, bem alto em frente ao laboratório de solda, cantoria essa que perdurou por mais de meia hora, tirando a concentração de outros. Então decidi escrever algo sobre a linha tênue entre a sanidade e o destrambelhamento, quando durante o almoço, ouvi uma voz rouca e grave, e vi um dedo apontando na minha direção.
- Vamos construir um submarino na escola?
Olhei para os lados e vi que o pobre coitado falava mesmo comigo
- Claro! – Respondi de pronto, porque com essas coisas não se brinca. Nunca se sabe o que vem depois. Há de se ter muito cuidado e muito jogo de cintura para se labutar com situações esdrúxulas como essa. Muito tato (que segundo Lincoln, é a capacidade de perceber o outro como ele se acha) é preciso nesse momento
- É que eu vou defender minha tese de doutorado projetando e construindo um pequeno submarino na escola, com capacidade para pelo menos um tripulante. Mas eu temo que achem absurdo.
Mais tranqüilo, e depois de me certificar que o colega não tinha cabelos brancos, ou melhor, não os tinha (os cabelos teriam fugido com medo de pilotar o submergível), logo não se tratava de alguém jurássico como eu, beirando a compulsória (ou “birando”, como se brinca em mecânica), não fiz como o caranguejo que não encara de frente o desconhecido. Encarei o papo numa boa e retruquei:
- Não se preocupe com o que os outros pensam. O que importa é sua satisfação pessoal. O absurdo só está na cabeça de quem não tem coragem de tentar nada. Vou lhe contar uma lenda que vai abrir sua idéia para encarar essa árdua tarefa. Trata-se da Lenda da Tese de Doutorado do Coelhinho.
- Ta brincando comigo, rapaz? Nunca ouvi falar dessa lenda.
- Mas eu li sobre ela. Conta-se que um coelhinho escrevia despreocupadamente em seu notebook, na entrada de uma caverna, sua tese de doutorado. O seu objetivo era provar que os coelhos eram os predadores naturais de lobos e raposas. Ao ver o suculento jantar, um lobo que passava por ali ficou curioso e quis saber de que se tratava, antes de se deliciar. Então o coelho lhe fala do objetivo da tese e ele desata a rir. Aí (parafraseando minha mãe cujas estórias tinham dezenas de “aí”) o coelho promete lhe provar convidando-o a entrar na caverna, para lhe mostrar uns clips via cabo, pois ainda não tinha instalado o seu wireless. O lobo aceita prontamente, ainda gargalhando sobre objetivo da tese. Instantes depois, após vários ruídos e grunidos, volta o coelhinho sem o lobo e continua o trabalho, adicionando mais um registro no banco de dados da sua tese. Minutos depois surge uma raposa já salivando e, antes de dar o bote, quer saber o que acontece. Acontece o que aconteceu ao lobo, voltando novamente o coelhinho inocente à frente da caverna e continuando a digitação no notebook até escurecer. Então ele encerra as atividades do dia, e entra na caverna a tempo de dar boa-noite ao seu colega de quarto e amigo, o Leão, já deitado, sonolento e de barriga cheia.
- E o que isso quer dizer?
- Ora, jovem mancebo! Quer dizer que não importa o quanto possa parecer absurda sua tese ou se ela vai de encontro aos conceitos mais sólidos. O que importa é saber quem é o seu orientador. Aconteceu a mesma coisa com Noé, há pouco tempo atrás. Todo mundo ria daquela barca esquisita de não sei quantos côvados de largura, diziam que o projeto não daria certo, que era coisa de louco, etc. E no final ela salvou a humanidade de hoje. Mas veja quem foi seu Orientador! Concorda com minha teoria?
- Concordo, disse o MsC mais animado. Mas eu vou precisar que outros professores me ajudem no projeto. Eu me preocupo muito com o material da carcaça do submarino para não acontecer o que aconteceu com o Titanic, cuja chapa não suportou o atrito com o gelo.
- Quanto a isso, deixe por conta do velhinho, colega nosso que é fera em vasos de pressão. Já vi muitos projetos dele dar resultado. Nenhum submarino é verdade, mas deve ser tudo a mesma coisa. A parte eletroeletrônica deixe por minha conta e da coordenação de automação. Inclusive já estou desmanchando uma máquina de xérox imprestável, de pouco mais de 30 anos, gentilmente doada pela gráfica ao nosso laboratório. Dela vou aproveitar as peças e aplicar no nosso nautilus. Já tenho garantido os motores do leme e um transformador de 5.000 volts que dá para energizar até um porta-aviões. A cor será azul.
- E o nome de batismo? E o piloto de teste ? E a emergência, em caso de pane?
Então eu percebi que eu estava diante de um caso mais grave do que pensava. Mas não me dei por vencido e mandei ver.
- Minha sugestão para o nome é Tupiniquim I. Como o uso de remos pode inviabilizar as manobras, poderemos instalar um par luvas flexíveis, de canos longos estanques, na base do submergível onde, em caso de parada, o piloto deitado de bruços no chão, enfiaria os bracinhos (ele deve ser tipo jóquei, pequeno e leve) e voltaria para casa à nado tipo cachorrinho.
- E o piloto, como vamos arranjar? Eu não posso porque sofro de claustrofobia.
Não só de claustrofobia, pensei.
- Para conseguir tal piloto teríamos que oferecer algum atrativo. Por exemplo, o professor mais novo no estado probatório, solteiro, não arrimo e sem filho, poderia se candidatar, sob a promessa de quando voltar (se voltar), receber sua alforria, ou seja, tornar-se efetivo imediatamente, e livrar-se de uma vez por todas dos assédios morais que ora tiram o sono dessa minoria à deriva. É só pedir à Diretoria Geral um documento atestando isso. O que seria fácil, devido aos dividendos que a escola arrebanharia. Só o marketing na mídia escrita, falada e televisada seria de arrasar. Nenhum gestor que se preze deixa de lado essa possibilidade.
Já posso até ouvir o discurso na coletiva: “...num esforço hercúleo dessa instituição, o meu, o seu, o nosso Submarino Azul singrará os sete mares, empurrado pelo comandante maior, diferentemente daquele molusco que impediu a viagem do Nautilus, projetado pelo colega Júlio..”.
- Acho que você tá me gozando. Não faça isso porque eu guardo essa idéia por muitos anos e só agora posso vislumbrar sua realização, já que conclui o mestrado e quero fazer o doutorado em tempo recorde. Por favor, não faça nenhum comentário sobre o assunto uma vez que é ainda um segredo absoluto. E quanto ao nome de batismo, nós vamos ter que discutir.
- Não se preocupe, parceiro. Dou minha palavra que da minha boca ninguém vai ouvir nada sobre o Tupiniquim I. Sua tese de doutorado vai ser um sucesso (lembre do coelhinho e Noé) e esse submarino vai mergulhar nas águas desconhecidas dos IFETs e REUNIs da vida, para nos trazer daquelas profundezas as informações que até agora ninguém teve a lucidez de nos fornecer. Sim, porque aprovar noventa por cento de alunos matriculados só para que as torneiras sejam abertas, nem com reza de Preta Velha, isso acontece. Mesmo que mandemos todos ficarem em casa, disponibilizemos o material dos cursos completos na internet, e eles venham apenas pegar os certificados, ainda assim teríamos que criar um call center gigante, para tentar garantir o retorno dos tais noventa por cento, só para assinar os documentos.
Lá se foi meu colega agendar audiência com a diretoria geral, talvez para solicitar a autorização sugerida. E eu fiquei pensando sobre a vantagem da péssima memória dos velhos: qual loucos, nos divertimos várias vezes com o mesmo assunto. Éssa doideira geral vem só comprovar a tese defendida por muitos pensadores sobre a linha tênue entre a sanidade e o destrambelhamento, sendo que nunca se reconhecerá um ou outro. E todos estamos no mesmo barco (quer dizer, no mesmo submarino).
Nourdeau, ao saber do internamento de Nietzsche no asilo, disse: “A pessoa certa no lugar certo”. Quem sabe não estejamos todos no lugar certo?
O dia após o último feriadão não foi muito alegre para mim (mesmo tendo
lido várias homenagens ao dia do professor) considerando que não encontrei
minha filmadora digital, usada nas pesquisas que desenvolvo na escola. A
mesma ficou por vários dias na sala/laboratório onde trabalho com alunos
das disciplinas eletrotécnica e eletrônica.
Enquanto remoia esse triste pensamento, durante o almoço na cantina,
apareceram dois alunos e depois dois professores solicitando explicações
sobre o último Conversa de Cantina.
Os professores teriam atribuído uma conotação política ao texto, enquanto
os alunos teriam decifrado grande parte do mesmo. Daí, pela primeira vez
em dez anos de textos escritos eletronicamente, em alguns periódicos,
voltei ao assunto porque, estando educador, não poderia deixar aluno sem
resposta, nem que necessitasse pedir um tempo para prepara-la. Aos alunos
então respondi:
- Trata-se simplesmente de uma navegação nos mares da Semiótica, com a
devida permissão dos experts no assunto, numa reflexão simples e pura de
um idoso que, como tantos outros, mantém a madrugada como aliada dos
pensamentos, e vez em quando, divaga em diversas galáxias da compreensão
humana. Essa foi uma disciplina ministrada tão ardorosamente por um
professor espanhol na faculdade de Educação, num curso de pós-graduação,
que contagiou a todos nós, simples mortais.
- Seria a semiótica a linguagem dos sinais? – perguntou um dos delegados
do PPI.
- Exato! Dos signos. O título do presente texto vai reportar muitos
leitores a um assunto sobre Astrologia. Isso é Semiótica. A resposta
“chove”, à pergunta “como está o bairro tal”, por alguém que deseja se
deslocar para lá, o reporta a vários pensamentos (desde não gostar de se
molhar até a beleza do aparecimento de arco-íris, passando por toda uma
preparação de proteção contra a chuva). Ronaldo, o fenômeno, faz uma
propaganda de cerveja apenas levantando o dedo indicador após cada gol
(saudade!). Tudo isso tem um cunho semiótico ou semiológico.
- Nesse caso trata-se de literatura avançada?
- Não, acontece na cultura como um todo. Principalmente nas artes e
design. Uma das definições diz que a Semiótica vem do grego (a arte dos
sinais). É a ciência geral da semiose e dos signos, que estuda todos os
fenômenos culturais como se fossem sistemas de significação. Está escrito
em qualquer livro sobre o assunto, e na internet.
- Eu gosto de fotografia – disse o mais calado – posso fazer fotografia
semiótica?
- Não só pode como deve. Pesquise sobre uma famosa foto intitulada “Tomoku
em seu banho” sobre o acidente ambiental em Minamata, Japão. Nela, a
semiose não está na foto como um todo, mas sim no olhar da Mãe banhando
sua filha deformada pela talidomida, exposta que fora, durante a gravidez.
Aquele olhar nos reporta à Mãe de Cristo, diretamente.
- Então o seu texto SIMBOLICAMENTE, seria um poema semiótico?.
- Não sei, disse isso no próprio. Aquele texto é apenas uma brincadeira
nessa área usando datas (semana do modernismo nos anos de 22 e 30; as duas
guerras, a morte de Getúlio, as copas do mundo, as constituições
importantes, e a chegada do novo milênio, que muitos não acreditavam.);
corrupção (os dez por cento de comissão, traição por dinheiro, escândalo
no Tribunal do Trabalho, em um tipo de brasil a mil por hora); símbolos
matemáticos famosos (pi, raiz de dois, raiz de 3 e ângulos). Já as
cantigas de rodas (3, 3 passará...) e os boleros (2 prá lá, 2 pra cá) são
sonhos que não se sonham mais devido a era do computador (bip, chip,
etc.). Eu finalizo afirmando que, nesse contexto, o “X” não é letra, e sim
a raiz da equação do sonho (perdido ou esquecido) que se quer resolver.
- Nós até deciframos, mas não chegamos nessa profundiade.
- Vários, não chegaram. De muitos e-mails que foram recebidos, apenas dois
tentaram depreciar sem antes entender, mas o restante pediram explicação,
que foram passadas com muita satisfação da minha parte. Ademais esse poema
já havia sido submetido e classificado em um festival de poesia em Minas
Gerais. Reitero pois, minha satisfação por ver alunos dedicando-se a esse
tipo de leitura.
Assim que os alunos saíram, fui me encontrar com os professores que
atribuíram sentido político ao texto, passando esse mesmo recado. E ainda
houve dúvida:
- Vamos lá, cara! Complete a informação dada aos alunos...
- Repito, não tem nada a ver com política. A não ser que vocês queiram
pesquisar por conta própria. Eu só posso indicar os trabalhos de Umberto
Eco. Para este(1965), é signo tudo quanto possa ser assumido como um
substituto significante de outra coisa qualquer, desde que possa ser
explicado pelo autor. Esta outra coisa qualquer não precisa
necessariamente existir nem subsistir de fato, no momento em que o signo
ocupa seu lugar. Nesse sentido, a semiótica é, em princípio, a disciplina
que estuda tudo quanto possa ser usado para mentir . Logo, por analogia á
visão de Eco, ao ver numa campanha política, em qualquer área, um
candidato prometendo adotar determinadas medidas que sabemos difíceis,
todos entenderão o significado. Na minha esfera de conhecimento de raio
nanométrico, é pura Semiótica.
Ronaldo Cavalcante
Dep. III – Mecânica
Conversa de Cantina n. 27
Simbolicamente
Uma viagem do Conversa de Cantina arriscando-se por mares nunca dantes
navegadosda da literatura alternativa (só enquanto a poeira baixa).
Ah! Essa linguagem....
Em 22, 13,15 e 17/02 foram DEZ !
Também em 30.
39 - 45
54
58, 62, 70, 94.
64 - 88
2000 chegamos!
10 % ($)
30 moedas
+- 160.000.000, 00, TNT, TRT.
Brasil, il, il, il...
a 1000.
3,1415... ; 1,414... ; 1,732...
30 ; 45 ; 60 ; 90 (não é reto, pois é canto)
2 pra lá, 2 pra cá.
3, 3 passará...
7 e 7 são 14 com (+) sete 21...
Bip, bip.
0000 1111
1010 0101
Ctrl Del
Chip
Ciência da semiótica? Não sei.
Só sei que “x” não é letra, e sim a razão (x/1) de uma procura:
o valor que torna verdadeira a equação do nosso direito de sonhar.
Ronaldo Cavalcante
Dep. III - Mecânica
Conversa de Cantina n. 26
O Prefeito e o Equilibrista
Duas coisas eu me proibi de tecer comentários (pelo menos por enquanto):
sobre o atendimento da cantina e sobre acontecimentos envolvendo eleições
e assemelhados.
No primeiro caso, porque a cantina agraciou os idosos com uma fila
especial (já comentada anteriormente) e, no dia dedicado a estes,
simplesmente a direção daquele estabelecimento, além de parabenizá-los
ofereceu-lhes um copo de 500 ml de suco natural, na hora do almoço (eu
pelo menos tomei um). No final da tarde, eis que novamente é oferecido a
alguns congressistas um suculento sanduíche de queijo light (pelo menos eu
vi dois professores rachando um).
No segundo caso, porque de eleições eu não entendo nadica de nada. Estou
mais para aquele personagem televisivo de “Viva o gordo”, que foi flagrado
arrancando as próprias unhas com um alicate e gritando de dor. Ao ser
perguntado por que fazia aquela barbaridade consigo próprio, respondeu:
- Estou me punindo porque me julguei no tribunal de minha consciência, e
me considerei culpado.
- Mas por quê? – Insistiu o colega.
- Lembra quando o companheiro disse que iria empregar dez milhões de
trabalhadores?
- Claro que lembro.
- Pois é, eu acreditei!!! Aaaaiiii! (ruido de alicate arrancando unha).
Eu gostaria de falar mesmo era sobre o momento histórico em que vive a
escola com o evento tão importante como o do primeiro congresso (depois de
longos 98 anos), para discutir a bíblia pedagógica. Podem falar de
qualquer coisa, menos da mobilização que se fez acontecer e das inúmeras
contribuições. Lógico que muito ainda precisa ser feito, mas a coragem e
iniciativa foi mais que aprovada por todos. Assim falaram os meus
interlocutores sobre o fato.
Já ia voltando para casa, falando com meus botões, depois de uma estafante
plenária de sábado, quando encontro um colega que voltava do seu mestrado
em outro estado, e estivera afastado da escola por uma ou duas semanas. E
o cara foi logo pisando no meu calo:
- E aí parceiro, me conta como foi a passagem de cargo da chefia.
- Houve uma passagem dessa pra melhor, como dizia os antigos.
- Como assim, não estou entendendo.
- Não foi. Quebrou a espoleta. Bateu fofo. Se “finou-se”. DEU XABÚ!!!
Entende agora? – falei um pouco impaciente, pois como já disse, me proibi
de falar do assunto.
- Mas que marmota é essa companheiro? Me conta os detalhes.
- Bem..., isto é..., quer dizer..., sabe como é..., pra fazer a omelete...
- Desembucha, cara. Dá o serviço!
- Não posso falar porque não me permito mais comentar esses assuntos.
- Peraí, meu camarada, você não vai me deixar aqui falando sozinho!
- Então, para compensar, vou contar uma história.
- Lá vem você com suas histórias pra mudar de assunto. Então manda.
- Diz-se da existência de duas cidades, uma menor que a outra, que se
juntaram sob a administração de um só prefeito para o engrandecimento dos
moradores. Esses migraram da menor para a maior e se arranjaram como
puderam. O prefeito, uma pessoa bastante afável e carismática, a todos
procurava contentar sem conseguir tal intento, pois a cada momento surgia
um ou outro lactente reclamando (como gato, miando e arranhando em plena
sucção). E ele distribuiu os afazeres para todos segundo sua consciência.
Mas havia uma determinada atribuição que muitos moradores disputavam, e
ele sabiamente, definiu que para essa tarefa, os pares do interessado é
que deveriam decidir sobre a escolha: tratava-se do serviço de
Equilibrista.
- Equilibrista? – perguntou espantado meu colega.
- Sim. O cara que ficava se equilibrando em um cabo de aço, atracado a uma
grande altura do solo, entre duas torres: aquela onde ficava o prefeito
(mais conhecida com nirvana), onde também residiam os magnatas da
informação (os moradores de alto QI que passavam o dia todo no bem-bom,
alisando um ratinho sobre a mesa) e a outra torre onde descansava o
escolhido. O trabalho era simples. Bastava ter um bom jogo de cintura,
ficar se equilibrando e se desviando lá em cima, enquanto todos cá em
baixo laboravam em seus postos. Uma passadinha hoje, outra amanhã entre as
torres, e ele ia levando a vida.
- Que trabalho mais estranho!
- Nem tanto. Era uma maneira de melhorar a renda dos moradores
assalariados. Mas um belo dia, surge um antigo morador da cidade menor, um
cidadão elegante, bem falante, boa bagagem, e se interessa pelo trabalho
de equilibrista. Conversa vai, conversa vem, muito discurso, muitas
promessas, e o grupo racha no meio certinho. Mas a sábia decisão
salomônica do prefeito garantiu ao novo equilibrista assumir o posto dali
a algum tempo, com data e hora marcados. E a vida transcorreu normalmente
sem outras notícias.
- E daí? Ainda não alcancei.
- Então (não sei se é certo, mas me amarro nesse “então” seguido de
ponto). No dia e na hora, os eleitores estavam reunidos para ver a
primeira passagem do novo equilibrista pelo cabo. Chega então o dito cujo
acompanhado do prefeito, que faz um belo discurso enaltecendo-o, não pela
sua experiência em equilibrar-se sobre cabos de aço, mas sim pela
prestação de excelentes serviços de relevante importância para a cidade.
Entretanto, permitiu aos pares decidirem o destino dele.
- Claro que não aceitaram isso, certo?
- Errado. Vários logo concordaram. Teve um que roubou a cena na defesa do
mesmo. Um velhinho ainda tentou novo acordo, mas logo foi silenciado. O
equilibrista anterior usou a inteligência do sapo preso por um menino
malvado (“me jogue no fogo, mas não me jogue na lagoa”). Bom de discurso,
o quase futuro equilibrista pegou a vara de equilíbrio, colocou o
primeiro pé sobre o cabo e, antes de dar o primeiro passo, voltou-se para
os correligionários e solenemente proferiu o improviso: - “Companheiros.
Sou casado e tenho filhos em idade escolar. Confesso que não sou
equilibrista. Aceitei o trabalho porque na época precisava e hoje não
preciso mais. Serei mais importante para vocês onde estou do que como
equilibrista. Se eu tentar atravessar, com certeza vou me esborrachar lá
em baixo. MAS, se vocês quiserem, eu irei atravessar, nem que seja meu
último ato. Vocês são os donos do meu destino”. Daí, voltou-se para o
precipício onde estava o cabo de aço, enxugando uma lágrima que teimava em
escorrer no seu rosto.
- Beleza! Logo, ele se espatifou lá em baixo, não foi?
- Claro que não. O povo consternado pediu-lhe que não cometesse essa
loucura, e todos o aplaudiram de pé. Menos três de seus apoiadores. Dois
ficaram calados e uma moradora, que segundo consta nos anais, foi quem
mais se empenhou pelo trabalho dele, discursou a plenos pulmões dizendo
que ele deveria se atirar, mesmo sem o cabo de aço (lógico que foi da boca
pra fora, pois nos registros consta que ela era um doce de pessoa, e
apenas estava com raiva na hora).
- Nossa, que história mais estranha! Mas então você não vai falar nada
mesmo sobre a passagem do cargo?
- Claro que não, aprendi com minha sábia avó quando ela me disse: “Quem
não agüenta com o pote, não bota a rodilha na cabeça”.
Despedi-me alegre por ter agüentado firme mais uma pressão para falar
coisas que não devo. Segunda feira será outra semana, e ninguém se
lembrará mais do fato (espero).
Ronaldo Cavalcante
Dep. III - Mecânica
Conversa de Cantina n. 25
Exemplo
O Conversa de Cantina tanto bradou os direitos dos idosos que conseguiu
uma fila especial para eles (eu, inclusive) na hora das refeições na
cantina. Fui convidado especialmente para a inauguração da fila com
direito à corte de fita e tudo. Rolou até um som na praça em frente, que
eu acredito ter acontecido em homenagem à pomposa solenidade. Um exemplo
digno de registro nesta crônica (que me desculpem os verdadeiros
cronistas, pois a euforia nos faz dizer sandices sem querer).
Confirmando que não se tratava de sonho, outro dia fui novamente atendido
na frente de uma enorme fila. Ego massageado, sentei-me à mesa com um
casal de estudantes do ensino médio e uma professora da unidade de ensino
próxima da sede e, entre uma conversa e outra, surgiu a pergunta:
- Como o Sr. definiria exemplo? – atacou-me de supetão, a aluna. Depois de
certificar-me de que não se tratava de alguma pegadinha, respondi:
- Seria melhor uma consulta ao dicionário ou professor (a) de português,
para uma definição mais exata. O que posso fazer é falar dos tipos, isto
é, dar exemplo de exemplos (sem trocadilhos). Mas no geral, trata-se de um
fato do qual se tira ensinamento (bom ou mau). Pode ser ainda
fundamentação a uma regra ou uma conformidade. Pelo menos é o que me
lembro. Mas porque a pergunta?
- Eu e mais duas colegas estávamos na porta de um bar junto à escola
tentando atravessar a rua, e vimos meu professor ingerindo bebida
alcoólica, fumando e proferindo vários palavrões de arrepiar os cabelos.
Na próxima vez que tive aula com ele, perguntei-lhe o que achava do fumo,
do álcool e dos palavrões em locais públicos. Prontamente ele me respondeu
com um longo discurso, condenando tais atitudes (o que é certo). Aí eu
pergunto: é válida a assertiva “faça o que eu digo, mas não faça o que eu
faço”?
Aí me bateu a ziguizira. Como explicar isso a um educando, quando você se
considera um educador? Se eu não validar a frase estarei dizendo para a
aluna imitar o professor, o qual, aliás, é um ícone, como todos os outros
mestres. Se eu a validar não terei com explicar o “Alegria, alegria”
baixado ontem no meu celular. Então o que pude foi tentar explicar o
inexplicável.
- Essa é uma seara muito complicada para eu me meter. Mas entendo que se
você considerar o vício como doença (e o é, para a maioria dos médicos),
estaria correta a frase. Imagine alguém morrendo de câncer do pulmão, com
cigarro na boca. Se lhe pedir um conselho, imediatamente ele lhe diz: “não
fume”. O mesmo acontece com alguém morrendo de cirrose hepática: “não
beba”. Mas a maioria deles o faz, porque não consegue controlar o vício.
Então eles seguem mentindo para si próprios até o desenlace final. Disso
eu falo de cadeira, porque meu pai faleceu ao meu lado, de câncer, pedindo
um cigarro. E o exemplo dele atingiu a pelo menos um dos meus irmãos.
- Então, no frigir dos ovos, o que vale mesmo é o exemplo, resguardando
esses casos especiais?
- É opinião minha. Veja que eu não sou especialista no assunto. Todavia
considere que nas cartas de Paulo (Epist.280) há uma abordagem desse
assunto de maneira diferente: “...observai os sábios e fazei o que eles
dizem mas não o que eles fazem, quando se comportam mal...” , ou coisa
parecida. Em suma, cabe a você decidir o que fazer. Posso apenas discorrer
sobre algumas facetas do exemplo, no âmbito da escola, pois do lado de
fora a coisa está tão feia que levaria dias falando da síndrome do exemplo
maléfico que afeta as pessoas, desde um simples guarda de trânsito até o
Congresso Nacional, passando pelos outros dois poderes. Interessa?
- Mas é lógico. – Disse uma das alunas, pois a essa altura já haviam
outros colegas participando do bate-papo, ao final da refeição.
- Assim que aconteceu o bom exemplo da fila do idoso de que falei, veio
logo uma notícia ruim.
- Que notícia? – Bradaram.
- Um mau exemplo: um aluno me noticiou ter havido a maior baixaria na
praça, justamente na hora do som ambiente, que eu infantilmente julguei
ser uma homenagem aos idosos da escola. Simplesmente um servidor de
primeiro escalão estaria prestes a entrar em luta corporal com outro de
enésimo escalão.
- E qual foi o resultado?
- Bem os detalhes eu não sei, porque geralmente não prossigo com
investigações, apenas ouço, como bom aprendiz de ouvidor. Entretanto me
chegou ao conhecimento também que outro servidor, ainda de primeiro
escalão, teria duelado verbalmente, e em público, com um de segundo
escalão, chegando às ofensas morais.
- Cara! Os grandões estão em crise. – Disse um dos alunos enquanto se
despediam.
A professora, que até então se mantivera calada, observou um pouco
entristecida:
- Tomara que não voltem aqueles dias de trevas, como me historiaram desde
que aqui cheguei. Não vou pedir exoneração como fez uma colega que não
suportou a pressão. Eu e outras vamos brigar até o fim contra algo
parecido com o patrimonialismo, que emerge na nossa unidade.
Não entendi muito bem o que ela quis dizer e não consegui saber mais
devido a chegada de outro professor da velha guarda, que já foi logo
perguntando:
- Já soube do quebra pau? O time continua se desentendendo em campo. Na
crise, lembram do passado quando eram simples jogadores correndo atrás da
bola aos tapas. E quando chegam debaixo dos três paus com ela dominada,
dão um bico para as arquibancadas.
Também não alcancei direito sua observação (deve ser efeito da idade), mas
arrisquei uma pergunta:
- Qual seria então sua opinião para a melhora do estado de coisas?
- Conscientizar os servidores (todos) a produzir o mínimo. Seria um avanço
fenomenal. Um mínimo de horas de todos os docentes com um mínimo de horas
de todos os técnicos, causaria pelo menos uns quarenta por cento na
produção da escola, pelos meus cálculos. Nós antigos sabemos exatamente
quem não trabalha e até quem não aparece na escola. Basta nos perguntar.
Tudo se consegue com uma boa conversa.
Na saída, encontro com os alunos novamente e complemento:
- Não se esqueçam que ao copiar bons exemplos, do tipo fazer o bem sem
exigir nada em troca, ou ser prestativo sem esperar retorno, pode ser uma
faca de dois gumes.
- ???
Primeiro que ninguém vai acreditar nisso e segundo, você tem que não se
deixar abater e tentar seguir em frente. Sem citar Cristo ou Ruy Barbosa,
que vocês já conhecem demais, a razão dessa descrença na honestidade e na
colaboração voluntária, está no tripé do mal: egoísmo, inveja e ambição.
Eu mesmo fui e ainda sou vítima das incompreensões com relação aos meus
trabalhos colaborativos sem exigências de qualquer espécie. Sempre fico
triste e com raiva, quando acontece (sou humano). Mas eu sou apenas um
grão de pó ante o EXEMPLO de ícones como Madre Tereza, Irmã Dulce, Ghandi
e Chico Xavier. E foi esse último quem disse: “...quando o Homem extirpar
de seu coração o egoísmo, este monstro devorador de todas as
inteligências, este filho do orgulho e fonte de todas as misérias
terrenas, o supremo obstáculo de seu progresso moral estará enfim,
removido.”. Portanto, eu os estimulo a ir adiante, mesmo sabendo que é
quase impraticável seguir em frente, sem um raciocínio amadurecido para
superar a desaprovação provisória da ignorância e da incompreensão.
Ronaldo Cavalcante
Dep. III - Mecânica
Conversa de Cantina n. 24
Inventar é preciso?
Bem, mais uma vez temos o recesso de meio do ano para a maioria da
comunidade escolar, e a cantina fica às moscas (não literalmente, lógico).
As informações são escassas e uma matéria para o Conversa de Cantina, fica
mais difícil. A não ser pelo fato da Ifetização, do qual todos falam,
porém, afora a concordância da maioria de que não fede nem cheira,
servindo apenas para massagear os magnânimos egos (além de
implementar-lhes as burras, e dos respectivos escalões), dificilmente
encontra-se um par de opiniões semelhantes.
Também ouvi de alguns professores que possivelmente haja um jogo de
interesse por parte de outras IFES em inviabilizar a transformação das
instituições de educação técnica profissionalizante em universidade (haja
vista uma já ter vingado no sul do país), tolhendo-lhes as pesquisas e
consequentemente, suas invenções. Vai daí que só é bom tratar disso um
pouco mais tarde na pós-maturação. Então nem vou tocar nesse assunto para
não ser mal interpretado nem ter que discorrer justificativas.
Com bastante tempo para escolher o PF (com mais opções pela escassez de
clientes) e sem a odiosa fila, demorei um pouco para decidir o rango. Foi
então que chegaram duas alunas e dois alunos falando, coincidentemente, de
um assunto deveras interessante: invenções. Acho que se tratava de algum
trabalho, pois referiam-se a um trio de professores da escola muito
conhecido e de alta competência (mestres e doutor). As meninas chamavam-no
de “trio ternura”. Os meninos, de “trio parada-dura”. Eu os chamaria, se
perguntassem, de “Os Três Mosqueteiros”, tamanha a garra com que defendem
a sua rainha (a rainha-mãe das ciências, é claro, a disciplina que
ministram e pesquisam – pensou o que?). Um por todos e todos por um.
Se me pedissem para classificar o citado trio, eu diria que, um deles, do
alto do seu conhecimento (quase dois metros), tranquilão e muito zen,
ostentando bermudão e tênis de grife, não se abalaria caso uma bomba de
nêutrons detonasse nas suas proximidades (ainda iria tentar calcular a
quantidade de nêutrons envolvidos na reação).
O segundo, com suas brilhantes madeixas, mais zen ainda, seria capaz de
tirar um cochilo acompanhando um outro trio: o elétrico.
O terceiro componente, verdadeiro espadachim (para contrabalançar), seria
capaz de classificar como verde, a camisa vermelha do colega, só para
iniciar um duelo de opiniões. – “Quem sabe se não é certo fazer outros
sofrerem e curtir a vida inteira numa boa?” – foi uma das frases com que
me provocou, reportando-se a um velhinho bondoso que acabara de deixar
órfãs as baianas do acarajé. Só que eu pulei fora. Entretanto, esse Atos
tem um coração do tamanho da escola. Até complementou com dez centavos, o
pagamento do meu almoço, certa feita.
Continuaram os alunos a falar de invenções e, quando se referiram ao
rádio, dizendo que fora Marconi seu inventor, eu solicitei permissão para
tomar parte da conversa e juntei-me a eles, já participando:
- Sabiam que não foi Marconi quem inventou o rádio?
- Não? E quem foi? – ficaram meio espantados.
- Um dos inúmeros brasileiros injustiçados (pelos próprios brasileiros e
estrangeiros). Um padre cientista: Roberto Landell de Moura, hoje apenas
considerado como patrono dos rádio-amadores.
- E porque consta na literatura mundial o nome de Marconi? – replicou uma
aluna.
- A velha história do registro de patente, minha cara. Registrou primeiro,
é o dono. Daqui que se prove que galinha não é elefante, já morreu o burro
e o tangedor. Ainda mais se tratando de um padre sem nenhum interesse
financeiro (era raro, mas existiu esse tipo de figura) que ainda por cima
era desacreditado pelos fiéis e superiores religiosos. No entanto constam
nos documentos oficiais, os projetos e explicações detalhadas de vários
aparelhos eletromagnéticos de transmissão e recepção de ondas hertzianas.
- E ele nunca brigou para consertar o erro?
- Não. Ele próprio deu uma entrevista em 1924, pouco antes de falecer,
informando não se importar com os créditos, pois sabia que o resultado
benéfico seria para a humanidade como um todo. Padre Landell realizou
suas primeiras experiências entre 1893 e 1894. Antes, portanto, da
primeira experiência de Marconi, em 1895. No ano seguinte, em 1896,
Marconi patenteou o seu invento na Inglaterra – o telégrafo sem fio para
transmitir apenas o código morse. Em 1899 e em 1900 experiências foram
realizadas por Landell em São Paulo, Avenida Paulista, numa distância
aproximada de 8 quilômetros com aparelhos que transmitiram tanto sinais em
código Morse, como a voz humana à distância, portanto o primeiro a fazer
isso. Essa experiência é atribuída injustamente ao físico canadense R.
Aubrey Fessendeu, que transmitiu a voz humana seis meses depois do Padre
Landell.
- Nossa, vou pesquisar isso com mais detalhes – afirmou um dos alunos.
- E não é só isso (como dizem os anúncios tabajaras)! Pe. Landell é o
precursor da televisão, fibra ótica, celular e fotografia kirlian.
- Pó! O cara era o cão chupando manga!
- Não, esse aí nem encostava por ser o padre um religioso de muita fé,
apesar de ter sido empurrado pela família para o sacerdócio, uma vez que
era formado em física e química. Um cientista nato. Sabiam que o supremo
mandatário da época é quem foi o responsável direto pelo esquecimento do
padre-cientista?
- Claro que não. Se a gente nem sabia do padre! – engoli a seco a minha
pergunta idiota.
- Pois é, mesmo depois de ter conseguido patentear três invenções
(Wireless Telephone, Wave Transmitter e Wireless Telegraph) aqui e no
exterior, no U.S.Patent Office, o padre pediu ao presidente dois navios
para fazer demonstração de seus aparelhos. Perguntado com quantas milhas
de distância, respondeu o cientista: “com quantas quiserem, meus aparelhos
podem estabelecer comunicação com quaisquer pontos da terra, por mais
afastados que estejam uns dos outros. Isto, presentemente, por que
futuramente servirão até mesmo para COMUNICAÇÕES INTERPLANETARIAS”.
- Já imaginamos a reação.
- Foi essa mesmo. Teria dito o molusco da época: “Companheiro, ifo eu num
pofo faver, purquê tu é doido! Nunca na hiztória desse paíz acontefeu uma
maluquife defa.”. Depois disso o padre teve o seu laboratório destruído,
não se sabe por quem, morrendo pouco tempo depois, pobre esquecido e com
tuberculose. E assim foi injustiçado pelos próprios compatriotas, um dos
maiores gênios brasileiros, a exemplo do que aconteceu com vários outros.
Santos Dumont também sofreu suas injustiças e decepções, chegando até a se
suicidar. Se vocês pesquisarem na internet, vão encontrar vários.
Inventamos até um furacão e um vampiro brasileiro, mas foram
desacreditados. Hoje, o Catarina e Bento Carneiro já fazem parte do
passado. Eu, que não tenho nada de especial, passei por uma situação
parecida.
- Essa a gente quer ouvir. – disse um apoiado pelos outros já com os olhos
esbugalhados.
- Nos anos setenta, depois de ter saído dessa escola, e já estudante de
engenharia, fui contratado por uma grande fábrica de ônibus aqui na
cidade, com a finalidade de projetar um sistema eletrônico capaz de
proteger os motores dos ônibus que fundiam com freqüência. Foi detectado
que a causa era sempre a falta de água no radiador. Então inventei um
dispositivo eletrônico bastante rústico e simples, porém eficiente. Um
transistor pnp era mantido na zona de corte enquanto uma haste niquelada e
isolada do chassis permanecia submersa na água do reservatório de expansão
do radiador, curto-circuitando a sua resistência de base. Quando o nível
da água baixava, eliminando o curto, o transistor conduzia. Então saturava
outro transistor de maior potência, usado como chave. Esse, após disparar
uma cigarra ligada a um temporizador RC, acionava um relé eletromagnético,
cujos contatos atuava o solenóide estrangulador do sistema de combustível
da bomba injetora. O tempo era suficiente para o motorista estacionar o
ônibus antes do motor ser cortado pelo “alarme-proteção” (era o nome do
invento). Nunca mais apareceu um veículo com motor batido por falta de
água. O dispositivo ganhou uma linha de montagem própria e passou a ser
utilizado oficialmente em todos os ônibus, inclusive nos exportados.
- Então o sr. ganhou muito dinheiro, não foi?
- Negativo. Quando falei em patente, a direção dessa empresa, que era
multinacional e composta de americano, inglês, belga, italiano, espanhol e
apenas um brasileiro, informou que eu não poderia obter os direitos por
ser empregado contratado. Um ano depois, devido a um decreto presidencial,
dificultando as importações dos motores, a fábrica fechou. Então corri
atrás novamente para patentear o invento e descobri estarrecido que já
existia um dispositivo semelhante, mais bem elaborado e com a mesma
finalidade, registrado nos EUA. Ora, quem iria dar valor a um invento
brasileiro? Então esqueci o assunto me conformando com a falta de
credibilidade a nós imputada. Um grande amigo e hoje professor da escola,
no departamento de mecânica, acompanhou o fato, pois era na ocasião
engenheiro chefe de um setor de montagem dessa fábrica. Já está velhinho,
mas ainda deve ter uma vaga lembrança desse acontecimento e de outras
atividades.
- Qual seria a razão dessas incompreensões? – arriscou a aluna bastante
interessada na história.
- É que brasileiro não gosta de brasileiro. Gosta de estrangeiro. Aqui,
falou embolado, papa do padre a mulher (êta trocadilho infame!). Os caras
vêm aqui, botam banca e ainda saem de grande. Vejam o exemplo da nossa
inédita tecnologia do álcool (se facilitar, a gente dança); do Amazon Belt
(um cinturão de bases em volta das nossas matas e possivelmente do país);
do desastre da Gol; do célebre dedo em riste do piloto americano detido no
aeroporto, “and so on”. A nossa pesquisa está sendo relegada a um segundo
plano. Compramos o que é nosso e pagamos direitos. Bernardo Houssay,
Prêmio Nobel de Medicina disse: "... as Universidades que não investigam
são subuniversidades; marcham atrás das melhores, carecem de
originalidade, vivem na rotina, não possuem personalidade".
Complementando, disse Jalliot, Prêmio Nobel de Física: "O país que não faz
esforço necessário para dar à ciência o lugar que lhe corresponde e o
prestígio merecido àqueles que a cultivam, mais cedo ou mais tarde se
transformará em colônia.". Talvez esteja aí a resistência à Ifetização,
por temor de que um dia a escola não possa ser universidade e brilhar com
suas próprias pesquisas e inventos.
Ronaldo Cavalcante
Dep. III - Mecânica
Conversa de Cantina n. 23
PPP, PUP, PDI, PPI: língua do P?
Começa tudo de novo. Novo semestre, novas promessas, novos alunos que lhe
olham com cara de cachorro que caiu da mudança, e veteranos
desafiador-desafiados que lhe olham com cara de quem lhe quer devorar o
fígado, tentando demonstrar claramente que já lidam com o universo docente
numa boa. Mas o que fazem é seguir na contínua busca do entendimento de
toda essa parafernália que se chama escola. Ajudá-los nesse entendimento é
de fundamental importância para o crescimento profissional e pessoal dos
professores, a cada semestre que se lhes atira às ventas.
Vocês hão de convir que não teria graça se fosse tudo igualzinho em cada
etapa. Os educadores nada aprenderiam e não se sentiriam estimulados a
aperfeiçoarem-se cada vez mais. Ora, educador que não aprende com educando
não ensina. Seria então o caos. Há que se aprender também a conviver; a
famosa experiência do eu a partir do outro. É o lógico caminho da
humanização e onde se comprovam as virtudes. Também faz parte dessa
estrutura: considerar, acolher, dialogar e superar o individualismo. É
acreditar na comunidade.
Mas isso é caso para os colegas pedagogos e pedagogas (desculpem a todos e
a todas. Tinha que praticar meus conhecimentos do lulês moderno) para os
quais basta dar o tema que eles desenvolvem, com ou sem microfone. Então
deixa quieto, porque filosofar nessa área dá uma ressaca danada no outro
dia.
Até a cantina, pasmem, como que saudando a nova aurora comercial (pois o
recesso foi pouco lucrativo) agraciou aos freqüentadores da hora do sopão,
com cinco nacos de carne de quase dois centímetros cada um, em meio ao
sobe-desce a quatro legumes. Não me contive e separei as iguarias no canto
do prato, para enxaguar a boca ao final da refeição, como se fora
sobremesa.
Como alegria de pobre dura pouco, no almoço do dia seguinte tudo
continuava o mesmo, com as mesmas queixas. Filas intermináveis onde os
mais velhos sofrem sem uma atenção de quem de direito. Segregação dos
consumidores de PF com frases discriminatórias do tipo “... - farofa, não,
farinha. - Picanha? Quer me quebrar? O chupa-molho com quiabo ta de bom
tamanho...”, e assim por diante. Mas tudo isso faz parte do processo
ensino-aprendizagem.
Entretanto o que me prendeu a atenção nesse almoço, foi a quantidade de
pessoas que discutiam sobre as siglas que mais parecem a língua do P (PPP,
PUP, PPI, PDI etc.). Também rolou diálogo sobre a participação no projeto
pedagógico fora do fórum, e o fórum (mais um trocadilho besta), estava a
poucos metros dali. Eu, investido da autoridade de aspirante a estagiário
de foca, fui-me “aproachegando” aos pouquinhos, para colher alguma nota
relevante que justificasse a inclusão nesse periódico. E confesso que
foram tantas que foi necessária uma seleção das mais discutidas. Então
cada um foi falando e sendo interpelado por outros, quase virando um samba
do crioulo doido. Vou tentar reproduzir alguns comentários:
- E o PPP da escola? Alguém sabe o que anda fazendo? As propostas
previstas e realizadas? Os cursos? A fundação?
- Eu diria: alguém sabe onde anda o comandante?
- Que negócio é esse de PUP?
- Deve ser uma universidade fantasmagórica proposta pela força do ouro
negro. Na certa para enfiar goela abaixo dos pobres acadêmicos, ameaçando
a autonomia da escola.
- Pois é. Já começou mal, fazendo os voluntários da escola trabalhar como
loucos, inclusive em dois períodos de férias, para em cada reunião mudar
de rumo como de camisa.
- E olhem que estes nem são chamados para participar de reuniões importantes.
- E o PPI? É chefe ou subordinado do PDI? Porque todos não estão
participando? Como escolher tantos delegados com plenárias tão pobres? O
projeto não está bem elaborado e bastante divulgado?
- Divulgado na NET, nas paredes. Todos somos partes importantes do projeto
e deveríamos receber convites personalizados, com a paralisação das
atividades para uma discussão mais rica. Gostaríamos de participar de
todos os projetos e programas da escola, bastando ser oficialmente
convidados. Sim, queremos participar.
- Tive uma idéia! Vamos elaborar um projeto justificando porque devemos
ser convidados a participar de todos os programas e projetos da escola.
- Apoiado! E qual seria o nome do projeto, aproveitando a língua do P?
- Projeto Queremos Participar.
Então eu saí de fininho, como cheguei, sem que fosse notado, deixando-os
na elaboração dos tópicos do documento. Eles são passarinhos que comem
pedra, como dizia minha avó.
Ronaldo Cavalcante
Dep. III - Mecânica
Conversa de Cantina n. 21
O dia em que conheci um Rei
Cantina superlotada no almoço, devido à um evento na escola, muitas
pessoas de fora, fim de semestre. Fila para tudo: para pagar, lavar as
mãos, comprar pela janela, pegar o alimento melhorado e a minha, a do PF.
Lógico que eu estava ali espremido entre uma carrada de alunos e alguns
colegas do meu nível de renda, pensando quando o ancião vai ter vez.
Pelo menos uma fila para idoso, é pedir demais? Não nos apóiam nos bancos,
nos postos de saúde, nos pontos de ônibus, nos caixas de 1,99, etc..
Aliás, no caixa rápido nos apóiam sim (e levam nosso parco dinheirinho).
Pelo menos na escola poderia ser diferente. Nem vou continuar esse papo,
para não lembrar da fila do bolo que deu o maior bolo, e minhas grandes
amigas ficaram médias amigas.
Nessa reflexão, juntamente com as provas finais, surge um aluno com média
baixa, pouco humorado e me argúi, em meio àquele povão:
- Perdi um quesito de valor alto porque disse que a carga do próton é
negativa. Se eu dissesse que a carga de um elétron é positiva, estaria
totalmente errado?
Fiquei pensando numa maneira de dizer ao aluno que não iria responder
naquela situação, mesmo sabendo de que se tratava. Claro estava para mim
que foi uma pergunta estudada e preparada para me deixar em má situação.
Mas enquanto rebuscava as palavras, uma voz feminina interferiu:
- Professor, não sabia que em eletricidade o sr. falava de pósitron, o
elétron de carga positiva. Isso é física quântica, partículas
fundamentais. Não é puxado demais?
O aluno e eu entendemos a intenção da minha colega. Mas ficou algo sem
explicação: a minha versão. Então fiz o impossível, mas consegui convencer
a professora, que era conhecida minha e de outra unidade, para sentar à
mesa junto com o aluno. Daí passei a contar-lhes o seguinte acontecimento
curioso:
Eu era ainda um rapaz quando saí da Bahia pela primeira vez e fui ao sul
do país com parentes, passar as férias de julho na casa de amigos (de
certa posse). Faltava cerca de um mês para o primeiro jogo da final da
primeira Taça Brasil de futebol, em que meu time era um dos finalistas.
Meu cicerone era um sujeito boa praça, mas muito garganteiro e metido a
conhecedor de pessoas famosas. Para ele eu era um tabaréu.
Durante um dos passeios pela cidade, entramos em uma espécie de
churrascaria e deparamos com um aglomerado de pessoas em volta de um
cidadão, que eu não conhecia pessoalmente, e parecia já famoso. Então meu
amigo, para provar ser bem relacionado, perguntou:
- Quer conhecer um rei?
- Não tenho interesse, não gosto de reinado. Estou bem na República -
respondi.
- Mas esse vai lhe interessar, considerando que vai deixar todos os
baianos curvados perante ele, nesse primeiro campeonato brasileiro.
- Taí, me interessei! Vamos lá que quero ver o cara de perto.
- Com licença, com licença que sou amigo do rei. – Saiu meu amigo furando
o bloqueio de algumas pessoas (não eram muitas, ainda), todos sulistas.
Chegando perto do cidadão, e simulando muita intimidade falou:
- Majestade, esse rapaz gostaria de lhe conhecer. Ele é baiano.
Nisso um silêncio absoluto se fez no local, e podia-se ouvir uma mosca
voar. O tal rei não estendeu sua mão e apenas deu uma risada meio que
penalizado, ao ver aquele rapaz baixinho-atarracado na sua frente, e
aproveitou para tirar um sarro:
- Baiano é? Não trouxe o berimbau para tocar umas músicas pra gente? Se é
mesmo baiano, “dance” uma capoeira aí pra gente ver. Mostre a “arraia
gigante”, “a marreta” e... Deixe ver... Ah! A “a benção de rasteira”. Só
acredito vendo, entende? – (o entende aí, foi por minha conta).
Via-se que apesar da sua descendência afro, sua majestade não sacava nada
de capoeira, pois o que ele disse não tinha nada a ver com jogar capoeira,
aplicar uma bênção, um martelo, uma rasteira ou um rabo de arraia. O que
me aborreceu foi o fato do requerente exigir que eu fizesse aquilo tudo,
num ambiente inadequado como aquele, sendo o único baiano do local.
Sim, porque eu poderia muito bem executar tais movimentos, uma vez que fui
aluno dos dois maiores ícones da capoeira mundial: Mestre Pastinha e
Mestre Bimba, durante uma década (59 a 69). No meu tempo valia a lei da
Shell: “quem não era o maior tinha que ser o melhor”. Foi quando abdiquei
da caserna e parti para universidade. Logo, não só deixei de cumprir a
ordem de um rei, como ainda retruquei:
- Isso é o mesmo que encontrar o Papa na rua e pedir a ele para rezar uma
missa. Mas eu faço isso se o senhor executar uma bicicleta aqui (apontei
para o cimentado) também. Aí eu acredito que o senhor é o senhor.
Dito isso, pedi licença e sai sob os protestos do meu amigo, que insistia
para que eu satisfizesse o desejo do rei. Foi então que eu ouvi a
resposta seguida de risadas generalizadas.
- Vá lá na Vila daqui a um mês, e vai ver várias bicicletas botando a
pelota onde a coruja dorme.
Fui mesmo, mas não vi a tal bicicleta. Pelo contrário, vi foi meu time
desmontar a grande máquina trituradora internacional alvi-negra, e virar
um jogo em que perdia por dois a zero, consagrando outro baiano
baixinho-atarracado, que derrotou um rei e todo seu séqüito, em seu
próprio campo de batalha.
Alguns meses depois, na maior arena do mundo, em outra batalha sangrenta e
com várias baixas, a façanha se repetiu. Meu time (de baianos, alguns
baixinhos-atarracados) sagrou-se vencedor do primeiro campeonato
brasileiro, e lá nas paragens do inimigo. Isso, eles não perdoam, mas não
esquecem.
Conta-se que, depois desse fato inusitado, o tal monarca tornou-se mais
humilde e humano, chegando a dedicar às criancinhas seu milésimo decreto.
Claro que andou pisando na bola como, por exemplo, no reconhecimento
tardio da sua filha; no abandono do filho às drogas; nas composições e
interpretações musicais (argh!); numa viagem ao cosmo para arrecadar
fundos de pensão, etc. Mas qual rei não fez besteira? O fato é que ele não
tem herdeiro e ainda reina até hoje, por não ter a quem passar o cetro
(sic) e a cora. Com isso eu também aprendi que: o “bom” perguntar não
ofende.
Ronaldo Cavalcante
Dep. III - Mecânica
Conversa de Cantina n. 20
Caldo de Galinha
Depois de receber no escritório central do “Conversa de Cantina” a honrosa
visita de ilustres colegas que acho de alto gabarito, complementado
informações sobre denúncias e política e, certificar-me de que não seria
necessário publicar nenhuma receita de bolo na próxima edição, voltei-me
a matutar sobre um assunto que me martelou o dia todo: o agradecimento.
Voltando da escola, aos 10 anos de idade, achei um carrinho de rolimã (era
made in USA) e o levei para casa, brincando com o mesmo algumas horas (o
meu era made in fundo-de-quintal). Quando foi arrumar minhas bagunças,
minha mãe notou o brinquedo e perguntou quem havia me emprestado. Só então
eu disse que o tinha achado na rua e complementei com a fatídica frase:
“achado não é roubado”.
Ato contínuo: levei uma tapa nas fuças (como dizia ela) e fui arrastado
pela orelha até o local do achado. Lá encontramos um garoto que ainda
estava chorando a perda do carro, junto à sua bicicleta (cheia de revistas
na garupa),com receio de voltar para casa sem o mesmo. Agradeceu-me ele e
me deu seis gibis da sua coleção, cujos números eu ainda não tinha
(Hopalong Cassidy, Roy Rogers, Cavaleiro Negro, Flecha Ligeira, Zorro e
Fantasma). Imagine que a punição maior foi ver minha mãe não me deixar
receber a recompensa, porque a devolução não foi voluntária.
Mais de 50 anos se passaram, e hoje ainda agradeço a tapa desferida por
essa velhinha que graças a Deus ainda vive comigo, e me olha atravessado
toda a vez que esqueço de não lhe pedir a bênção, ao levantar-me pela
manhã, ou quando ela segue para o seu quarto à noite. Agradeço-a ainda por
ter me educado, mesmo sabendo que era a sua obrigação.
A quem agradeço, por me atender ou servir, mesmo sabendo que devem fazê-lo?
À moça do cafezinho, ao garçom, ao carteiro, ao balconista, ao atendente,
ao professor, ao caixa, ao barbeiro, ao taxista, ao frentista, ao servidor
público, à arrumadeira, à empregada doméstica, ao bolsista, à aeromoça, ao
policial, ao segurança, ao porteiro, ao ascensorista e ao zelador.
E a quem mais agradeço, sabendo que não tem obrigação nenhuma de me atender?
Ao orientador (por tirar minhas dúvidas); ao aposentado na praça da
piedade (por um dedo de prosa); ao religioso (por uma palavra de fé); ao
transeunte (por uma informação); aos meus superiores hierárquicos (quando
me ouvem); à criança na rua (que ri e acena para mim sem me conhecer); aos
colegas que me atualizam (pelas informações privilegiadas); ao motorista
de ônibus (por dar uma aliviada fora do ponto); ao meio-de-campo (por
aquele passe redondo, mesmo que eu tenha perdido o gol); aos amigos (por
me considerarem como tal); aos meus filhos (por existirem); à minha mulher
(por me aturar há mais de 20 anos); ao leitor (por ler isso, que chamo de
texto); e a todo aquele que encontra algo de minha propriedade que fora
extraviado, e me devolve.
Sabiam que já agradeci a um assaltante? Pois é, o meliante me abordou em
um ponto do comércio, num sábado à tarde, e encostou a arma no minha
costela:
- Cabeça de gelo, cumpade. Me dá a carteira divagazinho
Passei a carteira com cuidado e ele verificou que tinha pouco dinheiro e
olhou meus documentos exclamando irritado.
- Só isso???. Tu vai sobrá meu camarada. Né possíve – disse olhando minha
carteira de estudante de mestrado – Tu é tão burro que ainda estuda nessa
idade, mané!!! Vaza preu num te derrubá.
- Obrigado – a única coisa que pude balbuciar. Fui a pé buscar o carro no
S. Raimundo. Ainda bem que tinha pago o estacionamento.
Lógico que não poderia deixar de agradecer a Deus por me permitir estar
auxiliar de aprendizado de uma juventude cada vez mais dinâmica,
inteligente, capaz e responsável, de uma escola pela qual tenho verdadeira
paixão desde os anos 60.
Portanto não estou aconselhando a ninguém agradecer por nada (afinal, isso
não é auto-ajuda nem aula de cidadania), mas acho que o conhecido ditado
deveria ser:
Agradecimento, bom conselho, e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.
Ronaldo Cavalcante
Dep.III - Mecânica
Conversa de Cantina n. 19
Denúncia e Política
Véspera do feriado de S. João, estava eu meio desconsolado na cantina, por
ter perdido meu pendrive de 1 Gb atualizado, já de mochila arrumada para
deixar a escola, quando de repente surge em minha frente um aluno que me
pergunta:
- O sr. é o dono do jornal?
Tomei um baita susto. Veio à mente os anos de chumbo, quando escrevia
matérias em uns “comunicados” estudantis na universidade. Cheguei até a
ouvir o zunir de uma fanta cortando o ar. Mas como o rapaz era muito
jovem, me tranqüilizei e perguntei de que jornal ele estava falando.
- Do “Conversa de Cantina”. Eu tenho três notícias para o senhor. Uma boa,
uma ruim e outra mais ou menos. Qual vai ser primeiro?
- Vamos esclarecer as coisas, primeiro. Não se trata de jornal e sim de um
arremedo de crônica escrita por um ancião que, não tendo nada o que fazer
nas noites de insônia, acrescenta à intranet uma opção de leitura para uma
reflexão da comunidade. Como sou partidário da primeira impressão,
gostaria da boa notícia em primeiro lugar.
- A boa notícia é que achei seu pendrive no chão em frente à biblioteca.
Como ele estava sem tampa e meio sujo, demorei muito para conectar em um
computador e descobrir o dono. Só agora, que o colega que estava comigo me
falou do anúncio, é que eu fui confirmar se era o mesmo pendrive.
- Que ótima notícia! Eu já não sabia o que fazer para atualizar todos os
meus backups. Me dê aqui que eu vou passar os arquivos para o notebook e
lhe gratifico com ele.
- Aí que vem a notícia ruim. Eu o coloquei em um computador mais velho e
deve ter dado algum problema, pois só deu para ver duas pastas que era
exatamente a “Conversa de Cantina” e “Descascador de licuri”. O restante
aparecia tudo embaralhado. Me distraí lendo todas as crônicas, e quando
fechei a pasta, os arquivos desapareceram. Acho que “deu pau” em tudo. Mas
ele indica a letra do drive.- Disse o rapaz preocupado.
- Calma. Se aparece a letra do drive é que só perdeu a tabela de alocação
de arquivo (FAT). Como existe sempre uma cópia dela em arquivo oculto, é
provável que possa recuperar pelo menos as partes mais novas, que é o que
interessa – Dito isso, puxei o velho note da mochila e inseri o pendrive,
observando a curiosidade do garoto.
- Se der certo, vai me tirar um peso da consciência. – Disse o jovem
animado. Então procedi as operações: botão direito na letra do drive
(E:/), copy, direito no desktop, paste e depois de uns três segundos de
suspense, iniciou-se o processo de cópia dos arquivos parando em 75%.
Agora bastava formatar que a maioria dos arquivos já estava garantido.
Procedi a formatação recuperando todo o espaço sem perdas ou bad block.
Então me bateu a idéia: se formatou, pode desformatar. Não deu outra.
Desformatei e eis que surgiram todos os arquivos intactos. Completei todo
meu material.
- Pronto, tudo ok. Vou formatar e você pode leva-lo que é seu de direito.
- Não precisa não, eu já tenho um. Mas se o senhor quiser pagar o lanche,
tudo bem. – Disse o jovem se dirigindo ao balcão da cantina. Paguei o
lanche e lembrei que faltava alguma coisa:
- Faltou a notícia mais ou menos. – Meio desconsertado o aluno explicou:
- É que eu li também uma sub-pasta intitulada “Denúncias”, onde apareciam
vários tipos de denúncias, sendo que a maioria estava marcada com um
lembrete de “não apurada”. Contei pelo menos umas nove. E o que me
intrigou foi o fato de quase nenhuma delas constar nas crônicas. Por quê?
Eram falsas?
- Em primeiro lugar, vou contrabalançar o fato de você ter lido algo
confidencial e pessoal, com o nobre gesto de ter devolvido o pendrive
declinando da recompensa. Depois, quanto às denúncias anotadas, elas são
de fontes fidedignas, e existem em documentos tramitando em algum lugar no
espaço institucional, que só diz respeito aos denunciantes, denunciados e
apuradores. Acredito que todas devam ser apuradas em algum momento.
- Me desculpe, foi irresistível. Mas e as denúncias?- Insistiu.
- Um conhecido cronista esportivo dizia que “uma coisa é uma coisa e outra
coisa é outra coisa”. Logo, existem denúncias e denúncias. Mas elas tèm
por obrigação de ser inteligentes.
- Voei.
- É que talvez não seja o caso da denúncia pela denúncia. Apesar de vermos
cascatas delas jorrando por todos os cantos do país, muitas sendo (ou pelo
menos tentando ser) engavetadas pelas assessorias no meio do caminho, na
tentativa de salvaguardar alguma coisa ou postergar os “finalmente”. Não
seria diferente em qualquer instituição de ensino.
- E qual a causa principal?
Política, meu jovem. “Convivência entre diferentes”; “algo vital para a
sociedade e para os indivíduos”; “pessoas interagindo através da ação e da
palavra, com o sentido da liberdade”; pelo menos é o que deveria ser
segundo Arendt. Mas hoje a política é confundida e até definida como
“Ações de maus políticos”. Às vezes bons políticos, atrelados a maus
assessores. Apenas jogo de interesses.
- Ah! Então é aí o gargalo.
- Exato, filho! Porque pedir a essa política que permita aos assessores
dos mandatários aconselhá-los a cumprir o prometido e/ou apurar todas as
denúncias, é pedir à agulha da bússola que não aponte para o Pólo Norte.
- E o que podemos fazer?
- Eu, mais nada, ou melhor, posso apenas seguir o conselho da sexóloga com
relação ao caos aéreo. Todavia, vocês estão aí para tentar mostrar que
atitudes e omissões fazem parte da nossa ação política e, que somos todos,
do menor ao maior, responsáveis politicamente (no sentido grego da
palavra) pela luta em busca da justiça e de uma sociedade (comunidade)
verdadeiramente democrática.
- Taí uma grande dica para o vestibular. Nem vou mais precisar de teste
vocacional.- Disse o garoto sorridente que se despediu sem notar a
satisfação que provocara num emotivo velho, ainda crente de que nem tudo
está perdido.
Ronaldo Cavalcante
Dep. III - Mecânica
Conversa de Cantina n. 18
NATUREZA HUMANA
O sopão da cantina na última semana reluzia ostentando uma superfície cor de prata-polida. É que o polido ato dos idealizadores e realizadores do último evento na escola, deu uma massageada no ego dos funcionários ex-alunos, prestando-lhes uma justa e inédita homenagem.
Foi gratificante ver, principalmente os coroas, voltar aos tempos da juventude durante uma sessão de cinema, onde se projetavam filmes e fotos de época. Gritos, piadas, apelidos, foi uma festa. As roupas e as indumentárias apresentadas nas imagens, foram atração à parte. Moças e rapazes, hoje senhoras e senhores (idoso só havia eu) se deliciavam criticando o estado físico atual do colega. Nas fotos aparecia de tudo.
Professores ainda com o telhado completo, outros com calça boca de sino. Houve um gordinho que começou na escola comendo e ainda não parou, passado mais de trinta anos. Deputados e autoridades também foram homenageados. Uma badalação!
Para mim, novamente, tudo nos conformes. Tal e qual o último evento que aqui me derreti em elogios. Até pensei que não haveria comentário nenhum de insatisfação. Mas foi ledo engano, porque dias depois na cantina, um professor e um técnico logo me adiantaram:
- Olha aí o prata! Foi pra festa do fumacê?
- ???
- É...! A fumaça para encobrir os milhares de problemas da administração. Viu quanta gente importante do outro grupo não compareceu, assim como eles não compareceram no evento anterior?
- Só sei que não iria perder esse evento por nada. Como não perderia o anterior. Se alguém convidado não compareceu, a meu ver, perdeu uma boa chance de um relacionamento saudável com os colegas. Quanto à divisão por grupos na escola, nem posso comentar por não saber quem são os integrantes dessa ou aquela facção. Me dou bem com todos (quase) independente de preferência política. Com certeza havia representante de todo o tipo de grupo.
Nisso chega um aluno do curso técnico, e me questiona sobre as últimas mensagens na intranet.
- O Sr. não acha que estão desvirtuando a função do serviço de mensagens?
Nós alunos lemos as mensagens postadas, buscando aprendizagem e informação saudável, e o que vemos ultimamente é uma porção de brigas, discussões, réplicas e tréplicas, politicamente incorretas, a meu ver.
- Mas já que vocês são politizados, isso não faz parte do processo democrático?
- Peraí! Professores se degladiando, trocando denúncias e lavando roupa suja na net? Não se trata de uma questão de ética?
Estou ferrado, pensei. Endireitei-me na cadeira e mandei:
- É possível, considerando que ética é muita coisa: um tipo de comportamento; estudo e reflexão sobre ações humanas; uma espécie de liberdade para decidir entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, para se conduzir com responsabilidade. Ela se preocupa com a forma humana de resolver, pelo menos, as contradições entre o indivíduo e o social.
- Mas não é o que acontece. Às vezes vemos dois discursos diferentes proferidos pela mesma pessoa sobre um assunto. Rapidamente se vê que uma pessoa não é nada daquilo que a gente imaginava.
- Concordo. Eu mesmo fui vítima disso ultimamente, e quase deixei a peteca cair. Colegas que eu endeusava, e outros que eu julgava companheiros, me decepcionaram. Mas a carcaça velha cansada de guerra ainda se move, e o raciocínio lentamente retorna ajudado pelo feriadão. Não fora isso, até o Conversa de Cantina estaria ameaçado. Mas outras batalhas estão por vir, e tenho que me fortalecer para manter a estrutura o maior tempo possível.
- Viu? É ou não é, falta de ética esse tipo de discórdia pública, num local de trabalho, principalmente em se tratando de educação?
Encurralado, vi que não teria como escapar sem emitir opinião. Obriguei os já cansados neurônios a dar uma vasculhada no baú, e tentei me sair:
- Veja bem. Já li que o espaço de trabalho, assim como o cotidiano, muitas vezes transforma-se em um fazer destituído de significados, resultando daí um sujeito cindido de seu mundo, de si e de sua essência. Esse deixa então, de perceber uma parte da realidade exterior, e uma dimensão de seu universo psíquico, como se proibisse a si mesmo de pensar. Nessa direção, os homens devem ser protegidos de si mesmos. Muitas vezes, bloqueiam o
trabalho intelectual, que poderia resultar em esquemas justificadores das
ações disfuncionais.
- Xiii! Não sei se saquei.
- Filosofia, meu caro. É a solução para todos os males. Com frases simples como “Nada em excesso”, “Conhece-te a ti mesmo” e “Só sei que nada sei”, Sócrates refletiu sobre a natureza do bem moral, na busca de um princípio absoluto de conduta. A conduta ruim do homem (todos e todas, como dizem os petistas e imitadores) é debitada por Russeau à sociedade, que o corrompe por meio da divisão do trabalho, inclusive. Mas existem correntes que justificam a conduta do homem (todos e todas, não esqueça) cheia de altos e baixos, pelo fato dele ter surgido das cinzas de Dionizio, que fora engolido pelos Titãs e, juntos, foram transformados em churrasquinho por Zeus. Mas isso é outra história...
- Afinal, que proposta o sr. apresentaria para essas pessoas, com vistas a uma solução?
- Como só existem dois tipos de pessoas no mundo, a comum e o professor, eu receitaria: À pessoa comum, filosofia. Ao professor, incremento de pedagogia. Tecer-se-ia então, um ser humano politicamente ético. E ter-se-ia a tão sonhada paz. Nem que seja virtual.
Dep. III - Mecânica
Conversa de Cantina n. 17
O GAROTO E A BICICLETINHA
Esses ouvidos cansados, já no seu limiar da percepção, que me permitiram,
ainda usando calças curtas, captar perfeitamente o zero decibel no
Maracanã, após o segundo gol do Uruguai na única Copa do Mundo no Brasil,
voltaram a me surpreender nos dois dias do último Workshop na escola. Foi
tanta informação, cada uma mais avassaladora que outra, que, em sendo uma
verdade total, deixaria hitleristas, malufistas, carlistas e outros istas
babando de inveja.
Logicamente que não é possível divulgar nada que não se tenha garantia de
completa credibilidade. Como estima-se dois e três por cento de engano e
exagero, respectivamente, quem consome um tempinho, lendo esse fragmento
(ó o gerúndio aí, ó – é moda), há de entender a não veiculação de tudo
por não fechar os cem por cento de confiabilidade. Entrementes, é
importante socializar esse conhecimento.
Foi um evento destinado a valorizar as quebradeiras de coco da maior
região semi-árida do planeta (com a presença de duas representantes).
Foram convidados um ministro da república, um governador de estado, dois
deputados federais, prefeito e outras autoridades. Em nome da escola,
houve apresentação de uma marca, projetos de máquinas inovadoras.e
projetos de pesquisa na área. Houveram discursos e palestras elevando bem
alto o nome da escola (ainda que alguns tenham errado o mesmo) e
prometendo levar para o nível federal a discussão sobre a possibilidade de
encampar o projeto, trazendo recursos para a instituição.
Para mim, tudo mais ou menos nos conformes. Mas para alguns professores,
dois servidores e alguns alunos, não era bem assim. Então começou a
saraivada de comentários, durante os intervalos de almoço e jantar, na
cantina. Uns diretos e outros em voz alta nas proximidades. Destarte não
pude deixar de ouvir (mesmo com minhas limitações). Esqueci até do sopão.
Dos poucos comentários que selecionei, o primeiro logo mandou:
- Tu visse a deficiência do equipamento de multimídia? Sem foco, faltando
microfone e tudo. Num evento desse, rapaz.
- É, eu vi e até me informei com um dos funcionários presentes. Mas dali
só saiu cobras e lagartos. Além de mostrar vários pedidos de recuperação
do parque de equipamento não atendidos, e denúncias de irregularidades por
escrito. Também muita história de meu-boi-morreu. Deixei pra lá. Há
pessoas competentes para uma apuração.
Mais tarde outro disparou:
- Os funcionários da manutenção tá no maior conflito. Surgiu um boato de
terceirização e agora não param de discutir prejudicando com isso o apoio
ao ensino. Nem o chefe direto aguentou o tranco.
- É, isso eu conheço de cadeira, melhor dizendo, de bancada. - ??? – Você
não entenderia.
Agora um terceiro professor, de renome na escola, foi o mais taxativo
durante um bate-papo no horário do sopão, começando com a questão da APM e
continuando:
- Vou lhe falar uma coisa, aqui prá nós.
Disfarcei um sorriso. “Aqui prá nós”, no Conversa de Cantina, é piada. Por
isso meu riso. Aliás essa crônica periódica é uma espécie de ONG, que não
pesca nem procura fornecedor. Recebe e vende seu peixe sem ágio nem
deságio, para ajudar aos famintos de informações não oficiais, que
circulam principalmente nesse espaço liberal que é a cantina da escola.
Comentários são acrescidos com vistas à uma reflexão.
- Imagina. Manda!
- Um evento dessa magnitude, com tanta gente importante, não merecia um
tratamento melhor por parte da escola? Uma recepção à altura? Um auditório
que não fosse aquele forno, onde as autoridades discursaram banhados de
suor? Um equipamento eficiente? Um maior apoio dos vários departamentos
pertinentes? Isso não dificultaria o retorno dessas autoridades em outra
ocasião?
- Disso, só sei lhe informar sobre o calor que realmente estava
insuportável, pois o auditório estava lotado e vários aparelhos
encontravam-se com defeito. Ademais, eu ouvi o representante do governador
comentando o fato.
- Esses fatos ocorridos, me lembram a estória do garoto e a bicicletinha.
- Sou todo ouvidos – Disse eu colocando a mão em concha atrás de uma das
orelhas (nada podia perder).
- Um garotinho, assediado por uma menininha da sua rua, quis aprender com
o irmão adolescente, a técnica do namoro. Então escondeu-se algumas vezes
no carro em que o jovem levava as pretendidas para os arredores da cidade.
Em determinado local, ele sempre escutava o mesmo diálogo: “...ou dá ou
desce”. – “Não dou, prefiro descer”, respondia a moça. E por várias vezes
o garoto viu a namorada do irmão voltar a pé para casa. Achou o nosso
herói que já tinha aprendido bastante, e encarou a menininha. Levou-a
para passear na sua bicicletinha, no mesmo local de atuação do seu irmão.
Chegando lá, não contou conversa e demonstrou toda sua autoridade: “OU DÁ
OU DESCE”, gritou. E a menina respondeu: “Dou”. Ele parou, surpreso. Então
a menininha gritou “EU DOOOOUUUUU!!!”.
- E aí? – perguntei fingindo não conhecer o trágico final.
- E aí, que o garotinho não sabia o que fazer com tanta responsabilidade,
entregou a bicicletinha para a menininha e voltou a pé para casa.
- E o que você quer dizer com isso – Simulei mais uma vez não entender
(para não perder a infomação)..
- É simples. Qualquer mandatário não precisa entender de tudo, mas tem que
se cercar pessoas eficientes. Muitas pessoas assediadas para atuarem fora
da área do seu conhecimento, ou acima da sua capacidade de gerenciamento
ou ainda sem disponibilidade de tempo suficiente (ou combinação dos tres),
mesmo tendo aceito, e antes do poder lhe subir à cabeça, deveria
demonstrar a hombridade desse garoto.
- Como?
- Entregando a bicicletinha...
Dep. III - Mecânica
Conversa de Cantina n. 16
ENSINO E PESQUISA
É impressionante como a vivência, experiência de vida ou profissional
causam mal estar em muita gente é motivo de zombarias quando relatadas em
grupos afins, principalmente se houver indicação de alguma polivalência em
conhecimentos de qualquer natureza. Na cantina da escola isso é notório,
nos tres expedientes. Cada relato de professores ou servidores antigos,
que presenciei atentamente, sobre feitos, situações ou acontecimentos do
passado, são recebidos com risadas incrédulas na presença, e
ridicularização na ausência do protagonista. O professor licenciado para
uma disciplina deve se aposentar com o mesmo conhecimento que iniciou sua
vida profissional, trinta anos antes.
Da idade da pedra como sou, nem me arvoro em contar experiências de vida e
situações inusitadas por que passei, para não ser ridicularizado. Às vezes
até acontece, porque me esqueço dessa máxima e respondo perguntas
relatando algum fato. Mas logo retorno à base.
Durante uma reflexão como essa é que fui despertado por um aluno de
engenharia da escola me fazendo uma pergunta no mínimo intrigante.
- O sr. acha que é importante o aluno concluir o curso de graduação e
ingressar logo em uma pós-graduação aqui na escola?
- ???
Lógico que fiquei intrigado devido a essa pergunta tão simples cuja
resposta é tão óbvia. Talvez fosse uma pegadinha. Mas o aluno, notando
minha indecisão, foi logo se adiantando:
- Eu explico. É que eu estava sob uma escada lendo um livro de filosofia,
quando chegaram duas pessoas, possivelmente professores e ali iniciaram um
diálogo sobre esse assunto, sem notar a minha presença, cuja frase incial
foi “...como é que pode algum educador achar que pesquisa e pós-graduação
não tem importância nenhuma para essa escola? Como pode um profissional
ser sobrecarregado só porque é pós graduado? Porque tem-se que apenas
ensinar sem expandir seus conhecimentos...” , etc.
- Então você ficou escutando atrás da porta. Isso não é feio?
- A essa altura temi ser reconhecido. Mas a coisa foi tão forte que não
dava mais para sair. Passou até por palavrões dirigidos aos pós-graduados
pesquisadores. Então tive que ouvir tudo. Parece haver uma cruzada
setorizada contra a pesquisa na escola onde alguém teria chamado o
doutorado de m...
- Em primeiro lugar eu acho que houve algum equívoco. Ou você entendeu
tudo errado ou não prestou atenção ao assunto, considerando que estava
lendo algo sobre filosofia. Pode até ter viajado um pouco e misturado as
estações, pois é no mínimo falta de ética alguém denegrir com xingamento
um estado de conhecimento como o de pós-graduação.
- Mas eu confirmo que ouvi tudo que lhe disse e mais ainda.
Como não tenho mestrado nem doutorado, fiquei à vontade para opinar e
tirar as dúvidas do aluno, apenas à luz dos meus parcos conhecimentos.
- Acho que qualquer professor tem que pesquisar. É a base da sua
atualização. Ora, pesquisar exige métodos para tal, afim de que resultados
sejam apresentados. E isso é tarefa dos cursos de pós-graduação. É sabido
que um pofessor não deveria apenas ensinar e ficar parado no tempo,
repassando aquilo que aprendeu na escola. Há de se conciliar o ensino com
a pesquisa e extensão. A situação é mais crítica quando se considera que a
maioria dos professores de cursos profissionalizantes (que também são
utilizados nos cursos médios) não têm a formação pedagógica ideal. E,
novamente, quem proporciona isso? Os cursos de pós-graduação, claro.
- E porque existem correntes contrárias?
- O problema da pós-graduação é que, apesar da extrema utilidade para
aplicação em sala de aula, demanda tempo, muita dedicação, sendo que o
retorno pessoal imediato é pouco. No entanto, em todas as instituições
públicas e privadas de ensino, cresce a quantidade de cursos lato-senso e
strictu-senso e ainda há o incentivo aos professores em direção à
pesquisa, procurando melhorar o conhecimento do seu quadro funcional. E
então, para que serve o Dep. De pós-graduação? Como se constrói
Universidade sem pesquisa? O tripé não é Ensino, Pesquisa e Extensão?
Nessa época de metáforas governamentais, precisamos mesmo é de mais
conhecimento.
- E quanto a qualidade da pesquisa ou pós-graduação? Eu ouvi claramente
uma das pessoas dizer que o dotourado era uma boa m...(desculpe repetir a
expressão).
- Profere-se muita falácia quando é dito que pós-graduação não garante
qualidade. E sempre quem diz o faz em proveito próprio, pelo falso motivo
da sobrevivência. Essa retórica sobre minimizar a importância da
pós-graduação atua em defesa dos próprios interesses dos seus
propagadores. Aparece então uma certa dificuldade em aceitar mudanças,
descontando em cima da pobre coitada da pesquisa.
- Porque isso ?
- Acredito que aqueles que não a obtiveram, não a quiseram ou não a
puderam possuir, deflagram petardos, como esse palavrão que você acha ter
ouvido, desfazendo o estabelecimento de critérios e indo de encontro
àqueles combatentes que insistem em ampliar seus conhecimentos, para
aplicá-los na própria escola incentivadora. Na comunidade acadêmica há
flagrantes casos de desequilibrio de cargas horárias para a defesa dessa
tese (no mau sentido). Claro está que não se ouve de um doutor o
menosprezo público pela pesquisa.
- Lá isso é verdade.
- E, se você não sonhou tudo isso enquanto estudava filosofia deitado em
baixo da escada, ou deu uma viajada enquanto pensava filosoficamente no
assunto, eu concluo repetindo o que disse o único cabra-da-peste
pai-d´égua que deu os EUA, que foi Abraham Lincoln:
“Quem considera que conhecimento é custo, desconhece o preço da ignorância”
Dep. III - Mecânica
Conversa de Cantina n. 16
ENSINO E PESQUISA
É impressionante como a vivência, experiência de vida ou profissional
causam mal estar em muita gente é motivo de zombarias quando relatadas em
grupos afins, principalmente se houver indicação de alguma polivalência em
conhecimentos de qualquer natureza. Na cantina da escola isso é notório,
nos tres expedientes. Cada relato de professores ou servidores antigos,
que presenciei atentamente, sobre feitos, situações ou acontecimentos do
passado, são recebidos com risadas incrédulas na presença, e
ridicularização na ausência do protagonista. O professor licenciado para
uma disciplina deve se aposentar com o mesmo conhecimento que iniciou sua
vida profissional, trinta anos antes.
Da idade da pedra como sou, nem me arvoro em contar experiências de vida e
situações inusitadas por que passei, para não ser ridicularizado. Às vezes
até acontece, porque me esqueço dessa máxima e respondo perguntas
relatando algum fato. Mas logo retorno à base.
Durante uma reflexão como essa é que fui despertado por um aluno de
engenharia da escola me fazendo uma pergunta no mínimo intrigante.
- O sr. acha que é importante o aluno concluir o curso de graduação e
ingressar logo em uma pós-graduação aqui na escola?
- ???
Lógico que fiquei intrigado devido a essa pergunta tão simples cuja
resposta é tão óbvia. Talvez fosse uma pegadinha. Mas o aluno, notando
minha indecisão, foi logo se adiantando:
- Eu explico. É que eu estava sob uma escada lendo um livro de filosofia,
quando chegaram duas pessoas, possivelmente professores e ali iniciaram um
diálogo sobre esse assunto, sem notar a minha presença, cuja frase incial
foi “...como é que pode algum educador achar que pesquisa e pós-graduação
não tem importância nenhuma para essa escola? Como pode um profissional
ser sobrecarregado só porque é pós graduado? Porque tem-se que apenas
ensinar sem expandir seus conhecimentos...” , etc.
- Então você ficou escutando atrás da porta. Isso não é feio?
- A essa altura temi ser reconhecido. Mas a coisa foi tão forte que não
dava mais para sair. Passou até por palavrões dirigidos aos pós-graduados
pesquisadores. Então tive que ouvir tudo. Parece haver uma cruzada
setorizada contra a pesquisa na escola onde alguém teria chamado o
doutorado de m...
- Em primeiro lugar eu acho que houve algum equívoco. Ou você entendeu
tudo errado ou não prestou atenção ao assunto, considerando que estava
lendo algo sobre filosofia. Pode até ter viajado um pouco e misturado as
estações, pois é no mínimo falta de ética alguém denegrir com xingamento
um estado de conhecimento como o de pós-graduação.
- Mas eu confirmo que ouvi tudo que lhe disse e mais ainda.
Como não tenho mestrado nem doutorado, fiquei à vontade para opinar e
tirar as dúvidas do aluno, apenas à luz dos meus parcos conhecimentos.
- Acho que qualquer professor tem que pesquisar. É a base da sua
atualização. Ora, pesquisar exige métodos para tal, afim de que resultados
sejam apresentados. E isso é tarefa dos cursos de pós-graduação. É sabido
que um pofessor não deveria apenas ensinar e ficar parado no tempo,
repassando aquilo que aprendeu na escola. Há de se conciliar o ensino com
a pesquisa e extensão. A situação é mais crítica quando se considera que a
maioria dos professores de cursos profissionalizantes (que também são
utilizados nos cursos médios) não têm a formação pedagógica ideal. E,
novamente, quem proporciona isso? Os cursos de pós-graduação, claro.
- E porque existem correntes contrárias?
- O problema da pós-graduação é que, apesar da extrema utilidade para
aplicação em sala de aula, demanda tempo, muita dedicação, sendo que o
retorno pessoal imediato é pouco. No entanto, em todas as instituições
públicas e privadas de ensino, cresce a quantidade de cursos lato-senso e
strictu-senso e ainda há o incentivo aos professores em direção à
pesquisa, procurando melhorar o conhecimento do seu quadro funcional. E
então, para que serve o Dep. De pós-graduação? Como se constrói
Universidade sem pesquisa? O tripé não é Ensino, Pesquisa e Extensão?
Nessa época de metáforas governamentais, precisamos mesmo é de mais
conhecimento.
- E quanto a qualidade da pesquisa ou pós-graduação? Eu ouvi claramente
uma das pessoas dizer que o dotourado era uma boa m...(desculpe repetir a
expressão).
- Profere-se muita falácia quando é dito que pós-graduação não garante
qualidade. E sempre quem diz o faz em proveito próprio, pelo falso motivo
da sobrevivência. Essa retórica sobre minimizar a importância da
pós-graduação atua em defesa dos próprios interesses dos seus
propagadores. Aparece então uma certa dificuldade em aceitar mudanças,
descontando em cima da pobre coitada da pesquisa.
- Porque isso ?
- Acredito que aqueles que não a obtiveram, não a quiseram ou não a
puderam possuir, deflagram petardos, como esse palavrão que você acha ter
ouvido, desfazendo o estabelecimento de critérios e indo de encontro
àqueles combatentes que insistem em ampliar seus conhecimentos, para
aplicá-los na própria escola incentivadora. Na comunidade acadêmica há
flagrantes casos de desequilibrio de cargas horárias para a defesa dessa
tese (no mau sentido). Claro está que não se ouve de um doutor o
menosprezo público pela pesquisa.
- Lá isso é verdade.
- E, se você não sonhou tudo isso enquanto estudava filosofia deitado em
baixo da escada, ou deu uma viajada enquanto pensava filosoficamente no
assunto, eu concluo repetindo o que disse o único cabra-da-peste
pai-d´égua que deu os EUA, que foi Abraham Lincoln:
“Quem considera que conhecimento é custo, desconhece o preço da ignorância”
Dep. III - Mecânica
Conversa de Cantina n. 14
LIÇÕES DE VIDA
Dois indignados se encontraram na cantina da escola: eu, com a volta
daquela peleja contra a direção da mesma em teimar não colocar manteiga no
pão que acompanha o sopão (me tapeou com uma faca suja de maionese, tendo um professor de física como testemunha); e um aluno, com relação a um
anúncio na Internet no site do Mercado Livre, onde navegava a procura de
um fusca baratinho para, pelo menos, levá-lo até a escola.
- Como é que pode um absurdo desses! – Disse irritado o jovem - Um
idiota anuncia um fusca 1976, com mais de 30 anos, por 20.000,00, o preço
de um carro novo, só porque botou um som maneiro e fez uma pintura
diferente. Tudo não dá nem 2.000,00. Quem ele pensa que nós somos?
Idiotas? Também ele recebeu cada mensagem à altura desse desaforo…
Diante dessa situação tão calamitosa para o jovem, o meu problema com a
cantina ficou em segundo plano, e eu me vi forçado a dialogar com o mesmo.
- Não entendo tanta indignação porque você mesmo disse que o dono do carro
executou as alterações pessoalmente. Então ele deve ter elaborado um
orçamento com a devida composição de custo, levando em consideração o
preço dos insumos, transporte, sua mão de obra e, logicamente, o
percentual de BDI. (despesas indiretas incluindo lucro)
- Então foi uma taxa de quase 1.000 %. Não é um roubo?
- Depende do valor da mão de obra dele e do BDI estabelecido. Ambos, em se
tratando de profissionais liberais, não são regidos por lei alguma. Isto
é, apenas pela lei da oferta e procura. Muita procura, pouca oferta,
preços estratosféricos.
- O Sr. ainda acha correto esse disparate?
- Pode não ser correto, mas não é ilegal, desde que sejam pagos os
impostos devidos. Vou lhe contar um caso testemunhado por uma professora
conhecida minha, que pode servir para ilustrar o papo:
- Não acredito em nada comparado a isso que seja justificado.
- Pois bem. Certa feita, um economista afro-descendente, alto executivo da
bolsa de valores, consultor de várias grandes empresas internacionais e
que faturava mais de cem mil reais mensais, passava por uma das avenidas
principais da cidade dentro de seu carro importado dirigido por seu
segurança. Ele voltava de um jogo de futebol beneficente, onde participara
como doador e jogador. Só que o campo estava enlameado e ele ficou todo
sujo. Então viu do outro lado da pista, a professora junto ao seu carro,
com pneu furado e toda aflita.
- Não me diga que esse alto executivo foi ajudar a professora na rua…
- Digo. Mandou o segurança encostar o carro e atravessou a pista se
oferecendo para trocar o pneu. Quando ela quis pagá-lo, não aceitou
dizendo que estava só de passagem. Mas recebeu um cartão de apresentação
dela, e a promessa de que, se um dia precisasse de alguma indicação para
trabalho, iria procurà-la.
- E o que é que tem isso a ver com as calças?
- Calma, jovem! Antes de terminar a troca do pneu, aparece um senhor, meio
arrogante e, chamando-o de “borracha”, contrata-o, sem perguntar o preço,
para trocar o pneu de seu carro que estava mais adiante no acostamento.
- E o cara foi?
- Claro. É um professional. Despediu-se da professora, prometendo revê-la
e acompanhou o cidadão. Então trocou o pneu e, ao ser interrogado sobre o
preço do serviço, disse enfaticamente: “mil reais”.
- O quê??? Mil reais para trocar um pneu? É exploração, extorsão e
portanto, crime.
- Foi isso mesmo que o contratante disse. Ainda o ameaçou de mandá-lo para
prisão, já que que tinha parente advogado. “Bem se diz que vocês quando
não cagam na entrada, cagam na saída”, disse o cidadão.
- Velho, pegou pesado! E daí?
- E daí que deu um bafafá dos diabos, e só acalmou com a chegada da
polícia. Depois de todos identificados, o caso foi parar na justiça, pois
o contratado processou o contratante por falta de pagamento de um serviço
prestado, utilizando a professora como testemunha.
- E quem ganhou a causa?
- O economista, claro. Sua defesa baseou-se no fato de que não se tratava
do valor de mercado do serviço, mas sim o valor do profissional
contratado. E a sua remuneração atual junto com taxas, emolumentos,
encargos sociais e o fatídico BDI, daria mil reais por hora. Como ele
gastou cerca de uma hora no trabalho, não deu outra. E não tendo havido
acerto de preço, o Juiz julgou procedente a ação, sendo que o contratante
teve que entregar na hora um cheque de mil, o qual foi doado à professora
para ajudar nas suas pesquisas. E esse mesmo juiz ainda ficou surpreso
porque o economista não moveu outro processo por discriminação.
- Pô! Parece até um conto.
- Mas é real. E daí pode-se tirar pelo menos tres lições: primeiro, que
nem tudo é o que parece. Segundo, o valor de qualquer coisa (seja objeto
ou serviço), quem dá é o dono. Terceiro e mais importante, é que o
acertado não é caro nem barato. É acertado. Mas quando não é acertado, o
céu é o limite.
Dep. III - Mecânica.
Conversa de Cantina n. 12
DIA DAS MULHERES
Véspera de volta às aulas, apenas passo pela frente da cantina e dou de
cara com uma colega funcionária da escola que vai logo provocando:
- Amanhã deverá ter festa de recepção aos alunos. Vê se não fica no fim da
fila do bolo pra depois reclamar que não comeu(rs).
- Nem me lembre disso pois as organizadoras do evento não esquecem.
- E hoje é o Dia Internacional das Mulher. Vai dizer o que?
Puxando um improviso pré-escrito do bolso,
- O seguinte (adaptando Hugo):
O homem se orgulha em ser homem....
É uma criatura elevada
Tem um trono para sentar
Um cérebro que produz a luz
Um imensurável gênio
E aspira grandeza e glória
Tem a supremacia que representa a força
Convence pela razão
È capaz de todos os heroísmos que enobrecem
È o código que corrige
Enfim, é o templo
Onde todos se descobrem
Mas se ele fosse mulher...
Seria um ideal sublime
Teria um altar para me postar
Um coração que produz amor
Um angelical pensamento
Teria a preferência que representa o direito
Comoveria pelas lágrimas
Seria capaz de sacrifícios que sublimam
Seria o evangelho que aperfeiçoa
Enfim, o sacrário
Onde todos se ajoelhariam
E de quem todos se orgulhariam...
***********************************
ÀS MULHERES, MEUS RESPEITOS E GRATIDÃO!
(foi gritando mesmo...)
************************************
Ronaldo Cavalcante
Departamento III - Metal Mecânica.
Conversa de Cantina n. 11
O ALMIRANTE E A MARIPOSA
- Esses véi que não saca nada de informática, fica catando milho no computador na maior impata – Comentava com seu colega um aluno irritado por uma professora estar ocupando um computador, impedindo-o de orkutear.
- Pois é mano, inda mais mulher. Esse povo ainda não sabe que informática é pra gente, que tá com sangue na guerra, e fica aí f... com a paciência da gente. Tem professor que ensina informática e a turma dá de dez a zero nele. Agente enrola, joga, carrega programa o tempo todo e ele nem nota.
Logicamente que os dois alunos não me viram porque eu estava atrás de um dos pilares da cantina. Estava deliciosamente curtindo meu último dia de atividade na escola antes das férias desse ano. Tinha pedido um sanduíche (o lavoisier estava de meter medo; ralo, com a cor de burro-quando-foge) e degustava o mesmo pausadamente, consumindo cada migalha. Até um pedaço do queijo que caíra na mesa foi recuperado (depois de olhar para os lados e me certificar que não era visto) com a desculpa de testar meu sistema imunológico com alguns microbiozinhos inocentes. Me lembrava o Exército no fim de expediente das sextas-feiras, quando meu nome não saía na escala de plantão do fim de semana. Avançava o rancho no fim da fila, pegava o bandejão (V.O. para os íntimos) e comia lentamente aquele sobe-desce coalhado na gurdura, como se fora uma ceia de Natal.
Sinceramente eu torci para que alguém aparecesse e me tirasse daquele sufoco. Como não surgia ninguém e os jovens, possíveis alunos de informática, continuavam com seu depreciativo diálogo, larguei repentinamente a merenda e me senti na obrigação de participar da conversa sem ser convidado:
- Senhores, desculpe a intromissão, mas gostaria de fazer uma pergunta, pode ser?
- Manda - falou o primeiro com ar desafiador.
- Já ouviram falar em Almirante Hopper?
- Entendi. O senhor é um desses professores de informática da antiga e estava escutando nossa conversa escondido. – Disse o segundo aluno, talvez analisando meu aspecto jurássico.
- Nada disso. Eu já estava aqui quando vocês chegaram falando alto, sem observar em volta. E aí ? Alguém responde, ou vão sair pela tangente (se é que sabem o que é tangente)?
- Que qui tem a ver esse almirante com a gente? A gente entende é de computador, não de militarismo. Já somos concluintes.
- Não é “esse” mas “essa” Almirante. Sim, uma mulher. Uma anciã.
- Que tem a ver ?
- Muito, afinal vocês são praticamente técnicos em informática. São feras em bits-bytes e deveriam conhecer como o computador chegou ao que é hoje. Imagino que pelo menos devem saber algo sobre linguagem de máquina, assembly, Mark II, Mark I, Eniac, Univac, Cobol, Fortran, bug e outros bichos ...
- ???
- Pelo menos devem conhecer a história do almirante e a mariposa...
- Peraí, fábula? Isso é uma escola técnica, não jardim de infância.
- O QUÊ?! Não conhecem a história do ALMIRANTE E A MARIPOSA, tão propagada em fóruns na Internet? E se vangloriam de “sacarem” de computação?
Visto que os peguei de surpresa, e ganhei um pouco de atenção, apanhei calmamente meu resto de sanduíche, e, com um leve riso de canto de boca, puxei uma cadeira e passei a contar a história dessa valorosa mulher. Agora, já a todo ouvidos e já sem a indignação inicial.
- Pouco antes da segunda grande guerra, a então Tenente da Marinha Grace Hopper, americana, com quase quarenta anos (idosa para a época) recebeu como primeira missão, no prazo de 3 dias, calcular os coeficientes da série de arcos-tangentes, usando a ACC (Automatic Sequence Controlled Calculator) , uma máquina calculadora eletromecânica que pesava 35 toneladas, e continha mais de 80 km de fio interligando seus relés, tendo como entrada e saída centenas de cartões perfurados. Essa máquina era baseada na idéia de Babbage, considerado o inventor do computador main-frame, embora não tivesse oportunidade de construí-lo.
- E ela deu conta? – perguntou o mais destemido, já se interessando pela história.
- Não só cumpriu a missão programando em linguagem de máquina, como escreveu o manual de operação desse monstrengo, num calhamaço de 500 páginas, lançando em primeira mão, o princípio operacional dos computadores. Durante a guerra, essa mulher de sangue na guerra, como vocês se intitulam, já desenvolvia o Mark, o primeiro computador do mundo, além de aperfeiçoar a ACC e inventar o conceito de compilador.
- Cara ! – disse o segundo aluno, parecendo espantado.
- Cara não, coroa. Já com mais de 50 anos, assumiu o controle da construção do UNIVAC (Universal Automatic Computer), o primeiro computador à válvula do planeta, e desenvolveu, pessoalmente, um compilador para essa máquina. Depois disso seus trabalhos lhe renderam tantos títulos que nem ela mesma tinha conhecimento. Só de “Dra. Honoris Causa” foram mais de dez, nas mais famosas Universidades. Só aceitou se reformar da Marinha dos Estados Unidos, como Almirante, aos 80 anos de idade à pleno vapor. Isso, depois de ter desenvolvido o COBOL (quinze anos antes da popularização de orientação a objeto), inventado o conceito de ASSEMBLY e criado essa linguagem. É, caríssimos, antes do assembly, hoje ainda usado em PIC e CLP, a programação era na base do 00110011000111...(risos). Entretanto, com todo esse curriculum, ela é mais conhecida mundialmente por outro fato.
- Qual ? – falaram em uníssono.
- O fato de ter inventado o termo “bug”, tão conhecido internacionalmente.
- Sei, o tal inseto que provocou defeito no computador – disse um deles.
- Isso foi durante o desenvolvimento de Mark II, em 1946, quando um dos relés teimava em não operar, mesmo energizado, criando um bit zero onde deveria ter bit um. Ela percorreu aquela imensidão de relés, um a um, e descobriu que se tratava de uma mariposa que havia morrido entre os contatos do relé número 70 no painel F.
- Disso nós tínhamos uma idéia.
- Então, ela retirou a mariposa morta, prendeu-a com fita adesiva na página 92 do livro de ocorrência, no dia 9 de setembro às 15 horas, com os seguintes dizeres: “First actual case of bug being found” (primeiro caso real de bug encontrado). Esse livro encontra-se no museu da Marinha dos EUA com o inseto preso. Daí, a história do Almirante e a Mariposa (não a fábula).
- Então viveu muito a velhinha – disse o primeiro já em tom de respeito.
- Faleceu há pouco tempo, em 1992, com quase noventa anos de idade, e ainda rabiscando algo sobre computadores do futuro. Vocês já deviam estar se iniciando nessa máquina.
- É verdade – disse o mais velho. – Eu já digitava no Word e rabiscava o Paint.
- Então, da próxima vez que virem alguém mais velho tateando um teclado, em vez de depreciá-lo, tentem ajudá-lo com suas experiências. Foi exatamente isso que a Almirante Hopper, a velhinha, fez até o fim.
Levantei-me logo, para não embaraça-los, mas não resisti a tentação: sem que me vissem, apontei para o mais afobado com tres dedos da mão direita dobrados, indicador e polegar estendidos em forma de L, movimentei o polegar rápido para frente e em seguida assoprei a fumaça que ainda escapava do indicador . Afinal sou humano, erro muito.
Departamento III - Metal Mecânica.
Departamento III - Metal Mecânica.
Conversa de Cantina n. 9
ENTREVISTA PARA EMPREGO
Troquei de bem com a moça da cantina porque ela me prometeu passar manteiga no pão que acompanha o meio-sopão (era ordem superior só contemplar a cumbuca cheia). Então fiz o pedido do dito cujo (o lavoisier) e, como estava sozinho naquele mar de mesas e cadeiras, fiquei apenas discutindo com meus botões o que fazer nas férias que ora bate à porta.
Nisso aparece um aluno com quem trabalhei no ano passado que acabara de concluir o curso técnico (um bom aluno, por sinal, mas um tanto limitado na comunicação), e grita:
- Mestre! Preciso levar um papo consigo.
Não sou mestre, mas eles sempre me chamam assim, quando estão aprontando alguma.
- E aí rapaz, já está trabalhando?
- Pois, é... tipo assim... rolou uma parada numa empresa, e o teste é na próxima semana. Mas é mole pá nós.
- Ótimo. Você é um bom técnico, vai se sair bem no teste prático. Boa sorte - (vai precisar dela, para se comunicar, pensei).
- Na boa. Mas pintou sujeira... na moral, velho, os cara marcaram uma entrevista pra antes do teste, com o mangangão que vai ser meu chefe. Na moral... ninguém merece...preciso de uma dica sua que trabalhou muitos anos na indústria.
- É, entendo sua preocupação, só não vejo como posso lhe ajudar.
- Seguinte: vou fazer teste na área de mecânica mas tou matriculado numa facu de humanas em licenciatura. É obrigatório dar a escolaridade toda.
- Peça um adiamento da entrevista e faça logo o teste prático para seu futuro chefe ganhar confiança.
- Tentei, mas furou. Se falar da facu, posso perder a vaga porque nada a ver com o trampo. Um outro mané me deu a idéia que só quero emprego pra passar uma chuva porque eu quero é ser professor. Não sei como me sair. Preciso pegar no batente pra continuar estudando. O quê que faço ? Me dê o canal.
Surpreso pelo fato do rapaz estar cursando humanas para ser um professor, mantendo uma peculiar maneira de se expressar (apesar de ser um bom técnico) e como já tinha lido algo a respeito, arrisquei um conselho:
- Honestidade, acima de tudo. E é honesto dizer que cursa uma faculdade em área diferente da vaga a preencher. Qualquer entrevistador deve considerar o fato de que você busca uma carreira para se desenvolver. Não deprecie o fato de fazer uma faculdade por temer uma dificuldade na busca de emprego, pois esses temores acabam por prejudicar no futuro. Procure deixar claro que o nível superior é uma forma de ampliar seus conhecimentos e de se atualizar nesse mundo globalizado. Fale de probabilidade, e prove que as chances de você se formar e tomar outro rumo, são as mesmas de ser demitido por contenção de despesa (isso dará um pequeno susto no seu entrevistador, eles nunca esperam esse tipo de réplica). Do futuro ninguém sabe, só Deus. Ressalte que cursar uma faculdade é um ponto favorável, considerando que poucos conseguem ainda hoje. O que você deve demonstrar claramente é: atitude positiva, interesse na vaga, vontade, brilho nos olhos quando fala, interesse em crescer e mostrar todo seu potencial, bastando para isso apenas uma chance.
- Valeu, futuro colega, o sr. é brodi! Humm, o sopão tá o bicho!
Então eu concluí:
- O mais importante: um curso intensivo inicialmente de uma semana, posteriormente de um ano, no mínimo, sobre vocabulário e gramática.
Departamento III - Metal Mecânica.
Ronaldo F. Cavalcante | comentários(1)